Fábio Konder Comparato vislumbra uma civilização pós-capitalista
GABRIEL BONIS
GABRIEL BONIS

CC: 0 senhor retrata que nas cidades antigas não havia lutas de classe, mas em Roma existiam conflitos entre plebeus e patrícios.
CC: A civilização capitalista corre o risco de desaparecer?
FKC: Não imediatamente, mas vai desaparecer. Ela será substituída por uma nova civilização que já foi gerada no interior da civilização capitalista: a civilização humanista. Graças à difusão da teoria marxista nos diferentes movimentos comunistas, sustentou-se que era possível mudar subitamente a estrutura de uma sociedade por meio de uma revolução. E pensou-se que a revolução seria algo de subtâneo, e o exemplo maior era a Revolução Francesa. Mas esta teve, na verdade, uma preparação de mais de um século.
CC: 0 senhor diz que já há uma nova civilização em processo de gestação faz três séculos, a civilização humanista. Mas a civilização humanista não seria a face positiva do capitalismo e, por isso, não teria como sucedê-lo?
FKC: De jeito nenhum, pois se tomarmos a organização política da civilização capitalista há a rejeição de três princípios fundamentais à civilização humanista. Em primeiro lugar, o princípio republicano. A civilização capitalista põe o interesse privado acima do bem comum. Em segundo lugar, a civilização capitalista é fundamentalmente oligárquica, é sempre a minoria de grandes empresários que comanda. A democracia é fundamentalmente a soberania do povo, mas na tradição capitalista o povo é sempre deixado de lado. Em terceiro lugar, a civilização humanista deve organizar o sistema de poderes de forma controlada, para evitar abusos, enquanto o sistema capitalista rejeita todo o controle sobre o poder empresarial.
CC: 0 senhor defende a criação de um Parlamento Mundial e de um Conselho Executivo Mundial, que definiriam as leis globais. Acredita ser possível acabar com a anarquia do sistema internacional?
FKC: A ONU não deu certo porque não soube superar a soberania estatal. Hoje, a humanidade sofre com problemas ou crises mundiais que não podem ser resolvidos por Estados isoladamente. Alguns exemplos são o aquecimento global e a fome. E consenso mundial que, para salvar a humanidade, temos de nos encaminhar para a construção de um regime político mundial no qual não haja mais soberania de Estados, mas da humanidade.
CC: Como o senhor avalia os resultados da Comissão Nacional da Verdade?
FKC: Ninguém mais sabe o que a Comissão está fazendo. Ainda que apure os horrores do sistema empresarial militar, não terá força política para obrigar o Estado brasileiro a cumprir a sentença condenatória da Comissão Interamericana de Direitos Humanos no caso da Guerrilha do Araguaia. Por isso é importante o trabalho dos meios de comunicação em desmontar a farsa que representou a lei da anistia, de 1979, julgada legítima pelo Supremo Tribunal Federal em abril de 2010. Se o Supremo não julgar em breve os embargos declaratórios ao acórdão prolatado naquela ocasião, estou insistindo na OAB para que seja proposta uma nova arguição de descumprimento de preceito fundamental em relação ao Estado brasileiro pelo não cumprimento da sentença condenatória da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Não se pode hoje no mundo anistiar responsáveis por crimes contra a humanidade
Nenhum comentário:
Postar um comentário