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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

JOÃO LUIZ SPAVIER, O CAFEICULTOR



- Eu não perco um Jornal da Sete da TV Gazeta, todos os dias estou colado na televisão.”
 Foi o que me falou o cafeicultor João Luiz Spavier, lá do Córrego da Bateia, no município de Castelo, há 800 metros de altitude, ao lado de um pé café arábica ainda com muitos frutos a serem colhidos. Com fala mansa e cadenciada, percebi que não estava diante de um agricultor comum. Senti que ali estava um agricultor bem acima da média do homem do campo capixaba. Das suas palavras vinha além de sons, sabedoria e percepção da realidade..
Como o café tem preço divulgado no Jornal da Sete, imaginei que era para ver a cotação. Perguntei qual a razão de não perder uma edição. Spavier falou, “prá ver a previsão do tempo, é dele que dependo na minha vida de cafeicultor. Até aqui a previsão tem batido certinha. Já programo o meu dia seguinte de trabalho com as informações que a televisão me deu.”
O sistema adotado é o da colheita seletiva, onde são colhidos somente os grãos maduros. Um trabalho paciente e que deve ser realizado com determinação. Se o produtor errar a mão e pegar grãos verdes vai comprometer a qualidade do produto final, que tem relação direta com o valor da saca de café. É normal no sistema de colheita seletiva o produtor voltar numa mesma planta várias vezes. Tudo depende das condições climáticas e do manejo que foi dado à lavoura, esclarece Spavier. Ele começou a fazer a colheita seletiva no ano de 2004. Em 2010 ele colheu na mesma planta sete vezes. Mas teve ano que com quatro vezes conseguiu fazer toda colheita. Todo trabalho é para se ter um café de alta qualidade e uma melhor remuneração final.
Já veterano na participação em concursos de qualidade de café, Spavier fala que “às vezes a gente ganha o concurso e vende o café por um bom preço. Mas já aconteceu de na mesma safra a gente vender o café que sobrou por um preço melhor ainda. Isto aconteceu porque ficamos conhecidos como produtor de café de qualidade, o que desperta a atenção de outros compradores. Em 2009 vendi com melhor preço para de Poços de Caldas. Não critico a Pronova de Venda Nova do Imigrante, porque foi lá que fiquei conhecido e pude vender o meu café melhor.
Spavier lembra que quando a filha a Deusa foi para a Escola Família Agrícola, em Castelo, que tem um sistema de ensino conhecido como Pedagogia da Alternância, onde o jovem fica um período na escola e em seguida permanece por igual período na família ajudou muito a todos. Ele que é uma pessoa que gosta de trocar idéias e informações lembra que “no período que Deusa estava em casa a gente debatia o que ela aprendeu na Escola. Uma conversa e não um confronto de idéias, com o sentido de uma vida digna e futuro justo.”  Foi por Deusa estudar na EFA que cheguei a casa dos Spavier. Explico. Na EFA o aluno apresenta um projeto prático a ser desenvolvido junto a sua família. Deusa optou pela condução diferente num plantio de inhame, cultura conhecida e praticada pela família. Uma adubação orgânica do solo, com a utilização da palha da pila do café, resultou numa colheita de 190 caixas, quando nos anos anteriores na mesma área era de 80 caixas.     
Em tempo, João Luiz Spavier, que é meeiro, sabe do valor do trabalho, mas entendeu a importância da Educação, “se tivesse mais filhos ou filhas, colocaria na Escola Familia Agrícola de Castelo.”

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

CECOTTI, VISÃO DE FUTURO

Um velho hábito me acompanha há décadas, a curiosidade. Sempre que tenho oportunidade a exerço com plena consciência e intensidade. Foi por causa deste comportamento que pude conhecer e vivenciar um caso interessante de visão e competência comercial.
Em 2005 numa exposição de produtos rurais, em Anchieta, por ocasião de um encontro de Escola FamÍlia Agrícola ligadas ao Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (Mepes), me chamou a atenção uma mesa com dezenas de produtos feitos pelas famílias dos agricultores. Um em especial me atraiu: um pacote de café. Não resisti e fui em busca de sua origem. Tinha o pacote um belo logotipo e o nome do produtor: Cecotti, com endereço, telefone e um cheiro agradável de café de qualidade.
Neste dia constatei uma das maiores ações vindas de um agricultor capixaba. Dois irmãos cafeicultores, Francisco e Vicente resolveram agregar valor no bem maior que possuíam, o trabalho, no caso, apresentado em forma do café. Logo em seguida fui buscar as duas figuras que eram as responsáveis pela ação de marketing normal numa empresa dita moderna, mas uma surpresa quando vindo do meio rural. Encontrei os irmãos Cecotti, descendentes de imigrantes italianos, morando e trabalhando numa propriedade como muitas outras, explorada no sistema de economia familiar.
Torrar café e vende-lo é uma situação onde o produtor quer agregar valor na sua produção primária. Uma ação normal e justa de qualquer indivíduo que deseja ter um ganho sobre o produto que ele tira da terra. Os irmãos Cecotti foram um pouco mais adiante no torrar e vender café. Fizeram um a ação inovadora, vinda do meio rural, normalmente descapitalizado e sofrendo nas mãos de intermediários, mas trabalhando e lutando diariamente para sobreviver. Ir um pouco mais adiante.
Ao torrarem, moerem café e vende-lo fizeram igual ao que muitos cafeicultores capixabas já haviam feito. Até aqui nada de diferente. Mas eles investiram um bom capital na aquisição de três máquinas para fazer café expresso, que foram locadas em bares e lanchonetes de Castelo. O gasto representou despesa extra que na época equivalia a dezenas de sacas de café. Hoje já são oito máquinas. Um investimento de quem acredita no futuro e no que está fazendo.
No início do empreendimento o mínimo que se podia imaginar é que eles estavam num projeto utópico e sem a menor possibilidade de sucesso. Aliás, um fracasso com tempo certo para acontecer. Me lembro que o Jornal do Campo fez uma reportagem para falar sobre a iniciativa dos Cecotti, o Francisco falou sobre o custo de cada máquina e que ela teria de trabalhar para fazer retornar o dinheiro nelas investido. Mas lembrou que a máquina iria fazer com que o produto deles ficasse conhecido e renderia um bom retorno.
Outra ação dos irmãos Cecotti é o de estar sempre presente em eventos no município. Como Castelo tem a Festa de Corpus Christh, que atrai milhares de turistas, lá sempre estão distribuindo café de graça, mas na expectativa de ir passando os seus pacotes aos interessados em levar prá casa um produto de qualidade.
O Espírito Santo tem de aplaudir o trabalho de gente como os Cecotti. Aliás, o nosso futuro dependerá do apoio que a Sociedade e o Poder Público derem a este tipo de iniciativa. Isto é uma parte do Espírito Santo real que não me cansarei nunca em buscar, bater palmas, agradecer e divulgar.
ronaldmansur@gmail.com