Festlatino premia Entre Vales
Festival de cinema latino-americano elege filme de Philippe Barcinsky e homenageia os brasileiros Guido Araújo, José Carlos Avellar, e o uruguaio Manuel Martinez Carril. Ao final do evento, João Batista de Andrade lembra a morte de Wladmir Herzog, assassinado pela ditadura militar. Produção brasileira, uruguaia e alemã, o filme também foi o escolhido pelo público como o melhor do festival. Durante sete dias, de 11 a 18 de julho, foram exibidos 90 filmes entre longas e curtas-metragem de 13 países. Por Gérson Trajano, especial para Carta Maior.
Gérson Trajano
Festival de cinema latino-americano elege filme de Philippe Barcinsky e homenageia os brasileiros Guido Araújo, José Carlos Avellar, e o uruguaio Manuel Martinez Carril. Ao final do evento, João Batista de Andrade lembra a morte de Wladmir Herzog, assassinado pela ditadura militar.
O público lotou o auditório Simón Bolívar, no Memorial da América Latina, para acompanhar o encerramento do 8º Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo – o Festlatino – e ver o filme Entre Vales receber o prêmio Itamaraty de 90 mil reais. Produção brasileira, uruguaia e alemã, o filme também foi o escolhido pelo público como o melhor do festival. Dirigido por Philippe Barcinsky, o mesmo diretor de Não Por Acaso (2007) e dos curtas A Escada (1996) e Palíndromo (2001), a obra entra em cartaz em setembro.
Durante sete dias, de 11 a 18 de julho, foram exibidos 90 filmes entre longas e curtas-metragem de 13 países, com destaques para as produções mais recentes. A mostra promoveu ainda debates, encontros e a comemoração dos 100 anos do movimento cineclublista, como a exibição do filme A Comuna.
Antes de anunciar o vencedor, Francisco César Filho, um dos diretores do festival, lembrou alguns momentos da 8ª edição, destacando a homenagem a Guido Araújo – que participou da abertura do evento –, criador, em 1972, da Jornada de Cinema da Bahia. Araújo é um defensor de um cinema politizado e social. Iniciou sua carreira profissional como assistente de direção de Nelson Pereira dos Santos, no filme Rio, Quarenta Graus (1955).
A noite também teve a entrega do troféu Fundação Memorial da América Latina - uma réplica da mão espalmada, símbolo da entidade – para Manuel Martinez Carril, diretor de honra da Cinemateca do Uruguai, e para José Carlos Avellar, crítico e estudioso de cinema.
Carril consolidou a cinemateca uruguaia, que hoje possui um acervo de 12 mil obras, uma escola de cinema e quatro salas de projeção. Aos 75 anos, ele não veio ao Brasil por problemas de saúde, mas enviou um texto que analisa o cinema latino-americano contemporâneo, em contraposição ao cinema dos anos 1960 e 1970.
“Meio século depois, o cinema nos países latinos, no princípio de um novo século, é quase sempre uma proposta individual dos autores em oposição à visão mais coletiva e social dos anos 1960. Essa tendência em que a realidade se turva, depois que o chamado pós-modernismo colonizou os intelectuais latino-americanos jovens, é uma característica dos tempos atuais, da qual muito poucas obras escapam”, afirma o texto de Carril.
Ainda segundo ele, "as coincidências com o pensamento pós-moderno são muitas: os personagens mostram o desencanto que renuncia às utopias; como a economia se apoia no consumo mais do que na produção, as atividades que as pessoas realizam identificam-se com o consumismo. O conteúdo é substituído pelas formas, o todo reside em uma imagem sedutora, os conflitos se desintegram e por vezes se transformam em show".
Já Carlos Avellar, crítico de cinema por mais de 20 anos no Jornal do Brasil, autor do livro A Ponte Clandestina - Teorias de Cinema na América Latina (1995), e organizador das edições brasileiras de A Forma do Filme e o Sentido do Filme, ambas do cineasta soviético Sergei Eisenstein, disse que escreve sobre filmes para continuar dialogando com eles depois que os assistiu.
Durante a homenagem, Avellar recordou parte de sua infância na cidade do Rio de Janeiro, e falou sobre um homem que vivia entre o limiar da razão e da loucura, lutando para entrar em uma sessão de cinema. Ao término da sessão, o homem se postava na porta de entrada do cinema e contava do seu jeito o filme. “Me sinto como aquele louco” disse o crítico.
Ao final da cerimônia, João Batista de Andrade, cineasta e presidente do Memorial da América Latina, fez uma homenagem inesperada ao jornalista Vladmir Herzog, morto pela repressão militar em 25 de outubro de 1975. “Ele poderia estar sentado aqui ao nosso lado, pois ele era um homem de cinema, foi cineasta no início da sua carreira”, disse.
Herzog foi roteirista de Doramundo, dirigido por Andrade. O filme mostra a mudança provocada na rotina e no comportamento dos habitantes de uma pequena cidade ferroviária do interior de São Paulo, por causa de uma sucessão de mortes estranhas. A companhia que explora a estrada de ferro resolve intervir temendo a repercussão dos acontecimentos.
Doramundo ganhou o Festival de Gramado em 1978. Naquela ocasião, o cineasta dedicou o premio a Herzog, assassinado pela ditadura militar três anos antes. Em 2005, Andrade lançou o documentário Vlado – 30 anos depois.
Menções honrosas – O júri internacional do festival concedeu ainda duas menções honrosas. Para a animação AninA, de Alfredo Soderguit. Uma co-produção Uruguai e Colômbia, que narra a história de uma menina que vive em Montevidéu e estuda em uma escola primária. A outra premiação foi para o filme Fora de Hora, de Barbara Sarasola-Day, uma produção argentina, colombiana e norueguesa, que trata de um casal que recebe a visita de um primo.
Curtas-metragem argentinos também tiveram destaque, dentro da Mostra Escolas de Cinema. Os premiados foram Tinha Tanto Medo, de Marina López Robol, e Epecuén, de Verena Kuri e Sofia Brockenshire. O primeiro narra a viagem de carro de três amigas, sendo que uma delas fica presa em um posto de gasolina. Já o segundo, resgata a memória de um lugar inundado por um lago em 1985.
Cineclubismo – Com a exibição de filme A Comuna, de Armand Guerra, um espanhol anarquista cujo verdadeiro nome era José Estívalis Cabo, o 8º Festlatino, celebrou os 100 anos do movimento cineclubista internacional.
O filme trata de episódios marcantes da Comuna de Paris (1871), quando pela primeira vez na história da humanidade se constitui um estado operário. A experiência da Comuna inspirou a Revolução Russa e é ainda hoje um exemplo de autoemancipação revolucionaria das classes subalternas.
Para a exibição, uma tela foi armada do lado de fora do auditório Simón Bolívar. 500 pessoas aproximadamente, em sua maioria jovens, e algumas famílias, assistiram à sessão. “Foi fantástico. Um momento para guardar para o resto da vida”, disse Felipe Macedo, diretor de atividades culturais do Memorial.
O público lotou o auditório Simón Bolívar, no Memorial da América Latina, para acompanhar o encerramento do 8º Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo – o Festlatino – e ver o filme Entre Vales receber o prêmio Itamaraty de 90 mil reais. Produção brasileira, uruguaia e alemã, o filme também foi o escolhido pelo público como o melhor do festival. Dirigido por Philippe Barcinsky, o mesmo diretor de Não Por Acaso (2007) e dos curtas A Escada (1996) e Palíndromo (2001), a obra entra em cartaz em setembro.
Durante sete dias, de 11 a 18 de julho, foram exibidos 90 filmes entre longas e curtas-metragem de 13 países, com destaques para as produções mais recentes. A mostra promoveu ainda debates, encontros e a comemoração dos 100 anos do movimento cineclublista, como a exibição do filme A Comuna.
Antes de anunciar o vencedor, Francisco César Filho, um dos diretores do festival, lembrou alguns momentos da 8ª edição, destacando a homenagem a Guido Araújo – que participou da abertura do evento –, criador, em 1972, da Jornada de Cinema da Bahia. Araújo é um defensor de um cinema politizado e social. Iniciou sua carreira profissional como assistente de direção de Nelson Pereira dos Santos, no filme Rio, Quarenta Graus (1955).
A noite também teve a entrega do troféu Fundação Memorial da América Latina - uma réplica da mão espalmada, símbolo da entidade – para Manuel Martinez Carril, diretor de honra da Cinemateca do Uruguai, e para José Carlos Avellar, crítico e estudioso de cinema.
Carril consolidou a cinemateca uruguaia, que hoje possui um acervo de 12 mil obras, uma escola de cinema e quatro salas de projeção. Aos 75 anos, ele não veio ao Brasil por problemas de saúde, mas enviou um texto que analisa o cinema latino-americano contemporâneo, em contraposição ao cinema dos anos 1960 e 1970.
“Meio século depois, o cinema nos países latinos, no princípio de um novo século, é quase sempre uma proposta individual dos autores em oposição à visão mais coletiva e social dos anos 1960. Essa tendência em que a realidade se turva, depois que o chamado pós-modernismo colonizou os intelectuais latino-americanos jovens, é uma característica dos tempos atuais, da qual muito poucas obras escapam”, afirma o texto de Carril.
Ainda segundo ele, "as coincidências com o pensamento pós-moderno são muitas: os personagens mostram o desencanto que renuncia às utopias; como a economia se apoia no consumo mais do que na produção, as atividades que as pessoas realizam identificam-se com o consumismo. O conteúdo é substituído pelas formas, o todo reside em uma imagem sedutora, os conflitos se desintegram e por vezes se transformam em show".
Já Carlos Avellar, crítico de cinema por mais de 20 anos no Jornal do Brasil, autor do livro A Ponte Clandestina - Teorias de Cinema na América Latina (1995), e organizador das edições brasileiras de A Forma do Filme e o Sentido do Filme, ambas do cineasta soviético Sergei Eisenstein, disse que escreve sobre filmes para continuar dialogando com eles depois que os assistiu.
Durante a homenagem, Avellar recordou parte de sua infância na cidade do Rio de Janeiro, e falou sobre um homem que vivia entre o limiar da razão e da loucura, lutando para entrar em uma sessão de cinema. Ao término da sessão, o homem se postava na porta de entrada do cinema e contava do seu jeito o filme. “Me sinto como aquele louco” disse o crítico.
Ao final da cerimônia, João Batista de Andrade, cineasta e presidente do Memorial da América Latina, fez uma homenagem inesperada ao jornalista Vladmir Herzog, morto pela repressão militar em 25 de outubro de 1975. “Ele poderia estar sentado aqui ao nosso lado, pois ele era um homem de cinema, foi cineasta no início da sua carreira”, disse.
Herzog foi roteirista de Doramundo, dirigido por Andrade. O filme mostra a mudança provocada na rotina e no comportamento dos habitantes de uma pequena cidade ferroviária do interior de São Paulo, por causa de uma sucessão de mortes estranhas. A companhia que explora a estrada de ferro resolve intervir temendo a repercussão dos acontecimentos.
Doramundo ganhou o Festival de Gramado em 1978. Naquela ocasião, o cineasta dedicou o premio a Herzog, assassinado pela ditadura militar três anos antes. Em 2005, Andrade lançou o documentário Vlado – 30 anos depois.
Menções honrosas – O júri internacional do festival concedeu ainda duas menções honrosas. Para a animação AninA, de Alfredo Soderguit. Uma co-produção Uruguai e Colômbia, que narra a história de uma menina que vive em Montevidéu e estuda em uma escola primária. A outra premiação foi para o filme Fora de Hora, de Barbara Sarasola-Day, uma produção argentina, colombiana e norueguesa, que trata de um casal que recebe a visita de um primo.
Curtas-metragem argentinos também tiveram destaque, dentro da Mostra Escolas de Cinema. Os premiados foram Tinha Tanto Medo, de Marina López Robol, e Epecuén, de Verena Kuri e Sofia Brockenshire. O primeiro narra a viagem de carro de três amigas, sendo que uma delas fica presa em um posto de gasolina. Já o segundo, resgata a memória de um lugar inundado por um lago em 1985.
Cineclubismo – Com a exibição de filme A Comuna, de Armand Guerra, um espanhol anarquista cujo verdadeiro nome era José Estívalis Cabo, o 8º Festlatino, celebrou os 100 anos do movimento cineclubista internacional.
O filme trata de episódios marcantes da Comuna de Paris (1871), quando pela primeira vez na história da humanidade se constitui um estado operário. A experiência da Comuna inspirou a Revolução Russa e é ainda hoje um exemplo de autoemancipação revolucionaria das classes subalternas.
Para a exibição, uma tela foi armada do lado de fora do auditório Simón Bolívar. 500 pessoas aproximadamente, em sua maioria jovens, e algumas famílias, assistiram à sessão. “Foi fantástico. Um momento para guardar para o resto da vida”, disse Felipe Macedo, diretor de atividades culturais do Memorial.
Fotos: Divulgação
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