Na coluna deste mês, Jean Remy Guimarães analisa as contradições da política econômica e ambiental do Brasil. Enquanto o país comemora a redução do desmatamento, investe no petróleo e recorre às termelétricas, aumentando o peso da energia em seu saldo de emissões.
Jean Remy Davée Guimarães
Jean Remy Davée Guimarães
Dados indicam que as emissões brasileiras caíram entre 2005 e 2010, principalmente devido à redução do desmatamento. Mas, por conta da seca, o país tem recorrido às termelétricas, grandes emissoras de CO2. (montagem: Carla Almeida)
Os países desenvolvidos divulgam anualmente seus inventários nacionais de emissões de gases de efeito estufa. O Brasil, que, como todos sabem, é um país em desenvolvimento (os demais estarão em senescência?) só divulgou seus inventários duas vezes, em 1995 e 2010. Nas duas ocasiões, a divulgação ocorreu cinco anos após os dados serem coletados. Ou estamos aprendendo muito devagar, ou não estamos muito convictos da relevância da tarefa. Também se poderia especular que não temos pressa em anunciar más notícias.
Seja como for, no inventário de 2010, o desmatamento respondia por 61% das emissões brasileiras. A agropecuária – filha do desmatamento – respondia por 19%, a energia por 15% e atividade industrial, tratamento de resíduos e saneamento, juntos, por 5%.
A terceira posição do setor de energia no ranking das emissões nacionais deve-se sobretudo à forte proporção de geração hidroelétrica
Os números pedem alguns comentários e ponderações. Colocavam o Brasil entre os dez maiores emissores do planeta – Brasil-sil-sil! – e, com a Indonésia, um dos únicos a ter o desmatamento como fator principal de emissão. A terceira posição do setor de energia no ranking das emissões nacionais deve-se sobretudo à forte proporção de geração hidroelétrica, menos suja que carvão, óleo e mesmo gás. A indústria, com seus magros 3% do total de emissões parece estar bem na foto, mas depende de agropecuária e energia.
Essa queda deu-se por uma combinação de fatores – nem todos virtuosos, mas não cabe esmiuçá-los nesta coluna, bastando, por ora, que sejam, como de fato são, uma ótima notícia. Tomara que vire rotina. Mas, virando ou não, isto colocaria, em 2010, o desmatamento na terceira posição do ranking, atrás de agropecuária e energia.
Medidas equizofrênicas
Mas o castigo pela falta de planejamento e maior e mais rápida diversificação da matriz energética veio a cavalo – cavalo-vapor, faz favor. As termelétricas, que não tínhamos no apagão de 2001 e agora temos, estão a todo vapor (e CO2) para evitar que o nível das represas hidrelétricas baixe demais.

- Obra da usina termelétrica Candiota 3, no Rio Grande do Sul, em abril de 2009. Estima-se que entre outubro e dezembro de 2012, as termelétricas teriam despejado cerca de 16 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera
Que ironia, um fator climático como a seca, talvez sintoma de mudanças globais, causa queda na geração de uma energia relativamente limpa e aumento na geração de outra energia bem mais suja, contribuindo para mais mudanças globais.
E assim, silenciosamente (para quem não mora perto de uma), as termelétricas nos salvam do apagão (por enquanto) e apagam a boa notícia da queda do desmatamento.
E assim as termelétricas nos salvam do apagão e apagam a boa notícia da queda do desmatamento
Como assim? Ainda estávamos comemorando! Pois é, alegrias ambientais parecem mesmo durar pouco. A WayCarbon, empresa de consultoria, estimou que entre outubro, quando foram acionadas, e dezembro do ano passado, as termelétricas despejaram cerca de 16 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera, o que deverá colocar o setor de energia na frente do desmatamento no ranking das emissões em 2012.
Mas não desanime! Se chover muito, poderemos em breve comemorar a redução das emissões termelétricas em 30% ou mais. A não ser que até lá alguém resolva calcular o aumento das emissões resultante da piora do trânsito urbano e do calor.
Os ambientalistas são mesmo uns chatos, nunca estão satisfeitos. Também, pudera...
Jean Remy Davée GuimarãesInstituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Jean Remy Davée GuimarãesInstituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro
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