Cidades acampamentos ressurgem nos EUA,repetindo fenômeno da Grande Depressão dos anos 30.
Redação
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As tent cities já somam cerca de 30 em todo o País, repetindo um fenômeno já visto na Grande Depressão nos anos de 1930, quando os acampamentos de sem teto e desempregados eram chamados dehoovervilles, nome emprestado do então presidente Herbert Hoover. O número, porém, varia, já que algumas tent cities surgem, mas são fechadas pelos governantes locais, algumas vezes com a ajuda nada bem educada da polícia. Em geral, são feitas em parques públicos e em áreas na periferia ou rurais e, como em todo agrupamento precário, sofrem com a falta de infraestrutura, como água, energia elétrica ou esgoto.
O fenômeno, registrado na literatura de John Steinbeck, As Vinhas da Ira, preocupa governantes, mesmo com leve recuperação da economia do País. Segundo dados do censo oficial, de 2010, cerca de 650 mil estadunidenses não têm onde morar, número que, embora tenha se mantido estável nos últimos 12 meses, resiste a diminuir. Em dezembro de 2012, a expectativa de prefeitos de 25 cidades que integram a Conferência dos Prefeitos dos Estados Unidos, é de um aumento da fome e da necessidade de ajuda alimentar no próximo ano.
No documentário Camp Take Notices, disponível também na internet, realizado em 2012 para retratar a história da tent city em Ann Harbor, no estado de Michigan, o jornalista e professor da Universidade de Michigan, Anthony Collings, deparou-se com a situação da maioria dos acampados: abandono pelo poder público, efêmera e demagógica visibilidade de seus problemas pelas empresas midiáticas e luta cotidiana contra a degradação humana. No Estado, a situação de Detroit é emblemática: a cidade, que foi ícone da pujança industrial estadunidense, mais parece uma cidade fantasma, com bairros inteiros abandonados às moscas depois que as montadoras, que fizeram seus anos de glória, deixaram a capital - a população caiu de mais de 1 milhão para cerca de 250 mil pessoas.
Michael Stoops, diretor da Organização Comunitária de Coalização Nacional para os Sem Teto (Community Organizing National Coalitionforthe Homeless), informa que as tent cities pararam de crescer porque as cidades não têm estrutura para organizá-las, embora na sua opinião elas são a melhor opção para enfrentar o problema da falta de moradia. “Metade da população de Rua dos Estados Unidos não está em acampamentos organizados, mas se reúnem em agrupamentos menores, com quatro a cinco pessoas”, explica. O fechamento do Take Notice,retratado no documentário, infelizmente não é um fato isolado. Há vários relatos parecidos no International Homeless Fórum, todos marcados por tristeza e desesperança.
O Take Notice (em português, “Olhe para nós”), em Ann Harbor, surgiu em 2008 e abrigou de 20 a 70 pessoas, dependendo da estação do ano, majoritariamente desempregados da classe trabalhadora ou classe média empobrecida após a crise, além de alguns veteranos do exército norte-americano, Segundo Stoops, não existe um perfil específico dos sem-teto atualmente. “Qualquer um pode perder sua moradia, brancos, negros, famílias inteiras”, conta. Mas nas tent cities, a maioria - 75% - é de homens entre 35 e 55 anos. “Não são pessoas com problemas crônicos de pobreza, mas que perderam suas casas com a crise e que não gostariam de ir para abrigos”, afirma Stoops.
Um estudo de campo feito por George Saunders no acampamento H. Street, em Fresno, na Califórnia, destaca os altos índices de demência encontrados nestes locais, apontados por ele como a razão para a dificuldade em separar a realidade dos exageros e fantasias nas histórias que ouviu. “A relação entre doença mental e residência na área é digno de um estudo mais aprofundado. Em alguns casos, a doença mental parece ser a razão para a residência na área. Em outros, a moradia numa tent city parece estar causando o desequilíbrio mental nos indivíduos que, em um ambiente menos estressante, não seriam doentes”, escreve Saunders. Essa prevalência também aparece nas pesquisas da organização dirigida por Stoops, que indicam que 55% dos moradores têm algum tipo de deficiência, sendo que as doenças mentais aparecem como a quarta maior prevalência.
O acampamento de Ann Harbor foi fechado pela polícia em junho de 2012, com a remoção de todos os seus moradores e o cercamento da área à beira da estrada para evitar novas instalações. De acordo com o que registra Collings em seu documentário, “alguns dos maiores problema enfrentados pelos moradores de Take Notice eram o alcoolismo e a rejeição da comunidade ao redor do acampamento”, retrato que, em muitos casos, se assemelha ao preconceito visto também no Brasil em relação aos favelados.
Nenhum dos dois principais partidos políticos dos Estados Unidos, Republicano e Democrata, manifestou qualquer tipo de apoio aos acampados que, após a remoção, retomaram para as ruas e abrigos temporários - tampouco se manifestam em relação a outras tent cities. Um dos ex-moradores de Ann Harbor aparece no Fórum Internacional de Sem Tetos com o codinome Scared 1959 e publica um post seis meses depois avisando que tinha, finalmente, conseguido alugar um apartamento e estava deixando a vida de sem-teto. Um caso de “final feliz”, como gosta o cinema de Hollywood, mas que não é para a maioria.
Michael Stoops conta que em algumas cidades, os governos municipais procuram apoiar a criação de tent cities. Há uma discussão pública na Costa Oeste sobre onde instalar estes acampamentos de forma segura, seja em terra privada ou pública e em Portland, Oregon, o município tem dado apoio efetivo. “Eles não divulgam publicamente esse apoio porque não querem dizer que o melhor que a sua cidade ou comunidade pode fazer é colocar pessoas em barracas, mas essa é a realidade, simplesmente não há moradia com preço acessível ou cama nos abrigos para todos”, diz ele.
Segundo o diretor da Coalizão, que já foi sem-teto, os acampamentos se mantêm com doações individuais. “As pessoas mandam cheques. Há desde indivíduos até fundações e corporações”, conta. Da mesma forma como no Brasil, a solidariedade é uma marca da vida nas tent cities, nascidas da luta contra a repressão policial e da experiência do coletivismo.
Os comentários nas listas de discussões, blogs e sites das tent citiesindicam que a vida em acampamentos é muito parecida com a dos moradores de rua paulistanos. A lista de necessidades regulares dos moradores do Tent City 4, por exemplo, na periferia leste de King County, em Seattle, inclui comida (café, creme, leite, açúcar, chá), saco de lixo, papel higiênico, meias, botas e sapatos. E avisa que eles terão de mudar o acampamento de lugar. O acampamento tem 40 moradores e a lista de discussão relata a ocorrência de um estupro de menor no local. As discussões que se seguiram a respeito do sistema de segurança acabaram dividindo o grupo. Uma parte queria investigar o antecedente criminal de todos os moradores, já que o culpado pelo estupro era reincidente e procurado pela polícia; enquanto outra parte considerava essa medida uma invasão de privacidade.
A violência e a criminalidade nesses acampamentos é uma das histórias que o pesquisador da Califórnia George Saunders cita como difíceis de mensurar. Saunders conta que foi recebido com histórias macabras de invasões noturnas de viciados em crack, que roubariam “até mesmo a sua aliança de casamento, com o dedo junto se fosse necessário”, imediatamente desmentidos no relato seguinte. No Fórum, há pessoas que consideram a vida nos acampamentos agradável e harmoniosa, apesar das dificuldades e experiências bem sucedidas como a do acampamento chamado Dignity Village, em Portland, no estado de Oregon - aqui, é preciso mediar a avaliação com a cultura estadunidense, cujos habitantes não se importam em morar em trailers, por exemplo. Iniciado em 2000, atualmente Dignity tem casas de madeira, ao invés de barracas de lonas, instaladas sem-teto que vivem na cidade e dormem espalhados pelas ruas, sob marquises e pontes.
Em 1941, durante a II Guerra Mundial, quando o sucesso dos Estados Unidos no conflito não era um fato, circulava nas altas rodas dos dirigentes políticos e grandes capitalistas norte-americanos a expressão: “Nós temos Detroit”. Com isso, faziam referência à vantagem que o País poderia adquirir no conflito, dado o enorme complexo industrial e a força de trabalho ali concentrada, bem como a possibilidade de converter rapidamente a produção metalúrgica, especialmente automobilística, em produção de armamentos e tanques de guerra. A recuperação econômica da crise que estourara em 1929 coincidia com o tempo de guerra, e Detroit era considerada a esperança produtiva e tecnológica dos Estados Unidos, em um ciclo de crescimento que perduraria até meados dos anos 1970 e a crise do petróleo.
Atualmente, Detroit não é senão a sombra do seu passado. Aliás, quase uma espécie de assombração nacional. A profunda e progressiva desindustrialização pela qual os Estados Unidos passou a partir dos anos 1980, quando Ronald Reagan implementou o novo liberalismo financeiro, e seu caráter crônico depois da crise financeira de 2007, atacou a cidade-automóvel em cheio. Dados do Bureau of Labor Statistcs (Escritório de Estatísticas do Trabalho) mostram que na região de Detroit, a taxa de desemprego, atualizada em maio de 2013, é de 9,3°/o da força de trabalho, bem superior ao índice nacional, em pouco mais de 7°/o. Além da destruição do parque industrial, a profunda crise fiscal local e a recente crise imobiliária levaram à migração da força de trabalho para outros estados, desertificando partes inteiras da cidade.
Um retrato da cidade fantasma, disponível na internet, foi feito entre 2005 e 2009 pelos fotógrafos franceses Yves Marchand e Romain Meffre, que percorreram a capital de Michigan semanalmente, registrando prédios, hotéis, delegacias de polícia, igrejas, bibliotecas e teatros completamente vazios e destruídos. As imagens impressionantes de uma grande cidade fantasma deram origem ao livro Detroit em Ruínas. Este, nas palavras dos fotógrafos, revela imagens de “uma cidade abandonada para morrer”. Em nada se parece com a cidade na qual, em 1913, Henry Ford montou sua primeira planta para produção do modelo Ford I e para a qual contratou 90 mil operários. Hoje em dia, a mesma companhia contrata pouco mais da metade deste número e é a principal empregadora da região.

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