sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

PT, 33 – Lula/Dilma, 10



 
Selvino Heck
Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República
Adital


Sem falso orgulho, mas com suficiente modéstia e responsabilidade, posso dizer que participei dos 33 anos do Partido dos Trabalhadores, do qual sou fundador, e dos 10 anos dos governos Lula e Dilma.
Orgulho, porque, pela primeira vez na história, é criado um partido popular, das lutas e mobilizações e sociais, de esquerda, de baixo para cima e, pela primeira vez na história, a partir deste partido foi eleito Presidente da República um operário metalúrgico e sindicalista e uma mulher e ex-presa política.
Modéstia, porque muitas e muitos participaram e ainda participam desta história, são seus autores e artífices, uma multidão de jovens, mulheres, operários, empregadas domésticas, agricultores, funcionários públicos, motoristas, aposentados.
Responsabilidade, porque, se partilho das conquistas, não tenho menos responsabilidade nos erros, nos desvios e fracassos.
Sempre que puxo a memória da fundação do PT em 1980, lembro de várias coisas. As reuniões do Núcleo de Base da Lomba do Pinheiro eram na Vila São Pedro na casa do Seu Cantílio (José Carlos Pintado), um pedreiro de mão cheia, mais ainda cheio de sabedoria e de compromisso com a melhoria de vida do povo das vilas populares e dos trabalhadores. Nossos candidatos em 1982 no município de Viamão, arredores de Porto Alegre, foram o pedreiro e mestre de obras Zé da Lomba a prefeito, o pedreiro Mário Declerque a vice e o operário Adão Lemos Alves a vereador.
Estes dias, almoçando com a Irmã Delvina Pasquali, em reencontro depois de anos de trabalhos pastorais e comunitários em Moçambique, ela lembrou que secretariou a reunião de fundação do PT de Venâncio Aires, minha terra.
Estas e estes, tantas e tantos foram as fundadoras e fundadores do PT. Gente que nunca atuara na política partidária, mas já lutava há anos na melhoria do transporte nas vilas populares, por postos de saúde, por asfalto nas ruas. Gente que se reunia nos Grupos de Reflexão da Bíblia, organizava as associações de moradores, construía as Oposições Sindicais. E começava a se meter na política partidária pela primeira vez na vida.
O PT era uma ferramenta nas mãos desse povo trabalhador e militante, como o eram as pastorais, os movimentos sociais de base, os sindicatos tirados das mãos dos pelegos e tornados combativos. A política estava no sangue, na alma, no espírito e no coração de brasileiros e brasileiras que queriam mudar o Brasil e o mundo, e precisavam também da ferramenta partidária para chegar ao governo e ao poder. E assim tornar os sonhos realidade. Mas vindos de baixo, da base popular, sempre no meio do povo.
Este mesmo povo trabalhador e militante elegeu primeiro Lula, depois Dilma. Como lembrou a presidenta há poucos dias, no 1º Encontro Nacional do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC):”Eu estou aqui não por um milagre. Eu não estou aqui porque, ocasionalmente, eu passei por aqui e aqui cheguei. Eu estou aqui porque milhões de brasileiras, milhões de lideranças, milhões de mulheres que lutaram neste país, que se reuniram em movimentos como este, do Movimento das Mulheres Camponesas, construíram a possibilidade de eu estar aqui. Eu estou aqui porque vocês estão aí.”
Por onde se mede a história de um partido? Por muitas coisas. Por sua fidelidade a um projeto de sociedade, a um sonho, a seu carisma e ideias de origem. Por fidelidade ao povo trabalhador que o construiu. Por não deixar de ser movimento, embora também seja instituição.
Por onde se se mede a vitória ou o fracasso de um governo? Por muitas coisas. Por talvez poder afirmar, como afirmou a presidenta Dilma na cerimônia de anúncio de medidas do Brasil Sem Miséria: "Por não termos abandonado o nosso povo, a miséria está nos abandonando.” Disse mais: "O fim da miséria é só um começo. Para mim, esta frase é irmã do dístico do meu governo que afirma, com coragem e ousadia, que país rico é país sem pobreza. Essas duas frases resumem nossa disposição de lutar com determinação e esperança por uma mudança social profunda e pacífica no nosso país.”
Qual o saldo dos 33 anos do PT? Qual o saldo dos 10 anos de governo Lula/Dilma? Há uma síntese ainda por ser feita.
Não é fácil construir um partido. Não é fácil lidar com o poder e garantir governos democráticos e populares. Mas não larguei, não posso, assim como uma mãe não abandona seus rebentos, largar as crias, assim como muitos e muitas não as largaram, mesmo às vezes, muitas vezes batendo a dúvida, o desencanto, as forças quase faltando para prosseguir. O poder, os cargos, as benesses, os privilégios, as disputas menores, o deslumbramento, a institucionalização longe do povo e dos pobres são tentações, são perigos, são encruzilhadas.
Mas nestas horas lembro-me, sobretudo, do Cantílio, do Zé da Lomba, do Mário Declerque, do Adão Lemos Alves, do Renato Mackenzie, da dona América, do seu Ari, do Valdomiro, da dona Zulma, tantos e tantas outras do Núcleo do PT da Lomba do Pinheiro, da Delvina Pasquali, do Olivar e da Rosinha de Venâncio Aires, alguns já falecidos, outros e outras ainda firmes na luta e na coragem. Lembro dos que estiveram na Lomba do Pinheiro e Venâncio Aires em 1979/80, organizando Fundos de Greve para ajudar Lula e os metalúrgicos do ABC. Dos que doaram parte de suas vidas em dezenas, centenas, milhares de reuniões, nas mobilizações sociais, nas Marchas, na distribuição de panfletos e nas visitas casa por casa, sem dinheiro e na coragem, na véspera das eleições. Assim como me lembro do Agenor do Pará, da Isabel de Sergipe, da Bruna de Rondônia, do Valdir de Roraima, da Bete e do Osmar do Rio Grande do Sul, falecidos, e que integraram a Rede de Educação Cidadã (RECID) criada em 2003, no primeiro governo Lula, por Frei Betto em torno do Fome Zero, para ajudar a ‘saciar a sede de beleza’, Rede que completa 10 anos em 2013.
2013, 33 anos, 10 anos: as datas e os números têm um sentido e significado especial. Assim como têm sentido a vida e o tempo, os cabelos brancos ou a falta deles, as ideias e os sonhos que permanecem.
Selvino Heck
Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República
Deputado constituinte PT/RS
Em vinte e dois de fevereiro de dois mil e treze.

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