segunda-feira, 21 de novembro de 2011

VESTÍGIOS DA HISTÓRIA SUL CAPIXABAS EM 11 NARRATIVAS

Não é todo dia que tomamos conhecimento sobre a publicação de uma obra de real valor. Reconheço que elas existam, mas muitas das vezes permanecem anônimas nas gavetas e nos computadores dos seus autores. Ainda é difícil e complicado dar divulgação plena a trabalhos acadêmicos, muito embora a internet venha encurtando este espaço do vazio cultural. Editar um livro é muito complicado e penoso. Mas tem gente que não desiste.
Quando soube que receberia um exemplar de VESTÍGIOS DA HISTÓRIA SUL CAPIXABA EM 11 NARRATIVAS e que o receberia pelos Correios, tive de aguardar por um tempo além do normal, a greve do pessoal dos Correios me retardou em alguns dias a sua chegada. Um trabalho coletivo que percorre o passado esquecido do cotidiano capixaba. Uma obra com grande dose de teimosia do pessoal do curso de História do Centro Universitário São Camilo. Não se conformando com o desleixo que a nossa Cultura é submetida, resolveram nos brindar com 11 textos que como muitos ficariam circunscritos ao ambiente acadêmico. Luz nas trevas. A publicação contou com recursos da Lei Rubem Braga da Prefeitura de Cachoeiro de Itapemirim.  
Mais uma vez temos de nos curvar diante das pessoas que realizam trabalho de tamanha envergadura e profundidade. Elas estão abrindo caminhos novos para que outros possam trilhar, contar e registrar a História, que não deve ser propriedade individual ou de grupos, ela é e deve ser de todos.  VESTÍGIOS DA HISTÓRIA SUL CAPIXABA EM 11 NARRATIVAS é uma iniciativa pioneira e coletiva, a expectativa que é de não seja única, mas que seja seguida de muitas outras. Estarei sempre a postos para aplaudir e de pé.
Do ponto de vista histórico o conjunto da obra nos leva a percorrer caminhos onde as informações do passado indicam uma boa parte do que somos hoje. É este mérito, dentre muitos, que VESTÍGIOS DA HISTÓRIA SUL CAPIXABA EM 11 NARRATIVAS nos oferece com textos curtos, porém com precisão e objetividade. Para quem deseja prosseguir na busca de mais informações, lá esta a bibliografia de cada unidade – facilitador para outras caminhadas.
Já do ponto de vista regional é também interessante e positiva a abrangência da obra, ao nos repassar o sul capixaba como um todo. Ás vezes a delimitação geográfica por município nos deixa sem uma visão de conjunto. A visão de território é mais interessante, porque mostra uma realidade que permeia as comunidades. Não somos uma ilha, somos um imenso arquipélago. Um quebra cabeças simples para entender a região sul do Estado, mas que às vezes passa despercebido.
Pensar o hoje sem percorrer o passado escravagista é perder uma boa parte da História real. Os textos que falam da fase escravagista é como colocar tijolos numa construção que sabemos será imensa. O período da escravidão na terra capixaba é pouco documentado, porque o que sempre prevalece é a visão do ganhador e do dominante. Na época a sociedade era composta de dois grupos: branco, senhor de tudo e negro, o faz tudo.
Os organizadores reconhecem que “não existe historiador que, em seu ofício, não ponha um pouco de si, e como historiadores que somos, estamos fadados a cometer tal desacerto, pois é impossível dissociar o homem de sua história, e os contornos de sua ação como pesquisador ou mesmo organizador de um trabalho trazem a carga histórica de sua vivencia, ainda que se busque a impessoalidade.”
Todos os textos merecem destaque, mas o de Pedro Ernesto Fagundes CORAÇÃO VERMELHO: GUILHEME TAVARES E A MEMORIA DOS COMUNISTAS DO ESPIRITO SANTO merece duas colocações. A primeira é o registro da luta e da convicção ideológica do ferroviário Guilherme Tavares. A segunda é a citação bibliográfica do texto do jornalista Luzimar Nogueira Dias, 1935: INTEGRALISTAS E COMUNISTAS - 50 ANOS DEPOIS, UMA HISTÓRIA DE PRISÕES E ASSASSINATOS.
Quem estiver interesse em adquirir o livro poderá encontrá-lo na Livraria Saber em Cachoeiro de Itapemirim, na loja do Hortifruti na Praia da Costa em Vila Velha ou no site vestigiosdahistoriasulcapixaba@hotmail.com. Quem comprar e não gostar, basta comunicar-se no endereço abaixo. Eu compro.


O QUE CONTÉM CADA TEXTO
Abaixo os títulos dos textos com pequena nota falando sôbre cada um. O livro foi coordenado e apresentado por Andréia Marin, Jeferson Mendes Saldanha, Michelle Scarpi Silvestre e Priscila Moreira da Silva.
 ICONHA, ENCRUZILHADA PARA TRAMAR AS PEQUENAS E GRANDES HISTÓRIAS. José Pontes Schayder, traz à tona a história dos personagens Duarte e Beiriz, que apostaram em atividades econômicas na região que originou o município de Iconha, contrariando o fluxo natural da imigração que,em síntese, convergia para as grandes lavouras de café.  
 PRESENÇA ESCRAVA EM CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM 1870-1880. Jaqueline Ramalho Nogueira Santos apresenta um estudo sobre a escravidão em Cachoeiro no final do século XIX e pontua como o desenvolvimento da atividade cafeeira na região impulsionou o aumento da mão de obra escrava, bem como analisa a constituição das relações familiares dos escravos
 A HISTÓRIA DO ESCRAVISMO EM ITAPEMIRIM: PRINCÍPIO, MEIOS E FIM. Andréia Marin e Priscila Moreira da Silva descrevem a histórica presença escrava, montando um quadro do escravismo na região, com foco na segunda metade do século XIX e nos impactos do escravismo no Vale do Itapemirim.
 SOB OLHARES E ANSEIOS: A RELEVANCIA DA REGIÃO SUL CAPIXABA NO CONTEXTO DO SÉCULO XIX (1855-1895). Leandro do Carmo Quintão discute a importância da região sul do Espírito Santo na segunda metade do século XIX a partir de documentos oficiais e seus registros.
 A GUERRA DO PARAGUAI E O RECRUTAMENTO MILITAR NA PROVÍNCIA DO ESPIRITO SANTO. UMA ANÁLISE DOS JORNAIS SENTINELA DO SUL E JORNAL DE VICTÓRIA (1867-1868). Andréia Marin, Michelle Scarpi Silvestre e Priscila Moreira por meio de documentos primários, descrevem os impactos do conflito na sociedade capixaba e evidenciando a dinâmica do recrutamento militar na província.
 AFONSO CLAUDIO E A PROPAGANDA REPUBLICANA NO ESPÍRITO SANTO EM FINS DO SÉCULO XIX. Jeferson Mendes Saldanha, Michele Scarpi Silvestre e Priscila Moreira apresentam os muitos papéis exercidos por Afonso Claudio no cenário da história capixaba, destacando a sua participação no movimento republicano no final do século XIX.
 DA ESPERANÇA PARA A LUZ, A FORÇA DAS ÁGUAS DO ITAPEMIRIM. Marco Aurélio Borges Costa e Jeferson Mendes Saldanha destacam os aspectos econômicos bem como a importância da instalação de iluminação pública na cidade no início do século XX e a construção da usina de força motriz da Ilha da Luz, pioneira unidade do Espírito Santo a produzir energia elétrica.
 A TRAJETÓRIA DE BERNARDINO DE SOUZA MONTEIRO NO GOVERNO DE CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM (1896-1912). Adilson Silva Santos destaca a sua ascensão política no cenário capixaba e a consolidação da oligarquia Monteiro.
 VESTÍGIOS DE UM ESQUECIMENTO: A MEMÓRIA DA AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA (ABI) NO SUL DO ESPIRITO SANTO. Pedro Ernesto Fagundes trata das trajetórias políticas de personagens destacados do movimento integralista em Cachoeiro de Itapemirim e ressalta as permanências veladas no discurso desses atores.
 CORAÇÃO VERMELHO: GUILHERME TAVARES E A MEMÓRIA DOS COMUNISTAS DO ESPITO SANTO. Pedro Ernesto Fagundes enfatiza um episódio ocorrido em Cachoeiro de Itapemirim, onde esse dissídio se tornou fatal. Análogo a discussão resgata as memórias do comunista cachoeirense Guilherme Tavares.
 A CONTRACULTURA CAPIXABA: ASPECTOS DO MOVIMENTO UNDERGROUD NO SUL DO ESPIRITO SANTO. Diogo Pereira Lube descreve o que foi o movimento de contra cultura e suas manifestações no contexto da guerra fria, ressaltando como atuavam os agentes desse movimento no Espírito Santo, sobretudo em Cachoeiro de Itapemirim.

domingo, 20 de novembro de 2011

ACHEI, QUERO DEVOLVER


Numa viagem aérea entre Vitória e Belo Horizonte no dia 20 de agosto fui um dos últimos a desembarcar. Ao exercitar um velho e salutar hábito, pegar algumas revistas de bordo, junto um livro de autoria de Mário Sérgio Cortella: Qual é a tua obra – inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética - Editora Vozes. Para não perder a viagem, levei os dois. Confesso que a revista não tinha muita coisa que fosse de meu agrado. Agora, do livro não tenha nada a reclamar, pelo contrário. São 141 páginas que falam do dia a dia das pessoas, embora a primeira vista pareça ser uma publicação apenas para gerentes e diretores de empresas. Puro engano.
A leitura é muito agradável e interessante, porque enfoca os temas Gestão, Liderança e Ética, com textos curtos, mas andando entre fatos do cotidiano. Textos instigantes, do tipo que somos às vezes obrigados a fazer uma pausa, para poder ir adiante. Não é uma linguagem complicada, são colocações que nos leva a reflexões. Destaco quatro pontos que me chamaram a atenção:
- Quando dois homens vêm andando na estrada, cada um carregando um pão, e os pães quando se encontram, cada um vai embora com um pão. Mas quando os dois vêm andando na estrada, cada um com uma idéia, e ao se cruzarem trocam as idéias, cada um vai embora com duas idéias.
- De onde vem o stress? De duas fontes: primeiro de não enxergar o resultado da obra e, segundo de não conseguir compartilhar o processo de trabalho ou responsabilizar os outros. No saldo final, perde-se a visão de equipe, esvai-se o sentido, fraqueja a razão de ser obscurece a obra.
- Somos todos anjos com uma asa só, e só podemos voar quando abraçados uns aos outros.
- O líder tem de abrir a mente (ficar atento àquilo que muda e estar sempre disposto a aprender), elevar a equipe (o liderado percebe claramente quando voce é capaz de, ao crescer, levá-lo junto), recrear o espírito (as pessoas devem se sentir bem e ter alegria onde estão. Seriedade não é sinônimo de tristeza. Tristeza é sinônimo de problema), inovar a obra (liderar pressupõe a capacidade de se reinventar, de buscar novos métodos e soluções) e empreender o futuro (não nascemos prontos, também não somos inéditos, não somos ilhas).
Toda pessoa é no mínimo líder de si. Em tempo, dentro do livro encontrei uma passagem com o nome de José Marques, a quem farei a devolução, basta comunicar com o endereço indicado no alto página. Você que veio até aqui na leitura deste texto, deixo uma pergunta: qual é a tua obra?
ronaldmansur@gmail.com