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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

VIAJAR CURA IGNORÂNCIA (3)


              Na sacola de algodão carreguei comigo todos os dias que estive em La Paz, o livro de José Maria Rabelo e Mlaria Theresa Rabello, Diáspora - os longos caminhos do exílio, onde relatam o tempo de exílio na Bolívia, no ano de 1964. O objetivo era descobrir o ambiente de duas fotografias. A primeira era a cena do desfile no dia da Independência Boliviana, 6 de agosto. A segunda, o local onde viveram numa casa ao lado da embaixada brasileira. Bati pernas pelas ladeiras de La Paz na busca dos locais.
             Alguém pode estar pensando ou mesmo querendo me perguntar: mas afinal, qual é o teu interesse em registrar em fotografias fatos que estão no passado. É fácil responder. O meu objetivo é o de marcar e registrar um tempo que muita gente não imagina o que foi. Falo do tempo do duro e sofrido exílio onde milhares de brasileiros tiveram de deixar as suas casas no Brasil. Tem também o exílio interno que vivemos. Um registro sentimental de uma brava gente que para sobreviver em liberdade teve de deixar o Brasil. Uma gente que não se curvou.
Como La Paz mudou muito de 1964 para cá, em função direta da intensa e desordenada urbanização, tive de recorrer a pessoas da terra. Numa visita ao casal de sociólogos Eduardo Paz Rada e Vick, eles me indicaram a localização da embaixada em 1964. Fui e registrei, mas o local está bem mudado com novas construções. As fotos foram feitas. O José Maria e a Theresa vão dizer se o local da residência está correto.
                 A segunda fotografia registra um desfile de 6 de Agosto, quando se comemora a Independência da Bolívia. Aqui tive sorte, mas também me valeu a forma como procedo durante as minhas viagens, procuro o diferente, eventos que não estão nos roteiros do turismo tradicional. Andando pelo bairro Sopocachi, no centro de La Paz, me chamou a atenção uma faixa anunciando uma feira onde entidades iriam expor suas publicações. Era a troca de saberes, patrocinada pela ONU.  
              Mais uma caminhada ladeira acima. Na sacola o livro do José Maria e da Maria Theresa. No stand da Câmara Legislativa Plurinacional da Bolívia livros sobre o trabalho parlamentar e sobre a História boliviana. Como perguntar é dever do jornalista, fui logo incomodando. O bibliotecário Rolando Alvarez Lopes, ao ver a foto foi taxativo: é na Praça Murilo. Do lado esquerdo é parte da Catedral e no outro lado é a fachada do Museu.
                 No mesmo dia, na parte da tarde o destino foi a Praça Murilo. Lá estava o ambiente de 1964 registrado na foto do livro. Fui disparando a máquina e registrando. Imaginei a emoção dos exilados participando do desfile cívico numa terra estranha que os havia acolhido. Uma viagem que já completou 46 anos. Ao som de um instrumento de sopro fazia minhas fotografias. Em poucos segundos ouvi: senhor, a Bandeira. Uma pessoa me chamava atenção para a solenidade em torno da bandeira boliviana. Percebi que centenas de pessoas em silencio e perfiladas, participando da solenidade. A minha atitude foi entrar no clima, mas logo em seguida conclui minha missão, estava na memória da máquina o registro e a homenagem aos brasileiros exilados.
           Nas três vezes que estive na Bolívia, compreendi, aprendi e entendi que realmente viajar cura ignorância...  
ronaldmansur@gmail.com

domingo, 18 de dezembro de 2011

VIAJAR CURA IGNORÂNCIA 2

    Você tem consciência do que é estar longe da tua terra e ouvir falar de uma pessoa muito querida e com representatividade na sua vida?  É uma situação quase que indescritível, uma sensação única de muita emoção concentrada. Pois é, eu vivi este momento na cidade de La Paz, Bolívia, no dia 27 de outubro. 
   Vamos fazer uma viagem no tempo, vamos atrasar o nosso calendário em 46 anos, para chegarmos ao movimento militar e também civil, que derrubou o presidente eleito João Goulart em 1964. Nesta época muitos brasileiros tiveram como única opção, de sobrevivência financeira e de permanecer vivo, sair do Brasil.
   Como este texto foi registrado nos dias em que estive na Bolívia, mais uma vez farei uso do texto de José Maria Rabelo e Theresa Rabelo, no livro Diáspora – os longos caminhos do exílio. Por pressão do regime militar o Governo da Bolívia colocou guardas na república denominada e conhecida com o Solar dos Zezinhos, em espanhol, El Solar de los Pepitos, por ali residirem o José Maria, José Serra e Jose Neiva Moreira. Com este nome “se tornou conhecida, até mesmo dos policiais que nos espionavam a mando da embaixada”. A residência ficava por coincidência ao lado da Embaixada brasileira, que pressionou o Governo Boliviano a vigiá-los. Como tinham condições para impedir a vigilância, não ficaram parados esperando o que iria acontecer. O texto abaixo mostra a criatividade dos exilados.
   -Posto o esquema a funcionar, logo estabelecemos uma convivência amigável cm os dois policiais. Durante a noite, quando a temperatura em La Paz comumente chega a menos de aero grau, nós os convidávamos para entrar e dormir em nosso apartamento, aferecendo-lhes sempre um lanche reforçado. Em compensação e por iniciativa deles, passaram a informar-nos sobre tudo o que acontecia na embaixada, pois tinham contato permanente com os seguranças de lá...”
Neste tempo de exílio fazia parte do grupo o educador Paulo Freire, que na época tinha 43 anos de idade teve problemas respiratórios nos primeiros dias em função da altitude da capital, 3.600 metros. Paulo Freire por sua competência de educador trabalhou no Ministério de Educação da Bolívia. É justamente sobre ele que fala o início deste texto.
    Participando do Encontro Internacional de Educação Alternativa e Especial, o brasileiro Pedro Pontual, falou sobre Educação Popular e Paulo Freire. A platéia ficava em clímax ao ouvir citações de textos de Paulo Freire. Era o reconhecimento do trabalho de um brasileiro de verdade. Imaginei 1964 quando Freire já genial, convivendo com a população boliviana, sabia que não estava ensinando, estava trocando saberes. Aliás, essência do trabalho de Paulo Freire é que não ensinamos nada a ninguém, aprendemos como ela.   
  No último dia do Encontro aconteceu em praça pública uma exposição de material didático de cada entidade participante. Na primeira barraca que visitei havia um imenso banner com a figura de Paulo Freire e uma frase de sua autoria, em espanhol, que traduzi, “dizer que os homens são pessoas e como pessoas são livres e não fazer nada para conseguir concretamente que esta afirmação seja objetiva, é uma farsa.” Lembrei que no meu convite de casamento com Eliane, em l977, utilizei uma frase de Paulo Freire: só existe futuro na medida que existir esperança. Viajar cura ignorância. Até a próxima...