Que é a nova classe social? Em que difere do proletariado histórico? Livro recém-lançado de Guy Standing lança provocações instigantes
Juan Carlos Monedero
O precariado diferencia-se do assalariado “com um posto de trabalho relativamente duradouro e estável, com jornadas de fixas e caminhos de progresso bastante claros, com sindicatos e acordos coletivos, com funções cujos nomes seus pais compreendiam”. A pergunta quase óbvia é: mas o precariado não é na verdade a mesma classe proletária fustigada de sempre? Standing insiste em que são realidades diferentes. Basicamente, o que ele está dizendo é que o mundo do Estado social está acabando. A diferença entre o precariado e outras formas de trabalho subalterno não está tanto em sua “decadência” profissional, mas na leitura que construiram sobre o lugar que mereceriam ocupar. O precariado conseguiu fazer, no oásis social-democrata, os deveres de casa necessários para estar em outro lugar – por exemplo, formando-se, manejando tecnologias, aprendendo idiomas, conhecendo o mundo. No entanto, está por baixo. O risco de que despreze o proletário tradicional é grande, assim como o de demonizar o imigrante, que “parasita os subsídios” (que estão no mesmo lugar que ele, mas dos quais quer distância). Daí pode surgir um problema que conviria resolver: os oprimidos históricos desprezam o precariado (sendo eles próprios precários); e este despreza a camada inferior da classe operária. Trata-se de encontrar a janela de oportunidade para unir essas forças.
O precariado tem um “status truncado”. O status é o espaço de reconhecimento vinculado ao trabalho assalariado. Enquanto um trabalhador de baixo salário podia construir uma carreira profissional (ainda que limitada), o precário tem essa possibilidade negada. O precário carece de segurança para conseguir emprego, manter-se no emprego, fazer carreira, ter garantias e segurança no posto de trabalho, reproduzir suas habilidades, manter uma renda e representar seus interesses coletivamente. Carece da identidade baseada no trabalho, não tem memória social nem sensação de pertencer a uma “comunidade ocupacional baseada em práticas estáveis, códigos éticos e normas de comportamento, reciprocidade e fraternidade”.
A solidariedade entre os precários é fragil. A sensação é de estar sendo maltratado, e de enfado diante da diferença entre sua sorte e a dos outros. O antigo estagiário tornou-se hoje um simples precário. Portanto, há quatro novas características do precário. Aversão (certa inveja ou ressentimento que leva ao desenraizamento ou excesso de autoexploração). Anomia, essa passividade nascida do desespero. Ansiedade, por se saber sempre à beira do abismo (basta um erro ou um golpe da sorte para cair no lado escuro da vida). É a frustração de saber que se tem muito pouco e, não bastasse isso, é muito fácil perder o que se tem. Por fim, a alienação: frustrado profissionalmente, o precário tem dificuldades profundas em desenvolver relações de confiança, ao mesmo tempo em que escuta que deve ser positivo e sorrir.
O precariado está lançado no mundo, à mercê de forças – os mercados – contra as quais não pode fazer nada, a não ser acrescentar ressentimento. A política poderia ajudar, mas por força de não controlar seu destino, de ter-se desenvolvido em formas de democracia representativa, de estar sujeito a constantes mensagens que dizem não haver alternativa, acabou desprezando a política, perdendo o único instrumento que poderia realmente ajudar.
O livro deixa perguntas. Standing não critica o capitalismo, mas apenas seus excessos neoliberais. Daí sua proposta de “mercantilização total do trabalho” (dando como certo que quem contrata, necessita; e vai remunerar segundo as regras teóricas do “mercado de trabalho”) ou que os países ricos convertam-se em “economias rentistas” e invistam nos países emergentes. É muita suposição. Como quando ele fala de um precariado bom – ao qual atribui todas as qualidades de uma cidadania responsável – e um mau – que cairia nas garras da direita populista.
A classe operária podia invadir o paraíso, porque o grosso da humanidade era trabalhadora e o sistema de produção capitalista é um modo de produção sustentado pelo trabalho alheio. Pensar o precariado revolucionariamente, sem mudar o capitalismo, é um exagero. Um precariado que, por enquanto, só quer melhorar suas condições de vida. A consciência resultará de suas lutas.


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