A imprensa
vem dando com frequência destaque ao ressurgimento de ações racistas,
principalmente nos países europeus. São agredidos árabes, africanos e turcos,
os que mais destaque vêm obtendo. Tem-se ainda ações contra pessoas que são
originárias do antigo Leste Europeu, os países do ex-bloco socialista.
Um fato que
ilustra o racismo foi a abertura da fronteira da Alemanha com a Polônia, quando
os polacos foram brutalmente agredidos. Este filme parece já ter passado na
vida de muita gente. Seria o início do sonho (pesadelo?) da raça pura e
ariana, que ressurge agora quando
estamos äs portas do ano 2000?
Neste mesmo
intervalo temos o êxodo de brasileiros para o exterior, principalmente para os
Estados Unidos.
Fala-se já
abertamente numa troca de imigrantes do Leste Europeu para a Argentina e para a
Venezuela, num total inicial de 150 mil pessoas. Este esquema faria parte de
uma negociação maior entre as nações para que quem viesse receber os imigrantes
pudessem ter um maior acesso as fontes de crédito e financiamento
internacional. Um negócio como outro qualquer, uma troca de favores e
empréstimos bancários. As pessoas continuam sendo comercializadas como um
objeto qualquer, somente que agora são brancas.
O Muro de
Berlim não existe mais. A Cortina de Ferro agora é coisa do passado. O que
antes era mostrado ao mundo como uma vergonha, funcionando como um anteparo
para evitar que as pessoas convivessem entre si, na prática, caiu. Parece que o
muro e a cortina funcionavam de forma diferente da propaganda.
O processo
que aconteceu no Leste Europeu é mais fruto da determinação e da vontade das
populações do que do apelo de propaganda do bloco ocidental. É muito melhor
assim. O interesse pela entendimento, que antes era jogado na imprensa, hoje
vê-se que não era bem verdade. Hoje a
possibilidade de uma invasão de pessoas vindas do Leste é real. O que antes nos
preocupava era o aspecto ideológico e sua estabilidade, agora a preocupação e
com outra estabilidade, a econômica. Algo mais sério.
As elites do
Primeiro Mundo querem a todo custo continuar transacionando o controle e o
domínio da sociedade global. Agora existe uma perplexidade com o cotidiano que
a cada momento se modifica. Dentro deste cenário, começam a desenterrar velhos
pesadelos do passado, ao jogarem grupos étnicos uns contra os outros. Vide a
fragmentada Federação Iugoslava. Assim, ao se ocuparem em guerras de acerto de
contas do passado, são combatentes e candidatos a morte. Dividir para reinar.
Com as
milhões de pessoas do Leste Europeu, a mão de obra do Terceiro Mundo poderá ser
descartada e ficar na terra. É bom lembrar que a mesma via que leva o
colonizador traz o colonizado, para ser mão de obra barata na sede do império.
Agora começa a sobrar gente, o Leste oferece, mas a troca não será fácil.
O Brasil, que
é formado por um pouco de cada um destes povos, porque somos um caldeirão de
raças, acolheu muito bem a todos que aqui aportaram. Com raríssimas exceções,
os filhos de outras pátrias encontraram aqui um extensão de sua casa.
O
carnavalesco Joãozinho Trinta recentemente falou que o Brasil tinha a
capacidade de a todos acolher por causa da batida do samba, que tem a mesma
batida do samba: tum...tum...tum...tum...
Recentemente
o Jornal do Brasil publicou um trabalho do norte-americano David Gertner, onde
ele falava:
- Parece que, aos que vivem num ambiente que não mais
suportam, restam duas opções: se mudar ou muda-lo. Uma nação não é só o seu
Governo. É também os seus cidadãos e o que eles fazem da sociedade em que
vivem. Aos que hoje se indignam com o Brasil que aí está, e podem trocar de
endereço, boa sorte. Aos que se indignam e resolvem ficar para fazer do país um
lugar melhor, mais justo e mais digno, nosso respeito e admiração. Aos que,
apesar de indignados, continuam a especular, corromper e buscar a cada
oportunidade tirar novo proveito, lamento por seus filhos, pela sociedade que
hão de herdar.
-
Fica de pé a
questão: por que tanta confusão? Por que alguém é melhor que o outro somente
por ter nascido brando, preto, amarelo,
mulato ou de qualquer outra cor? Porque um grupo étnico é melhor do que o
outro? Apenas por ter nascido no Hemisfério Norte ou mesmo no Hemisfério Sul?
Ter floresta tropical ou ter neve é sinal de mais bem nascido.
-
As elites do
Velho Mundo nos dão um péssimo exemplo, ao colocarem na ordem do dia o
confronto entre grupos étnicos, ao segregarem as pessoas do Terceiro Mundo e
imaginarem que somos gente de segunda classe. Enganam-se: estamos na mesma
nave. O mundo é pequeno para certos grupos de pessoas que ainda imaginam
colonizar os demais. Mas o mundo é muito grande para quem quer viver e deixar
viver a todos. A minha pátria é o planeta e a sua, qual é?
-
A Gazeta 5 de
fevereiro de 1992.
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