sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Obama cala as armas


DEBATE ABERTO

Obama cala as armas

As últimas semana foram decepcionantes para o Governo Obama. Na frente interna, recomeçou o choque com o Congresso sobre o orçamento público. No plano externo, os EUA viram-se paralisados pela recusa da opinião pública e da comunidade internacional em aceitar mais uma guerra “encomendada”.

As últimas semana foram decepcionantes para o Governo Obama. Na frente interna, recomeçou o choque com o Congresso Americano sobre o orçamento público, com tal virulência que o presidente acusou a oposição republicana de “extorsão”. No plano das relações internacionais, os EUA viram-se paralisados tanto pela recusa da opinião pública em aceitar mais uma guerra “encomendada”, quanto pela recusa da comunidade internacional em aceitar os termos de Washington. Da crise, a Federação Russa, a ex-URSS, sai fortalecida.

A frente interna
A luta pela aprovação do orçamento nacional para o exercício de 2014 já começou em Washington, e, mais uma vez, parece ameaçar o Governo Federal com a paralisia. Com a economia do país ainda longe da recuperação prevista no início de 2013, Obama é obrigado, no momento, a continuar aumentando astronomicamente o endividamento público do país. Depois que o presidente da Reserva Federal (banco central) americano vinculou a diminuição do desemprego ao fim das benesses financeiras – a compra e recompra de títulos americanos pelo Tesouro coloca na praça, todo mês, cerca de 85 bilhões de dólares, ao mesmo tempo que a taxa de juros é mantida forçadamente baixa – houve uma inundação de dólares “baratos”, que atingiram negativamente as moedas e o preço dos artigos dos países emergentes ( como Brasil, Índia, Argentina, África do Sul, etc...). Mas, com uma taxa de desemprego presa em torno de 7.4% (era de 8.1%, em 2012), caindo a um ritmo lento – no mais, sob a forma do chamado “efeito gangorra”, ou sobe/desce – e um crescimento estimado, para 2013, de 2.5% do PIB, Obama se vê sob forte crítica dos ultraliberais, dos conservadores do “Tea Party” e dos republicanos.

Para manter o crescimento – ainda muito abaixo das médias históricas do país – Obama deve insistir em “incentivos” monetários gigantescos, que ao final tornam o endividamento público mais pesado e de difícil resolução. Os EUA se endividam pesadamente a cada mês.

Assim, esta semana, Obama foi obrigado a abandonar a ideia de tornar o ex-secretário do Tesouro do Governo Clinton, Larry Summer, novo presidente do “Fed”. Em seu lugar emerge Janet Yellen, uma neokeynesiana expansionista (ou seja, convencida da necessidade de mantar o dólar barato e os juros baixos) para fomentar o retorno do crescimento aos EUA. A oposição, contudo, não aceita a elevação “astronômica” do endividamento e ameaça, mais uma vez, não aprovar o orçamento (como foi em 2012), lançando-o em mais um “Abismo Fiscal”.

Para a aprovação da sua política econômica – até o momento de resultado bastante medíocre – Obama está sendo obrigado a negociar com a maioria oposicionista republicana na Câmara dos Deputados. Estes fazem uma exigência básica para apoiar um novo “teto de endividamento público”: cortes substanciais no regime de saúde pública criado pelo próprio Obama e que é a marca, até o momento, dos seus dois mandatos.

Afastando-se das bases progressistas
A emergência de Obama no cenário norte-americano, com sua mística de jovem e dinâmico político negro, marcando um “fim de época” (da segregação) e plena realização do “American dreams”, empolgou milhões de americanos. Muitos destes, a maioria, nunca tinham votado (o voto não é obrigatório nos EUA) e o fizeram pela novidade que representava a candidatura Obama.

A maioria destes progressistas (“liberals”, em inglês) estão fortemente decepcionados com a Administração Obama. Dois pontos são, particularmente, graves. De um lado, a saída buscada por Obama para as guerras no Afeganistão e outras partes do mundo – Iêmen, Somália, Sudão, Paquistão – pela utilização massiva de “drones”. Pequenos aviões não-tripulados e armados, capazes de matar, à distancia, seus alvos. O caso, no entanto, redunda, constantemente, na morte de dezenas de civis inocentes. 

Os erros de identificação são frequentes, atingido crianças e, até, festas em família confundidas com reuniões terroristas. O uso dessa guerra moderna, limpa e sem riscos para os soldados americanos, mas com terríveis consequências para inocentes, arranhou a imagem humanista e progressista que o presidente queria para si mesmo. Os dados sobre tais mortes ditas “acidentais” são discutíveis, mas em 2011, foram 146 civis dos quais 9 eram crianças (Bureau of Investigative Journalism), sendo que até o momento, somente na administração de Obama, cerca de 500 civis foram mortes desta forma [1].

Por outro lado, a descoberta do imenso sistema de espionagem montado nos EUA e mantido e expandido na Administração de Obama, espionando cidadãos americanos, estrangeiros, amigos e inimigos, revelou uma administração federal absolutamente alheia aos critérios e princípios mínimos, senão da Lei, com certeza da ética e da decência mínima. Ao menos em um caso, com o Brasil, a espionagem americana poderá custar algumas centenas de empregos americanos, com Brasília escolhendo, por retaliação, outros fornecedores para equipamentos para as FFAA brasileiras.

Assim, a imagem construída, com tanto cuidado, de um presidente, em tudo, o “Anti-Bush”, começou a ruir e mostrar um político frio, calculista, avesso às negociações e arrogante ao ponto de não negociar e, menos ainda, a se desculpar dos erros cometidos e, publicamente, exibidos. Para piorar tudo, no afã de esconder as marcas a bisbilhotice endêmica e paquidérmica – já que não conseguiu minimante, com todo seu aparato proteger a vida de simples cidadãos americanos do terrorismo num desfile nas ruas de Boston – a Administração Obama, já é o governo que mais processou e limitou o direito à livre informação, tendo hoje em formas deferentes de prisão Julian Assange ( retido numa embaixada em Londres), o soldado Bradley Manning, condenado nos EUA, e o jovem Edward Snowden, internada na Rússia. Não podemos esquecer, é claro, no quase sequestro do Presidente Evo Morales e da prisão arbitrária do brasileiro David Miranda, em Londres. Tudo muito bem coordenado pelos interesses de Washington.

É assim que um mito, como tudo mais, se desmantela: pela revelação de sua própria e íntima natureza.

Na Frente externa: a crise na Ásia do Pacífico
O ano, até o momento, não foi bom também na Ásia. Entre março e abril de 2013, a Coreia do Norte ameaçou seriamente entrar em conflito com os EUA e rompeu com acordos, incluindo aqueles derivados do Armistício de Panmumjon, de 1953 (que havia encerrado a Guerra da Coréia – 1951-1953) e colocou o Japão e a Coreia do Sul, aliados e protegidos dos EUA, numa situação de extrema insegurança. Ora, mesmo os Estados Unidos estavam, desde 2012, sob pressão, na Ásia Oriental, em consequência de uma áspera – e com desdobramentos militares – disputa entre Beijing e Tóquio por alguns atóis e rocas no Mar da China Oriental. 

Os Estados Unidos, que mantem um acordo de defesa mútua e assistência militar com o Japão, viu-se na incômoda situação de garantir suas obrigações com Tóquio, sem, contudo, arriscar uma escalada conflituosa com os chineses. 

As duas crises desenrolaram-se quase que simultaneamente, entre China e Japão e, em imediato, entre Coréia do Norte e os aliados asiáticos de Washington.

Beijing, para além de tomar as medidas que considerou legítimas – com a ocupação militar das ilhotas – manteve-se distante da crise coreana, permitindo uma brutal escalada – no estilo de Pyongyang, de muitas assertivas “anti-imperialistas” – quase que até um ponto de não-retorno. Somente neste momento, após humilhar o Japão e deixar os EUA sem trunfos na região, é que Beijing começou seus esforços junto a Coreia do Norte para amortecer a crise na conturbada península.

Havia aqui um claro recado da parte de Beijing: a insistência de Obama em tratar os chineses como uma potência de segunda categoria (incluindo aí reptos públicos sobre direitos humanos, acusando a China de espionar os EUA e o mundo, além de incentivar a cyber pirataria e cyber guerra e, por fim, a continuada assistência militar de Washington a Taiwan) teriam um preço. A China, no pós-XVIII Congresso do PCCh, e com seu novo líder, Xi Jinping, não estavam mais na situação de país colonial e os EUA teriam que começar a considerar a paz na Ásia do Pacifico um tema de cooperação comum entre as duas potências.

Os conflitos com a Rússia
Acostumada, desde de a derrocada da URSS em 1991, Washington não percebeu a imensa recuperação dos russos, a relevância – para a Europa, China e Oriente Médio – da economia russa e de seus trunfos estratégicos (para além do arsenal militar, renovado e com farta agregação tecnológica, a Rússia tornou-se um parceiro indispensável para países como a China Popular, Irã, Índia e Vietnã – onde a antiga base aeronaval americana de Da Nang foi arrendada a Moscou). Hoje, os ex-inimigos “socialistas” possuem uma coesa aliança, ampla cooperação militar e econômica, além de objetivos comuns de afastar Washington da Ásia Central.

Da mesma forma, os contratos comerciais entre Moscou e Beijing estreitam-se e multiplicaram-se, com a construção de oleodutos diretos da Sibéria para a China e o fornecimento de amplo material e tecnologia militar russa – em especial na área de submarinos – para os chineses. Além disso, a diplomacia russa, esnobada no Ocidente, esforçou-se, com sucesso, a dar uma aparência formal (com reuniões periódicas e consultas constantes) ao chamado grupo dos BRICS, que passaram a ter uma atuação bastante coordenada em fóruns internacionais, em especial na ONU e no G-20. E, na Ásia Central, consolidou o Pacto de Shanghai, assumindo um amplo papel de manutenção da ordem, em especial de controle do islã fundamentalista na região.

Neste contexto, a insistência de Washington em tratar os interesses russos – em Belarus, na Ucrânia e no Cazaquistão – como insignificantes, acarretaram a imperiosidade de uma reação russa. Desde a Guerra da Geórgia, em 2008, quando a Rússia atribuiu a ousadia dos georgianos a um pouco velado incentivo de Washington, Moscou tinha interesse em mostrar-se, mais uma vez, um ator global atuante e necessário para a ordem mundial.

A oportunidade surgiu com a crise da Síria. Numa guerra civil extremamente cruel – como são sempre as guerras civis – as potências vizinhas resolveram travar aquilo que foi chamado de “guerra por procuração”. Ali, as potências regionais sunitas (Arábia Saudita, Turquia, Qatar) buscaram eliminar o risco do “Grande Arco Xiita” (formado pelo Irã, Iraque, Síria e Líbano), resolvendo de uma vez por todas (sob a desculpa de apoio a uma pretensa “Primavera” síria) as diferenças regionais e a hegemonia do poder sunita em todo Oriente Médio.

Para os EUA e Israel era uma oportunidade única para livrar-se da dinastia dos Al-Assad, do risco que representam e do seu arsenal químico (“a bomba atômica dos pobres”, capaz de assustar Israel). Assim, desde as primeiras manifestações, espontâneas e legitimas de oposicionistas sírios, os serviços secretos da Arábia Saudita e do Qatar, trouxeram armas da Croácia – rescaldo das guerras da ex-Iugoslávia, fornecidas pelos EUA – e entregaram aos “rebeldes”. A Turquia passou a equipar e municiar uma “Exército Sírio Livre” e centenas de jihadistas da Al-Qaeda (sunita) entraram no país e começaram uma tenebrosa série de ataques terroristas. O governo de Damasco respondeu com sua brutalidade usual. O resultado foi, até o momento, 100 mil mortos e três milhões de deslocados, refugiados dentro e fora da Síria.

Com o apoio do Hizbollah libanês (e xiita) e da Guarda Islâmica do Irã, Damasco retomou as iniciativas e começou a varrer, com violência, os rebeldes sírios e os jihadistas estrangeiros. Surgiram aí as denúncias, comprovadas por várias fontes, de uso de armas químicas. Gás sarin ao menos com certeza em alguns casos. Quem usou tal recurso cruel e desumano contra civis?

A ONU não consegue responder. O que sabemos? A Síria possui os estoques e os vetores, mísseis, necessários para sua utilização. Contudo, sabemos também que a Arábia Saudita transferiu armas químicas para os rebeldes em território sírio. Além disso, em 31 de maio de 2013, rebeldes jihadistas anti-Damasco foram presos na fronteira turca com dois cilindros de gás sarin, prontos para uso. Mas, é provável que ambas as partes tenham usado gás Agente 15, na batalha na cidade de Alepo. Enfim, é possível que comandantes militares sírios tenham usado gás sem autorização de Damasco, em meio à batalha; é possível que Damasco tenha usado em resposta a um ataque igual da Frente Al-Nuzra (ligada a Al-Qaeda) e que estes usaram o gás para provocar a intervenção ocidental.

De qualquer forma, Obama havia estabelecido uma “linha vermelha” e preparou-se, depois da morte de 1700 civis em Goutha, na madrugada de 21 de agosto de 2013 (por efeito de gás) para o ataque contra Damasco (considerado o único culpado). Foi então que deu-se o choque de realidade: o Parlamento britânico (o aliado umbilical) recusou-se a participar da nova guerra; a Alemanha, Itália e Espanha (envoltas em suas próprias dificuldades econômicas) recusaram qualquer ajuda. E a população americana, pressionando a Câmara dos Deputados, mostrou-se radicalmente contra a proposta de guerra de Obama.

Havia o risco de um fiasco e de perder a face.

Restava, sempre, a França (onde o presidente “socialista” desaba em sua aprovação) e a Turquia. Mas, isso não bastava. Foi neste contexto que Moscou apoiou sua alavanca. Distribuiu informes sobre as armas químicas dos rebeldes e mostrou-se resoluta em condenar qualquer ataque ou direito de intervenção dito “humanitário (“RtoP”). No auge da crise, Vladimir Putin e Sergei Lavrov, chanceler russo, pegaram o inexperiente John Kerry pela palavra. Ao dizer, de público, que a Síria deveria abandonar as armas químicas, Moscou, de pronto, transformou a fala descuidada do secretário de Estado americano numa proposta de negociação.

A diplomacia americana paralisou-se. A Rússia mostrou-se como um “garante” da paz e retomou seu papel de mediação no Oriente Médio.

Enfim, péssimas notícias para o Senhor Barack Obama,

[1] Ver http://www.brookings.edu/research/articles/2013/06/17-drones-obama-weapon-choice-us-counterterrorism-byman

(*) Professor Titular de História Contemporânea/IUPERJ.

Nenhum comentário:

Postar um comentário