
As cinco exigências de Cameron para manter o Reino Unido na UE
Pressionado pela recessão e vendo o aumento da popularidade de seus adversários trabalhistas, primeiro-ministro britânico propõe referendo e abre negociações com europeus para ampliar papel dos Estados-membro. Conciliadora, a chanceler alemã Angela Merkel disse que estava pronta a “examinar as reivindicações”.
Flávio Aguiar
Berlim – Quando o então primeiro-ministro da Grécia Giorgos Papandreou anunciou, em novembro de 2011, que pretendia fazer um referendo em seu país sobre os planos de austeridade – arrocho, traduzindo bem – cuja adoção a Troika (Comissão Européia, Banco Central Europeu e FMI) estava forçando – houve uma reação estrepitosa e violenta. Papandreou foi espinafrado pela Europa afora, e uma blitz retórica liderada pela então dupla Merkozy literalmente ejetou-o do governo grego, substituído pelo “emissário” daqueles poderes, o “tecnocrata” Lucas Papadimos, catapultado do BCE para o Antigo Palácio Real, onde se realizam as sessões do Parlamento, no papel de primeiro-ministro.
Agora que o primeiro-ministro britânico David Cameron anunciou que pretende realizar um referendo sobre a permanência ou não do Reino Unido na União Européia – promessa de conseqüências potencialmente muito mais complexas e graves –, não passou pela cabeça de ninguém, apesar das críticas que surgiram, dispensar-lhe o mesmo tratamento dado a Papandreou.
Houve reações amuadas. O ministro de Relações Exteriores da Alemanha, por exemplo, deu uma declaração dizendo que Cameron estava tentando conseguir a sua “cereja” do bolo. O presidente francês François Hollande declarou que se deve aceitar a União Européia “como ela é”. Outros dirigentes também foram reticentes, como o primeiro-ministro holandês. Já a chanceler Angela Merkel mostrou-se surpreendentemente mais conciliadora, dizendo que estava pronta a “examinar as reivindicações” de Cameron. Surpreendentemente? Nem tanto. A chanceler alemã já tem problemas suficientes para conviver com o presidente francês, e ela certamente não quer abrir distância de seu aliado conservador do Reino Unido quando vai enfrentar uma eleição no segundo semestre.
O que pediu Cameron? Cinco pontos:
1) Maior flexibilidade na União Européia, atentando para a história, as condições e as características próprias de cada país;
2) Aumentar a competitividade da União Européia como um todo. Este segundo ponto tem raiz na crise recessiva que o Reino Unido enfrenta e nas políticas de competitividade adotadas por Berlim, junto com as que se vêm anunciando para a Zona do Euro, de que o Reino Unido não faz parte;
3) Reforçar o poder dos estados-membros;
4) Valorizar a participação dos parlamentos nacionais (recado direto para o parlamento britânico, em especial para seus aliados de governo);
5) Tratamento igual para os estados-membros.
Da negociação destes cinco pontos vai depender a posição que ele assumirá no referendo, quando de sua realização.
A reação da mídia alemã a essa carta de reivindicações foi bastante moderada. Quase todos os jornais ressaltaram que sua estratégia pode ser perigosa e ter o ar de uma “chantagem”, mas que sua análise não está equivocada. Também esta reação pode ser compreendida. Boa parte dos agentes políticos e econômicos alemães temem que, com um reforço dos poderes de Bruxelas (Comissão Européia), de Estrasburgo (Parlamento Europeu) e de Frankfurt (Banco Central Europeu), a Alemanha tenha de dar contribuições financeiras maiores para tentar debelar a crise financeira em que a Zona do Euro e o continente como um todo se debatem. Vários jornais reforçaram a tese de que “Cameron não está só” em seu discurso.
O primeiro-ministro britânico tentou acalmar mais ainda os ânimos quando de sua participação na abertura do Fórum Econômico de Davos, na Suíça, no dia seguinte, quando deu garantias de que não quer ver Londres fora da União Européia (aliás, o presidente Barack Obama fez-lhe um pedido direto neste sentido). Mas pode-se ver que Cameron está pressionado pela situação política interna de seu país e de seu partido. Em ambos cresce o número de “eurocéticos”, como se diz por aqui. O apoio à permanência do Reino Unido na UE, que era de 51% em 2011, caiu para 45%, enquanto o apoio à saída estáem 40%. Políticos “eurocéticos” vêem seu prestígio aumentar fora do Partido Conservador e dentro dele também. E se a eleição fosse hoje, os trabalhistas retornariam ao poder.
Uma situação difícil, portanto, para Cameron digerir. Mas, felizmente para ele, ele não é Papandreou, em 2011 o dirigente de um país que, na ocasião, teve um tratamento digno de alguém que fosse “de segunda mão”. Ninguém vai fazer isso com Cameron, muito menos com a City (o centro financeiro londrino). Afinal, todos podem merecer, como quer a quinta reivindicação de Cameron, tratamento igual. Mas alguns são “mais iguais” do que os outros.
Agora que o primeiro-ministro britânico David Cameron anunciou que pretende realizar um referendo sobre a permanência ou não do Reino Unido na União Européia – promessa de conseqüências potencialmente muito mais complexas e graves –, não passou pela cabeça de ninguém, apesar das críticas que surgiram, dispensar-lhe o mesmo tratamento dado a Papandreou.
Houve reações amuadas. O ministro de Relações Exteriores da Alemanha, por exemplo, deu uma declaração dizendo que Cameron estava tentando conseguir a sua “cereja” do bolo. O presidente francês François Hollande declarou que se deve aceitar a União Européia “como ela é”. Outros dirigentes também foram reticentes, como o primeiro-ministro holandês. Já a chanceler Angela Merkel mostrou-se surpreendentemente mais conciliadora, dizendo que estava pronta a “examinar as reivindicações” de Cameron. Surpreendentemente? Nem tanto. A chanceler alemã já tem problemas suficientes para conviver com o presidente francês, e ela certamente não quer abrir distância de seu aliado conservador do Reino Unido quando vai enfrentar uma eleição no segundo semestre.
O que pediu Cameron? Cinco pontos:
1) Maior flexibilidade na União Européia, atentando para a história, as condições e as características próprias de cada país;
2) Aumentar a competitividade da União Européia como um todo. Este segundo ponto tem raiz na crise recessiva que o Reino Unido enfrenta e nas políticas de competitividade adotadas por Berlim, junto com as que se vêm anunciando para a Zona do Euro, de que o Reino Unido não faz parte;
3) Reforçar o poder dos estados-membros;
4) Valorizar a participação dos parlamentos nacionais (recado direto para o parlamento britânico, em especial para seus aliados de governo);
5) Tratamento igual para os estados-membros.
Da negociação destes cinco pontos vai depender a posição que ele assumirá no referendo, quando de sua realização.
A reação da mídia alemã a essa carta de reivindicações foi bastante moderada. Quase todos os jornais ressaltaram que sua estratégia pode ser perigosa e ter o ar de uma “chantagem”, mas que sua análise não está equivocada. Também esta reação pode ser compreendida. Boa parte dos agentes políticos e econômicos alemães temem que, com um reforço dos poderes de Bruxelas (Comissão Européia), de Estrasburgo (Parlamento Europeu) e de Frankfurt (Banco Central Europeu), a Alemanha tenha de dar contribuições financeiras maiores para tentar debelar a crise financeira em que a Zona do Euro e o continente como um todo se debatem. Vários jornais reforçaram a tese de que “Cameron não está só” em seu discurso.
O primeiro-ministro britânico tentou acalmar mais ainda os ânimos quando de sua participação na abertura do Fórum Econômico de Davos, na Suíça, no dia seguinte, quando deu garantias de que não quer ver Londres fora da União Européia (aliás, o presidente Barack Obama fez-lhe um pedido direto neste sentido). Mas pode-se ver que Cameron está pressionado pela situação política interna de seu país e de seu partido. Em ambos cresce o número de “eurocéticos”, como se diz por aqui. O apoio à permanência do Reino Unido na UE, que era de 51% em 2011, caiu para 45%, enquanto o apoio à saída estáem 40%. Políticos “eurocéticos” vêem seu prestígio aumentar fora do Partido Conservador e dentro dele também. E se a eleição fosse hoje, os trabalhistas retornariam ao poder.
Uma situação difícil, portanto, para Cameron digerir. Mas, felizmente para ele, ele não é Papandreou, em 2011 o dirigente de um país que, na ocasião, teve um tratamento digno de alguém que fosse “de segunda mão”. Ninguém vai fazer isso com Cameron, muito menos com a City (o centro financeiro londrino). Afinal, todos podem merecer, como quer a quinta reivindicação de Cameron, tratamento igual. Mas alguns são “mais iguais” do que os outros.
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