
Grupos islâmicos ganham força com conexão Líbia-Argélia-Mali
Nova ordem na Líbia pós-Kaddafi, sequestro com reféns estrangeiros na Argélia e crise no Mali reforçam papel dos grupos islâmicos radicais no norte da África. Governos ocidentais batem cabeça diante de conflitos que, em grande medida, surgiram após a sangrenta repressão a grupos islâmicos por ditaduras apoiadas pelos governos ocidentais. A análise é de Eduardo Febbro, de Paris
Eduardo Febbro
Paris – Um poder ditatorial como o argelino, surgido de um golpe de Estado (1992); uma força islâmica oriunda da luta contra a ditadura; uma potência colonial, a França, que julga ter o direito de intervir militarmente em outro país com bases legais frágeis e a eterna desculpa do terrorismo islâmico; e muitas armas e ódio dispersos por toda a região provenientes dos arsenais do coronel líbio Muamar Kaddafi.Todos esses ingredientes se combinaram para convergir na dramática invasão, com tomada de reféns, da planta de gás situada em Tigantourine, perto da localidade argelina de Amenas.
Três dias depois de Argel decidir, sem comunicar a França e os demais países envolvidos, que iria retomar à força a planta de gás, a situação perdeu toda a sua transparência. Ao contrário do que o governo argelino disse na última quinta-feira (17), quando anunciou que a operação havia terminado, ela segue em curso, e se desconhecem a cifra exata de mortos, suas nacionalidades e o número preciso de indivíduos liberados. Confusão, sangue e horror.
Ao menos dez japoneses e oito noruegueses não foram localizados por ninguém e permanecem foras das estatísticas divulgadas pelo governo argelino. As autoridades anunciaram que havia 25 mortos após a operação, sendo 18 estrangeiros e 7 terroristas. O último comunicado das forças de segurança dava conta da liberação de 573 argelinos e de um leque que vai de 100 a 132 reféns libertados. Mas o complexo industrial de Tigantourine não está ainda sob controle total dos comandos do país, e não se sabe quantos militantes islâmicos seguem lá dentro, nem quando reféns continuam nas mãos de terroristas ou quanto estão mortos ou escondidos.
O chefe de governo na Noruega, Jens Stoltenberg, disse na sexta-feira (18) que o país devia se preparar para as más notícias. Em Paris, o primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault, confirmou que “a operação continuava” e que não se conhecia “nem a quantidade, nem a nacionalidade” dos reféns mortos. O ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius, anunciou que um refém francês morreu durante a ação das tropas argelinas.
A rede de tevê France 24 revelou, baseando-se em fontes na Argélia, que haveria entre sete e dez membros do comando islâmico escondidos em um setor do complexo industrial e que ameaçavam explodir toda a área. Várias fontes ainda completaram que haveria mais reféns usados como escudos humanos. Prova disso, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse ao Parlamento que “estamos sempre confrontados a uma situação movediça e perigosa na qual uma parte dos terroristas foi eliminada em um setor, mas outros representam uma ameaça em outra zona”.
A agência oficial da Mauritânia, ANI, revelou que os terroristas propuseram aos Estados Unidos liberar dois reféns do país em troca da liberação de dois militantes islâmicos presos em território norte-americano. Tratam-se do paquistanês Aafia Siddiqui e do xeique egípcio Omar Abdel Rahman, ambos condenados por terrorismo. A porta-vos do departamento de Estado norte-americano, Victoria Nuland, afirmou que o país “não negocia com terroristas”.
As informações são contraditórias. Agências internacionais e correspondentes têm transmitido informação nem sempre providas de verossimilhança. Alguns dizem que Abu al Baraa, um dos chefes do grupo Al Muthalimin (“Os que assinam com sangue”), morreu, mas outros garantem que ele está vivo e entrincheirado. O diário argelino Al Watan adiantou que os serviços especiais argelinos interrogaram um dos islamitas capturados e que ele assegurou que o comando possuía 32 homens. Por outro lado, o líder do grupo, Mojtar Belmojtar, pediu que a França “negociasse” o fim da guerra no Mali. Foi também ele que propôs a troca de reféns por presos com os Estados Unidos.
Com o correr das horas começam a circular os depoimentos dramáticos dos reféns libertados. A rádio France Info difundiu vários testemunhos que mostram que o comando islâmico entrou no complexo industrial com um único objetivo: tomar reféns estrangeiros. Um libertado disse que quando viu os sequestrados entrarem em sua área, um deles disse: “Só buscamos estrangeiros, os argelinos podem sair”.
A polêmica ação de retomada do governo argelino encobre, ainda que temporariamente, a questão da intervenção francesa. Argel usou a mesma estratégia brutal contra os islâmicos empregada desde o golpe de Estado de 1992. Cabe recordar que esse golpe de Estado teve como objetivo impedir que os islamistas da FIS, a Frente Islâmica de Salvação, subissem legitimamente ao poder logo após terem ganhado as eleições legislativas. Kader Abderrahim, um pesquisador especializado em Magreb e no islamismo, explicou ao jornal matutino francês “Libération” que “a Argélia voltou a cometer seus pecados de antes: a falta de transparência e o segredo”. Lamentavelmente, o exército argelino não está capacitado para operações arriscadas como a executada. Agora, vemos as consequências trágicas”, completou.
O especialista disse ainda que, com a ação, a Argélia rompeu “o círculo virtuoso” internacional que havia se formado nos últimos anos. “É uma catástrofe em termos de imagem, em termos econômicos, e também um fracasso no combate ao terrorismo”, apontou.
Em entrevista ao semanário francés “Le Nouvel Observateur”, Louis Caprioli, ex-responsável pela luta antiterrorista no órgão de contra-espionagem francês DST, disse que, assim como outros observadores, está convencido de que não há uma relação direta entre a guerra no Mali e a ação do comando islâmico na Argélia. “Creio que a operação estava preparada há bastante tempo, muito antes da tentativa de avanço dos grupos islâmicos sobre o sul do Mali e da reação francesa. Era necessário uma organização logística muito grande para agir numa área bastante controlada pelos argelinos, como é o complexo de gás”, afirmou. Já para outro especialista em Jihad internacional entrevistado pelo “Libération”, Dominique Thomas, a ação do comando islâmico visou “internacionalizar o conflito e golpear todos os inimigos da jihad, tanto os ocidentais quanto os vizinhos que respaldam a ofensiva no Mali”.
O certo é que todos os protagonistas da atual crise estão ligados à história recente da Argélia, com o golpe de Estado e a eliminação dos islâmicos, e também com a queda do líbio Muamar Kaddafi. Os terroristas que ingressaram na planta de Tigantourine chegaram através da fronteira com a Líbia, distante uns cem quilômetros. É por lá que ficou raízes o argelino Mojtar Belmojtar, líder do comando em questão, Al Muthalimin (“Os que assinam com sangue”), e que já passou por outro movimento, o Grupo Salafista de Pregação e Combate, ramo dissidente do famoso Grupo Islâmico Armado (GIA), cujos tentáculos chegaram até a França nos anos noventa. Desde o golpe de Estado na Argélia, a guerra entre governo e islâmicos gerou 150 mil mortos.
Além dos movimentos citados anteriormente, é atuante na área a Al Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI). Esses grupos estão unidos para avançar rumo ao sul do Mali, aproveitando a fraqueza do Estado após o golpe de 2012. Quando as forças ocidentais bombardearam a Líbia, mercenários que trabalharam para Kaddafi se dispersaram na ampla fronteira sul, com quatro mil quilômetros de deserto. As armas, inclusive as oferecidas pelos ocidentais aos rebeldes, pararam nas mãos dos islamitas. Negócio frutífero e uma bomba relógio.
Três dias depois de Argel decidir, sem comunicar a França e os demais países envolvidos, que iria retomar à força a planta de gás, a situação perdeu toda a sua transparência. Ao contrário do que o governo argelino disse na última quinta-feira (17), quando anunciou que a operação havia terminado, ela segue em curso, e se desconhecem a cifra exata de mortos, suas nacionalidades e o número preciso de indivíduos liberados. Confusão, sangue e horror.
Ao menos dez japoneses e oito noruegueses não foram localizados por ninguém e permanecem foras das estatísticas divulgadas pelo governo argelino. As autoridades anunciaram que havia 25 mortos após a operação, sendo 18 estrangeiros e 7 terroristas. O último comunicado das forças de segurança dava conta da liberação de 573 argelinos e de um leque que vai de 100 a 132 reféns libertados. Mas o complexo industrial de Tigantourine não está ainda sob controle total dos comandos do país, e não se sabe quantos militantes islâmicos seguem lá dentro, nem quando reféns continuam nas mãos de terroristas ou quanto estão mortos ou escondidos.
O chefe de governo na Noruega, Jens Stoltenberg, disse na sexta-feira (18) que o país devia se preparar para as más notícias. Em Paris, o primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault, confirmou que “a operação continuava” e que não se conhecia “nem a quantidade, nem a nacionalidade” dos reféns mortos. O ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius, anunciou que um refém francês morreu durante a ação das tropas argelinas.
A rede de tevê France 24 revelou, baseando-se em fontes na Argélia, que haveria entre sete e dez membros do comando islâmico escondidos em um setor do complexo industrial e que ameaçavam explodir toda a área. Várias fontes ainda completaram que haveria mais reféns usados como escudos humanos. Prova disso, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse ao Parlamento que “estamos sempre confrontados a uma situação movediça e perigosa na qual uma parte dos terroristas foi eliminada em um setor, mas outros representam uma ameaça em outra zona”.
A agência oficial da Mauritânia, ANI, revelou que os terroristas propuseram aos Estados Unidos liberar dois reféns do país em troca da liberação de dois militantes islâmicos presos em território norte-americano. Tratam-se do paquistanês Aafia Siddiqui e do xeique egípcio Omar Abdel Rahman, ambos condenados por terrorismo. A porta-vos do departamento de Estado norte-americano, Victoria Nuland, afirmou que o país “não negocia com terroristas”.
As informações são contraditórias. Agências internacionais e correspondentes têm transmitido informação nem sempre providas de verossimilhança. Alguns dizem que Abu al Baraa, um dos chefes do grupo Al Muthalimin (“Os que assinam com sangue”), morreu, mas outros garantem que ele está vivo e entrincheirado. O diário argelino Al Watan adiantou que os serviços especiais argelinos interrogaram um dos islamitas capturados e que ele assegurou que o comando possuía 32 homens. Por outro lado, o líder do grupo, Mojtar Belmojtar, pediu que a França “negociasse” o fim da guerra no Mali. Foi também ele que propôs a troca de reféns por presos com os Estados Unidos.
Com o correr das horas começam a circular os depoimentos dramáticos dos reféns libertados. A rádio France Info difundiu vários testemunhos que mostram que o comando islâmico entrou no complexo industrial com um único objetivo: tomar reféns estrangeiros. Um libertado disse que quando viu os sequestrados entrarem em sua área, um deles disse: “Só buscamos estrangeiros, os argelinos podem sair”.
A polêmica ação de retomada do governo argelino encobre, ainda que temporariamente, a questão da intervenção francesa. Argel usou a mesma estratégia brutal contra os islâmicos empregada desde o golpe de Estado de 1992. Cabe recordar que esse golpe de Estado teve como objetivo impedir que os islamistas da FIS, a Frente Islâmica de Salvação, subissem legitimamente ao poder logo após terem ganhado as eleições legislativas. Kader Abderrahim, um pesquisador especializado em Magreb e no islamismo, explicou ao jornal matutino francês “Libération” que “a Argélia voltou a cometer seus pecados de antes: a falta de transparência e o segredo”. Lamentavelmente, o exército argelino não está capacitado para operações arriscadas como a executada. Agora, vemos as consequências trágicas”, completou.
O especialista disse ainda que, com a ação, a Argélia rompeu “o círculo virtuoso” internacional que havia se formado nos últimos anos. “É uma catástrofe em termos de imagem, em termos econômicos, e também um fracasso no combate ao terrorismo”, apontou.
Em entrevista ao semanário francés “Le Nouvel Observateur”, Louis Caprioli, ex-responsável pela luta antiterrorista no órgão de contra-espionagem francês DST, disse que, assim como outros observadores, está convencido de que não há uma relação direta entre a guerra no Mali e a ação do comando islâmico na Argélia. “Creio que a operação estava preparada há bastante tempo, muito antes da tentativa de avanço dos grupos islâmicos sobre o sul do Mali e da reação francesa. Era necessário uma organização logística muito grande para agir numa área bastante controlada pelos argelinos, como é o complexo de gás”, afirmou. Já para outro especialista em Jihad internacional entrevistado pelo “Libération”, Dominique Thomas, a ação do comando islâmico visou “internacionalizar o conflito e golpear todos os inimigos da jihad, tanto os ocidentais quanto os vizinhos que respaldam a ofensiva no Mali”.
O certo é que todos os protagonistas da atual crise estão ligados à história recente da Argélia, com o golpe de Estado e a eliminação dos islâmicos, e também com a queda do líbio Muamar Kaddafi. Os terroristas que ingressaram na planta de Tigantourine chegaram através da fronteira com a Líbia, distante uns cem quilômetros. É por lá que ficou raízes o argelino Mojtar Belmojtar, líder do comando em questão, Al Muthalimin (“Os que assinam com sangue”), e que já passou por outro movimento, o Grupo Salafista de Pregação e Combate, ramo dissidente do famoso Grupo Islâmico Armado (GIA), cujos tentáculos chegaram até a França nos anos noventa. Desde o golpe de Estado na Argélia, a guerra entre governo e islâmicos gerou 150 mil mortos.
Além dos movimentos citados anteriormente, é atuante na área a Al Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI). Esses grupos estão unidos para avançar rumo ao sul do Mali, aproveitando a fraqueza do Estado após o golpe de 2012. Quando as forças ocidentais bombardearam a Líbia, mercenários que trabalharam para Kaddafi se dispersaram na ampla fronteira sul, com quatro mil quilômetros de deserto. As armas, inclusive as oferecidas pelos ocidentais aos rebeldes, pararam nas mãos dos islamitas. Negócio frutífero e uma bomba relógio.
Nova ordem na Líbia pós-Kaddafi, sequestro com reféns estrangeiros na Argélia e crise no Mali reforçam papel dos grupos islâmicos radicais no norte da África. Governos ocidentais batem cabeça diante de conflitos que, em grande medida, surgiram após a sangrenta repressão a grupos islâmicos por ditaduras apoiadas pelos governos ocidentais. A análise é de Eduardo Febbro, de Paris
Eduardo Febbro
Paris – Um poder ditatorial como o argelino, surgido de um golpe de Estado (1992); uma força islâmica oriunda da luta contra a ditadura; uma potência colonial, a França, que julga ter o direito de intervir militarmente em outro país com bases legais frágeis e a eterna desculpa do terrorismo islâmico; e muitas armas e ódio dispersos por toda a região provenientes dos arsenais do coronel líbio Muamar Kaddafi.Todos esses ingredientes se combinaram para convergir na dramática invasão, com tomada de reféns, da planta de gás situada em Tigantourine, perto da localidade argelina de Amenas.
Três dias depois de Argel decidir, sem comunicar a França e os demais países envolvidos, que iria retomar à força a planta de gás, a situação perdeu toda a sua transparência. Ao contrário do que o governo argelino disse na última quinta-feira (17), quando anunciou que a operação havia terminado, ela segue em curso, e se desconhecem a cifra exata de mortos, suas nacionalidades e o número preciso de indivíduos liberados. Confusão, sangue e horror.
Ao menos dez japoneses e oito noruegueses não foram localizados por ninguém e permanecem foras das estatísticas divulgadas pelo governo argelino. As autoridades anunciaram que havia 25 mortos após a operação, sendo 18 estrangeiros e 7 terroristas. O último comunicado das forças de segurança dava conta da liberação de 573 argelinos e de um leque que vai de 100 a 132 reféns libertados. Mas o complexo industrial de Tigantourine não está ainda sob controle total dos comandos do país, e não se sabe quantos militantes islâmicos seguem lá dentro, nem quando reféns continuam nas mãos de terroristas ou quanto estão mortos ou escondidos.
O chefe de governo na Noruega, Jens Stoltenberg, disse na sexta-feira (18) que o país devia se preparar para as más notícias. Em Paris, o primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault, confirmou que “a operação continuava” e que não se conhecia “nem a quantidade, nem a nacionalidade” dos reféns mortos. O ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius, anunciou que um refém francês morreu durante a ação das tropas argelinas.
A rede de tevê France 24 revelou, baseando-se em fontes na Argélia, que haveria entre sete e dez membros do comando islâmico escondidos em um setor do complexo industrial e que ameaçavam explodir toda a área. Várias fontes ainda completaram que haveria mais reféns usados como escudos humanos. Prova disso, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse ao Parlamento que “estamos sempre confrontados a uma situação movediça e perigosa na qual uma parte dos terroristas foi eliminada em um setor, mas outros representam uma ameaça em outra zona”.
A agência oficial da Mauritânia, ANI, revelou que os terroristas propuseram aos Estados Unidos liberar dois reféns do país em troca da liberação de dois militantes islâmicos presos em território norte-americano. Tratam-se do paquistanês Aafia Siddiqui e do xeique egípcio Omar Abdel Rahman, ambos condenados por terrorismo. A porta-vos do departamento de Estado norte-americano, Victoria Nuland, afirmou que o país “não negocia com terroristas”.
As informações são contraditórias. Agências internacionais e correspondentes têm transmitido informação nem sempre providas de verossimilhança. Alguns dizem que Abu al Baraa, um dos chefes do grupo Al Muthalimin (“Os que assinam com sangue”), morreu, mas outros garantem que ele está vivo e entrincheirado. O diário argelino Al Watan adiantou que os serviços especiais argelinos interrogaram um dos islamitas capturados e que ele assegurou que o comando possuía 32 homens. Por outro lado, o líder do grupo, Mojtar Belmojtar, pediu que a França “negociasse” o fim da guerra no Mali. Foi também ele que propôs a troca de reféns por presos com os Estados Unidos.
Com o correr das horas começam a circular os depoimentos dramáticos dos reféns libertados. A rádio France Info difundiu vários testemunhos que mostram que o comando islâmico entrou no complexo industrial com um único objetivo: tomar reféns estrangeiros. Um libertado disse que quando viu os sequestrados entrarem em sua área, um deles disse: “Só buscamos estrangeiros, os argelinos podem sair”.
A polêmica ação de retomada do governo argelino encobre, ainda que temporariamente, a questão da intervenção francesa. Argel usou a mesma estratégia brutal contra os islâmicos empregada desde o golpe de Estado de 1992. Cabe recordar que esse golpe de Estado teve como objetivo impedir que os islamistas da FIS, a Frente Islâmica de Salvação, subissem legitimamente ao poder logo após terem ganhado as eleições legislativas. Kader Abderrahim, um pesquisador especializado em Magreb e no islamismo, explicou ao jornal matutino francês “Libération” que “a Argélia voltou a cometer seus pecados de antes: a falta de transparência e o segredo”. Lamentavelmente, o exército argelino não está capacitado para operações arriscadas como a executada. Agora, vemos as consequências trágicas”, completou.
O especialista disse ainda que, com a ação, a Argélia rompeu “o círculo virtuoso” internacional que havia se formado nos últimos anos. “É uma catástrofe em termos de imagem, em termos econômicos, e também um fracasso no combate ao terrorismo”, apontou.
Em entrevista ao semanário francés “Le Nouvel Observateur”, Louis Caprioli, ex-responsável pela luta antiterrorista no órgão de contra-espionagem francês DST, disse que, assim como outros observadores, está convencido de que não há uma relação direta entre a guerra no Mali e a ação do comando islâmico na Argélia. “Creio que a operação estava preparada há bastante tempo, muito antes da tentativa de avanço dos grupos islâmicos sobre o sul do Mali e da reação francesa. Era necessário uma organização logística muito grande para agir numa área bastante controlada pelos argelinos, como é o complexo de gás”, afirmou. Já para outro especialista em Jihad internacional entrevistado pelo “Libération”, Dominique Thomas, a ação do comando islâmico visou “internacionalizar o conflito e golpear todos os inimigos da jihad, tanto os ocidentais quanto os vizinhos que respaldam a ofensiva no Mali”.
O certo é que todos os protagonistas da atual crise estão ligados à história recente da Argélia, com o golpe de Estado e a eliminação dos islâmicos, e também com a queda do líbio Muamar Kaddafi. Os terroristas que ingressaram na planta de Tigantourine chegaram através da fronteira com a Líbia, distante uns cem quilômetros. É por lá que ficou raízes o argelino Mojtar Belmojtar, líder do comando em questão, Al Muthalimin (“Os que assinam com sangue”), e que já passou por outro movimento, o Grupo Salafista de Pregação e Combate, ramo dissidente do famoso Grupo Islâmico Armado (GIA), cujos tentáculos chegaram até a França nos anos noventa. Desde o golpe de Estado na Argélia, a guerra entre governo e islâmicos gerou 150 mil mortos.
Além dos movimentos citados anteriormente, é atuante na área a Al Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI). Esses grupos estão unidos para avançar rumo ao sul do Mali, aproveitando a fraqueza do Estado após o golpe de 2012. Quando as forças ocidentais bombardearam a Líbia, mercenários que trabalharam para Kaddafi se dispersaram na ampla fronteira sul, com quatro mil quilômetros de deserto. As armas, inclusive as oferecidas pelos ocidentais aos rebeldes, pararam nas mãos dos islamitas. Negócio frutífero e uma bomba relógio.
Três dias depois de Argel decidir, sem comunicar a França e os demais países envolvidos, que iria retomar à força a planta de gás, a situação perdeu toda a sua transparência. Ao contrário do que o governo argelino disse na última quinta-feira (17), quando anunciou que a operação havia terminado, ela segue em curso, e se desconhecem a cifra exata de mortos, suas nacionalidades e o número preciso de indivíduos liberados. Confusão, sangue e horror.
Ao menos dez japoneses e oito noruegueses não foram localizados por ninguém e permanecem foras das estatísticas divulgadas pelo governo argelino. As autoridades anunciaram que havia 25 mortos após a operação, sendo 18 estrangeiros e 7 terroristas. O último comunicado das forças de segurança dava conta da liberação de 573 argelinos e de um leque que vai de 100 a 132 reféns libertados. Mas o complexo industrial de Tigantourine não está ainda sob controle total dos comandos do país, e não se sabe quantos militantes islâmicos seguem lá dentro, nem quando reféns continuam nas mãos de terroristas ou quanto estão mortos ou escondidos.
O chefe de governo na Noruega, Jens Stoltenberg, disse na sexta-feira (18) que o país devia se preparar para as más notícias. Em Paris, o primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault, confirmou que “a operação continuava” e que não se conhecia “nem a quantidade, nem a nacionalidade” dos reféns mortos. O ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius, anunciou que um refém francês morreu durante a ação das tropas argelinas.
A rede de tevê France 24 revelou, baseando-se em fontes na Argélia, que haveria entre sete e dez membros do comando islâmico escondidos em um setor do complexo industrial e que ameaçavam explodir toda a área. Várias fontes ainda completaram que haveria mais reféns usados como escudos humanos. Prova disso, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse ao Parlamento que “estamos sempre confrontados a uma situação movediça e perigosa na qual uma parte dos terroristas foi eliminada em um setor, mas outros representam uma ameaça em outra zona”.
A agência oficial da Mauritânia, ANI, revelou que os terroristas propuseram aos Estados Unidos liberar dois reféns do país em troca da liberação de dois militantes islâmicos presos em território norte-americano. Tratam-se do paquistanês Aafia Siddiqui e do xeique egípcio Omar Abdel Rahman, ambos condenados por terrorismo. A porta-vos do departamento de Estado norte-americano, Victoria Nuland, afirmou que o país “não negocia com terroristas”.
As informações são contraditórias. Agências internacionais e correspondentes têm transmitido informação nem sempre providas de verossimilhança. Alguns dizem que Abu al Baraa, um dos chefes do grupo Al Muthalimin (“Os que assinam com sangue”), morreu, mas outros garantem que ele está vivo e entrincheirado. O diário argelino Al Watan adiantou que os serviços especiais argelinos interrogaram um dos islamitas capturados e que ele assegurou que o comando possuía 32 homens. Por outro lado, o líder do grupo, Mojtar Belmojtar, pediu que a França “negociasse” o fim da guerra no Mali. Foi também ele que propôs a troca de reféns por presos com os Estados Unidos.
Com o correr das horas começam a circular os depoimentos dramáticos dos reféns libertados. A rádio France Info difundiu vários testemunhos que mostram que o comando islâmico entrou no complexo industrial com um único objetivo: tomar reféns estrangeiros. Um libertado disse que quando viu os sequestrados entrarem em sua área, um deles disse: “Só buscamos estrangeiros, os argelinos podem sair”.
A polêmica ação de retomada do governo argelino encobre, ainda que temporariamente, a questão da intervenção francesa. Argel usou a mesma estratégia brutal contra os islâmicos empregada desde o golpe de Estado de 1992. Cabe recordar que esse golpe de Estado teve como objetivo impedir que os islamistas da FIS, a Frente Islâmica de Salvação, subissem legitimamente ao poder logo após terem ganhado as eleições legislativas. Kader Abderrahim, um pesquisador especializado em Magreb e no islamismo, explicou ao jornal matutino francês “Libération” que “a Argélia voltou a cometer seus pecados de antes: a falta de transparência e o segredo”. Lamentavelmente, o exército argelino não está capacitado para operações arriscadas como a executada. Agora, vemos as consequências trágicas”, completou.
O especialista disse ainda que, com a ação, a Argélia rompeu “o círculo virtuoso” internacional que havia se formado nos últimos anos. “É uma catástrofe em termos de imagem, em termos econômicos, e também um fracasso no combate ao terrorismo”, apontou.
Em entrevista ao semanário francés “Le Nouvel Observateur”, Louis Caprioli, ex-responsável pela luta antiterrorista no órgão de contra-espionagem francês DST, disse que, assim como outros observadores, está convencido de que não há uma relação direta entre a guerra no Mali e a ação do comando islâmico na Argélia. “Creio que a operação estava preparada há bastante tempo, muito antes da tentativa de avanço dos grupos islâmicos sobre o sul do Mali e da reação francesa. Era necessário uma organização logística muito grande para agir numa área bastante controlada pelos argelinos, como é o complexo de gás”, afirmou. Já para outro especialista em Jihad internacional entrevistado pelo “Libération”, Dominique Thomas, a ação do comando islâmico visou “internacionalizar o conflito e golpear todos os inimigos da jihad, tanto os ocidentais quanto os vizinhos que respaldam a ofensiva no Mali”.
O certo é que todos os protagonistas da atual crise estão ligados à história recente da Argélia, com o golpe de Estado e a eliminação dos islâmicos, e também com a queda do líbio Muamar Kaddafi. Os terroristas que ingressaram na planta de Tigantourine chegaram através da fronteira com a Líbia, distante uns cem quilômetros. É por lá que ficou raízes o argelino Mojtar Belmojtar, líder do comando em questão, Al Muthalimin (“Os que assinam com sangue”), e que já passou por outro movimento, o Grupo Salafista de Pregação e Combate, ramo dissidente do famoso Grupo Islâmico Armado (GIA), cujos tentáculos chegaram até a França nos anos noventa. Desde o golpe de Estado na Argélia, a guerra entre governo e islâmicos gerou 150 mil mortos.
Além dos movimentos citados anteriormente, é atuante na área a Al Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI). Esses grupos estão unidos para avançar rumo ao sul do Mali, aproveitando a fraqueza do Estado após o golpe de 2012. Quando as forças ocidentais bombardearam a Líbia, mercenários que trabalharam para Kaddafi se dispersaram na ampla fronteira sul, com quatro mil quilômetros de deserto. As armas, inclusive as oferecidas pelos ocidentais aos rebeldes, pararam nas mãos dos islamitas. Negócio frutífero e uma bomba relógio.
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