Tese revela que as primeiras hidrelétricas de São Paulo foram construídas sem qualquer planejamento
MANUEL ALVES FILHO
MANUEL ALVES FILHO

Baseados nos padrões europeus, notadamente os franceses, os moradores das cidades paulistas queriam romper com o paradigma rural e migrar para o urbano. “A iluminação era o símbolo da modernidade nas cidades da belle époque. Foi esse desejo de modernização que determinou a disseminação das hidrelétricas pelo interior de São Paulo, antes mesmo da chegada da indústria”, afirma Débora. O processo de eletrificação do Estado, continua a pesquisadora, seguiu os caminhos da ferrovia. Com isso, novas fronteiras foram estabelecidas e as cidades, reconfiguradas. “As indústrias, que eram nascentes na ocasião, foram ocupando o espaço entre a ferrovia e a energia. Uma das consequências desse processo foi a criação das vilas industriais”, relata Débora.
Segundo a arquiteta, esse processo teve sequência até 1930, quando a economia cafeeira entrou em crise e a indústria começou e se consolidar. “Com o início da era Vargas, e com a necessidade crescente de energia por parte do parque industrial brasileiro, o ciclo das pequenas centrais hidrelétricas chega ao final e tem início o das grandes hidrelétricas”. O dado curioso que está na base dessa trajetória é que, a despeito de o Brasil dispor de um gigantesco potencial hídrico, a geração de eletricidade através dessa fonte natural ocorreu sem qualquer planejamento tanto por parte dos investidores quanto dos gestores públicos da época.
Débora explica que o desejo de eletrificação esbarrou inicialmente na indisponibilidade de carvão no Brasil para alimentar as termelétricas, como ocorria na Europa. Diante dessa dificuldade, os fornecedores estrangeiros de equipamento, notadamente dos Estados Unidos, como a General Eletric, decidiram enviar ao país turbinas para serem movidas pela força da água. “Os compradores brasileiros não sabiam muito ao certo o que estavam adquirindo, nem como esses equipamentos funcionavam. Tudo foi feito de forma bem empírica. Assim, os engenheiros, normalmente aqueles que trabalhavam na ferrovia, assumiam a responsabilidade de construção da usina e tratavam de ler o manual de instrução dos equipamentos para saber o que fazer”, relata a autora da tese.

As primeiras experiências, como seria de se esperar, não deram bons resultados. Conforme Débora, ocorreram problemas de diversas ordens durante a implantação das usinas. Houve caso, por exemplo, de equipamentos que ficaram presos na alfândega. No caso da Monjolinho, os responsáveis técnicos depararam com algumas dificuldades, o que fez com que recorressem aos conhecimentos de Thomas Alva Edison, o cientista inventor da lâmpada elétrica incandescente. Não se sabe, porém, qual teria sido a resposta do Edison ao pleito. “Muita coisa não deu certo nesse início. A hidrelétrica de Rio Claro, por exemplo, pegou fogo no dia da inauguração. Além disso, no levantamento que fiz, foi possível apurar que, na primeira década do estudo, algumas usinas foram construídas concomitantemente, mas uma não sabia da existência da outra. As pessoas que tocaram esses projetos promoveram atos heroicos”, avalia a arquiteta.
Mudança de hábitos
A chegada da energia elétrica não modificou somente o perfil das cidades paulistas, que cumpriram uma espécie de rito de passagem para o contexto urbano-industrial. A novidade também promoveu mudanças nos hábitos e costumes dos moradores. Uma alteração importante foi o advento das atividades noturnas. Com a disponibilidade da iluminação pública, as pessoas passaram a sair de casa à noite e a assumir compromissos nesse período. “O mesmo ocorreu em relação à criação de mais um turno de trabalho, o noturno, nas indústrias”, destaca Débora.
No rastro da eletrificação das cidades, surgiram também inventos dotados de motores e dispositivos elétricos, o que facilitou a vida das pessoas, a da mulher inclusive. Graças às então denominadas “máquinas do conforto”, os atuais eletrodomésticos, as donas de casa puderam substituir o emprego da força física no cumprimento de inúmeras tarefas domésticas, como limpar e lavar. “Mas, a energia elétrica não proporcionou somente bônus às sociedades de então. Trouxe também ônus, visto que as obras para a colocação de postes e os cortes no fornecimento, indispensável para a execução de determinados trabalhos, incomodavam e geravam queixas por parte dos moradores. Alguns chegaram a escrever para os jornais para reclamar dessas inconveniências”, acrescenta a pesquisadora.
Para dar embasamento ao seu trabalho, Débora recorreu a diversas fontes, como revistas da área elétrica, livros históricos, documentos e a literatura científica, tanto no Brasil quanto em Portugal, onde cumpriu parte do doutorado sanduíche. “Grande parte do material utilizado na tese encontra-se no arquivo da Fundação Energia e Saneamento, que fica em São Paulo e que mantém um rico acervo bibliográfico e imagético”, informa. A Fundação dispõe de aproximadamente 1.600 metros lineares de documentos técnicos e gerenciais, 260 mil documentos fotográficos, cerca de 3.500 objetos museológicos, 50 mil títulos na biblioteca, além de documentos cartográficos, audiovisuais e sonoros, reunidos a partir de meados do século XIX. Para desenvolver a tese, a autora contou com bolsa concedida pela Euro Brazilian Windows (EBW), Programa Erasmus Mundus para doutorado sanduíche e, no Brasil, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
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