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quarta-feira, 21 de março de 2012


INTERCÂMBIO BRASIL-ITÁLIA TEM MODELO NO ESPIRITO SANTO
A GAZETA 11-09-1989

O Espírito Santo é um Estado onde grande parte de sua população tem a sua origem na Itália. Temos ainda, por força da integração racial, um contingente social ligados por laços de parentesco. Numa rápida consulta a uma lista telefônica, por exemplo, vamos constatar a presença de centenas e centenas de nomes italianos.

A colocação feita acima aparentemente não tem nada de expressiva. Esta colocação somente não teria validade caso as oportunidades concretas de um maior e melhor intercâmbio com a Itália não fossem possíveis. Aqui no nosso estado existe uma entidade que, com grande habilidade, vem desenvolvendo um intercâmbio direto com a Itália e, com muita dificuldade nasceu e vem crescendo. Estamos falando do Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo -Mepes.

O Mepes surgiu no Estado há pouco mais de 20 anos, por inspiração do Padre Humberto Pietrogrande, com ajuda e um bom número de capixabas preocupados com o destino do homem do campo. Homem do meio rural cujo destino era o de sempre migrar para o meio urbano ou para a nova fronteira agrícola. O passo final seria sempre a cidade, a marginalidade.

O Mepes é uma realidade imensa, possuindo um hospital em Anchieta (que é dirigido pelo agricultor Jovelino Palaoro, diversas creches, um centro de formação de monitores, 11 escolas de primeiro grau e duas de segundo grau. As escolas estão no municípios de Anchieta, Rio Novo do Sul, Iconha, Alfredo Chaves, São Gabriel da Palha, Nova Venécia, Jaguaré, Rio  Bananal, São Mateus, Boa Esperança, Montanha e Pinheiros.

Todo patrimônio erguido hoje tem a marca firme do trabalho e da determinação das comunidades. Neste conjunto a presença do Poder Público não é certamente de destaque. Não existe, de forma alguma, uma contra partida do Poder Público, quando confrontados coma força das comunidades rurais. Falamos de Poder Público envolvendo Prefeituras, Governo do Estado e Governo Federal.

O detalha interessante da educação do Mepes é o que se denomina de ‘’alternância’’. Os alunos ficam um período na Escola e um período na sua casa, fazendo assim uma ponte que une os dois meios. Desta forma a escola funciona dentro da realidade da região e da família de cada aluno. Na escola de primeiro grau o aluno fica uma semana na escola e uma na sua casa. Já na escola de segundo grau a alternância se dá com duas semanas na escola e igual período na família. Desta forma o aluno é na verdade uma matrícula múltipla, porque com ela está a família e a própria comunidade.

A alternância é um conduto de mão dupla, fazendo com que as escolas do Mepes sejam uma escola de realidade e de vida. É por este motivo que muitos Estados da Federação estão se interessando por ter em funcionamento este modelo de escola.

Um fato interessante é de que a estrutura do Mepes que deu certo e funciona bem no nosso Estado teve a ajuda inicial de um grupo de italianos da cidade de Pádova, na região do Veneto, local de onde vieram os italianos para o nosso Estado. Lá foi criada uma entidade chamada Associação dos Amigos do Estado do Espírito Santo (AES), que em conjunto com o Mepes promove o intercambio Brasil-Itália. Muitos produtores capixabas já estiveram na Itália. Também temos de registrar a ajuda financeira vinda da AES, de grupo de pessoas do Norte da Itália e também do Governo Italiano.

No início deste ano estava em Anchieta, onde o Mepes tem a sua sede, o cônsul italiano Ignácio de Pace, que num depoimento falou:

-SEMPRE OUVI FALAR DO MEPES. SEMPRE TIVE O DESEJO DE VER PESSOALMENTE. UMA COISA É LER DOCUMENTOS E RELATÓRIOS (SEMPRE LONGOS) A OUTRA É VER A REALIDADE DE PERTO. VI HOJE E TENHO DE DIZER QUE O QUE VI CUMPRIU O QUE EU LI. A REALIDADE É MELHOR DO QUE EU ESTAVA ESPERANDO.

-QUANDO ALGUÉM FOR ME PEDIR OPINIÃO SOBRE O MEPES, DAREI COM CONHECIMENTO GERAL DE CAUSA. ESPERO TER OUTRAS OPORTUNIDADES. UMA EXPERIÊNCIA MUITO ÚTIL E IMPORTANTE. NÃO VOU ESQUECER. PODENDO AJUDAR, AJUDAREI, NÃO VOU FALTAR.

Fica aqui o registro de uma ação concreta e positiva do intercâmbio entre o Brasil e a Itália. Hoje podemos dizer com certeza que os recursos financeiros aqui aportados junto com a parte brasileira, deram um resultado altamente positivo. A transposição de uma idéia de uma educação rural baseada na realidade de cada região ganhou outros Estados. O uso dos recursos financeiros foi multiplicado em muitos talentos, como diz a passagem bíblica.

O sucesso da escola família, do hospital de Anchieta, das creches e do Centro de Formação é originária do intercâmbio de idéias de pessoas, situação que dificilmente poderá ser medida com valores monetários. É a troca, humana e solidária de experiências de vida e também a perspectiva de um futuro comum de irmãos, que desembocam no sucesso do Mepes.

sábado, 17 de março de 2012


EDUCAÇÃO RURAL CONTEM O ÊXODO
JORNAL A GAZETA 12-02-1987

O Governador eleito Max Mauro, foi na última terça-feira, dia 10, conhecer a estrutura e o funcionamento do Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (MEPES), que tem a sua sede em Anchieta e  a sua atuação prática espalhada por vários municípios capixabas (Iconha, Alfredo Chaves, Rio Novo do Sul, São Gabriel da Palha, Rio Bananal, Boa Esperança, Montanha, Pinheiros, Jaguaré, São Mateus, Anchieta e Nova Venécia).
Atuando basicamente na educação rural, o Mepes tem as suas bases assentadas em três pontos básicos: ver, julgar e agir. Já com 20 anos de funcionamento no Estado, o Mepes impressiona a todos que o conhecem. Para os que têm um compromisso com a questão social e acreditam numa sociedade justa e equilibrada, a impressão do Mepes é das melhores. Já o grupo das pessoas que vêem nas mudanças sociais a possibilidade real de término dos seus privilégios, o Mepes é compreendido como um agrupamento de pessoas sonhadoras e utópicas. Este último grupo quer ver o Mepes pelas costas.
Convém explicar que sob a responsabilidade do Mepes estão várias escolas de primeiro grau, um hospital, creches e também duas escolas de segundo grau. A finalidade da educação transmitida pelas escolas é no sentido de fixar as pessoas no meio rural. Atuando de forma inversa ao ensino rural oficial, onde o jovem é retirado do campo e enclausurado numa sala de aula e depois  no passo seguinte a cidade, o Mepes é “escola para a vida’’, conforme recente estudo feito por dois ex-alunos da Faculdade de Filosofia e Letras de Cachoeiro de Itapemirim.
Enquanto, no ensino oficial rural, o jovem é seqüestrado de sua casa e nunca mais é devolvido ao seu meio, no  Mepes o sistema de alternância (uma semana na escola e outra em casa) dá a oportunidade  à família de também absorver os conhecimentos transmitidos na escola. No período que o jovem passa em sua casa, ele desenvolve atividades agrícolas e sociais, por intermédio de um plano de estudos. Trabalhos sobre cooperativismo, sindicalismo, comercialização, origem das famílias e medicina caseira entre outras coisas. É nesta condução dos trabalhos que embarca toda família e toda comunidade. Daí dizer que o Mepes é a educação da base.
Durante três horas Max Mauro ouviu depoimentos de líderes rurais dos municípios onde o Mepes está presente. Viu  estatísticas, viu o padre Humberto Pietrogrande (fundador da entidade) dizer que o Mepes era um sinal de vida e que o seu objetivo é o de liberar o homem rural- ‘’homem ainda não poluído, porque ele ainda está na natureza criada por Deus. Hoje, Governador, é a oportunidade para conhecer o Mepes, ver como é aplicado o dinheiro que o Governo nos repassa.”
Os depoimentos iam correndo mansamente, quando o jovem Antonio Carlos Petri (aluno do Mepes e presidente da Associação dos Bananicultores) relatou o surgimento da Associação e, logo em seguida da Cooperativa dos Bananicultores. Petri afirmou que a situação dos produtores de banana, quando não tinham organização, era muito difícil devido às grandes dimensões do grupo de intermediação. Relatou numa definição clara a dificuldade de sobrevivência do produtor dizendo: não é fácil nascer no meio dos tubarões, mas o mais difícil é crescer no meio deles”.
Tive a oportunidade de relatar três acontecimentos relativos à vida do Mepes que vivenciei. O primeiro foi o processo gerado pela denúncia de um deputado estadual da ex-Arena contra o Mepes. O então governador Eurico Rezende, com a sua visão imperial e autoritária, afirmou: o Mepes não é subversivo, mas é de oposição. O Padre Humberto ouviu tudo e lhe disse: o Mepes não está à venda, vou relatar tudo isto à Assembléia Estadual das Escolas Família Agrícolas.
O segundo episódio ocorreu logo que Gerson Camata tomou posse. Neste fato estive presente em todo o seu tempo. Padre Humberto encontrou o Governador numa solenidade na Assembléia Legislativa e mostrou interesse em uma audiência. Camata imediatamente a marcou para as 16 horas. No entanto, por mais de três horas o Padre Humberto ficou esperando para ser atendido e, quando finalmente foi recebido (por interferência do advogado Vitor Costa) falou em italiano para o governador, que traduziu imediatamente:
- Conversa franca amizade longa.
Daí para frente a conversa foi em português.
Já o terceiro episódio ocorreu quando da ida de Padre Humberto para o Piauí, onde está dando início a um trabalho igual do Espírito Santo. Neste episódio mais uma vez a presença de Camata. Quando o ônibus 7007 da Viação Itapemirim com destino a Salvador dava partida comentei com o Governador que Padre Humberto deu início ao erguimento de uma imensa obra educacional no Espírito Santo e hoje vai embora anonimamente com uma pequena maleta. Deixou tudo para os capixabas e vai ser nosso credor eternamente.
Ainda na Rodoviária, Camata comentou que no Governo anterior haviam vendido a Fábrica deTecidos de Cachoeiro de Itapemirim (um patrimônio público) recebendo em pagamento um cheque em libras esterlinas sem fundos e ainda pegando troco, sendo que no final da tarde foram bater palmar para a trupe de sabidos no Aeroporto de Goiabeiras.
Já o Governador Max Mauro ficou conhecendo uma das obras fantásticas no setor de educação rural. Uma obra feita e trabalhada com a presença do homem rural capixaba e um grupo de abnegados. Uma obra que já teve sua estrutura e sua idéia básica passadas para outros Estados.
Concordando com as nossas palavras, de que o estado estava inadiplente com o Mepes, Max Mauro afirmou:
- Viemos homenageá-los e acho que a maior homenagem é estimular e ajudar o Mepes. Assumo hoje esse compromisso. Vamos nos espelhar nesta iniciativa. Gostaria de nos encontrar novamente, após 15 de março, para que o nosso Governo conheça o Mepes”.
Mais adiante falou:
-Vinte anos representa muito pouco para a grande obra que é o Mepes, obra com base firme. Quero que vocês me advirtam e cobrem sempre, porque será sempre no caminho do Padre Humberto que vamos fazer o nosso Governo.
O dia 10 de fevereiro vai ficar marcado como sendo a data que o futuro Governador capixaba conheceu de perto o coração do Mepes(pessoas que dedicam de corpo e alma à educação rural).
É como estava escrito no quadro:
Encontrar-se para conhecer-se.
Conhecer-se para caminha juntos.
Caminhar juntos para crescer.
Crescer para amar mais.
Uma etapa vencida a 10 de fevereiro.
Finalizando é importante transcrever uma outra inscrição no quadro:
- Agora vale a vida
Agora vale a verdade
E de mãos dadas trabalharemos juntos
Pela vida verdadeira
Para que todos tenham vidas.

Uma etapa a vencer nos próximos quatro anos. Nós queremos ver esta etapa cumprida,porque vamos no futuro, carimbá-la como quitada ou como  um cheque sem fundo.
Texto 2 do livro – MEPES 25 ANOS. CONVERSA FRANCA AMIZADE LONGA. O NOSSO TESTEMUNHO E A NOSSA ESPERANÇA. RONALD MANSUR, ELIANE STAUFFER DE ANDRADE MANSUR, AUGUSTO DE ANDRADE MANSUR, VINÍCIUS DE ANDRADE MANSUR E HELENA DE ANDRADE MANSUR.

quinta-feira, 15 de março de 2012

UMA ESCOLA DIFERENTE - ESCOLA FAMÍLIA AGRÍCOLA



Um esquema diferente de educação vem funcionando no interior do Espírito Santo, desde 1968, é a Escola Família Agrícola, que tem a característica da alternância. Esta situação prevê que o aluno fique 15 dias na escola e um igual número de dias passe na sua casa, desenvolvendo projetos baseados no aprendizado. Enquanto uma turma vai para casa, uma outra chega a escola.
Para o padre |Humberto Pietrogrande, este esquema de ensino tem 11ª promoção do homem do campo, sobretudo, do pequeno e do mais abandonado. A Escola Família Agrícola visa criar condições para este homem no campo, para que ele se insira dentro da sua própria realidade e possa crescer. Vemos que não poderá ser um crescimento isolado, tem de ser com a comunidade e com os seus componentes.”.
Lembra o jesuíta padre Humberto que ‘’quando cheguei ao Espírito Santo, entre 1965 e 1966, o que mais me impressionou foi o fato de quando visitava as comunidades do interior, a juventude. Via que a juventude era um capital imenso.  Era somente olhar para a rapaziada e percebia quanta inteligência, quanta carga humana ali dentro. Nós perguntávamos: o que você vai fazer? A resposta era sempre a mesma: não sei. Era esta pergunta e resposta que nos angustiava. Naquele tempo o interior não tinha nada, ou poucas escolas perdida.
A chegada do padre Humberto foi em Anchieta e ele logo em seguida viajou para Itália,  onde tomou conhecimento da Escola Família Agrícola. Segundo ele, “nós pensávamos que sendo a região do Espírito Santo composta de descendentes de imigrantes, poderíamos ter alguma coisa em comum. Assim conseguimos que sete jovens fossem a Itália para se preparem na Escola Família, neste intervalos nós fomos preparando o terreno para lançarmos a semente’’.
Hoje, 13 anos do início oficial do Mepes, 11 escolas se espalham nos seguintes municípios de Anchieta, Alfredo Chaves, Piuma, Rio Novo do Sul, Iconha, São Mateus, Rio Bananal, São Gabriel da Palha e Barra de São Francisco, em implantação.
Nos  municípios as escolas de primeiro grau e as creches funcionam com apoio das comunidades. Em Anchieta funciona um esquema de segundo grau, capacitação de técnicos em ensino médio. É nesse esquema que o padre fala “nós estamos formando não estudantes, mas agricultores engajados com a sua realidade e com a realidade de sua comunidade. Nós acreditamos que é o homem que tem de ficar no centro e tem de ser o artífice de qualquer progresso e desenvolvimento. Mas não o homem sozinho, mas o homem inserido na sua comunidade, o homem que faz crescer a sua comunidade e está o faz crescer também. Cremos que o homem não se realiza fugindo e deixando o campo sozinho.”
ALTERNÂNCIA
De acordo com os  documentos do Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (MEPES) a alternância permite ao jovem viver num internato e numa comunidade, para discussões e depois colocar em prática os ensinamentos e a reflexão. Diz que ‘’a Escola se preocupa em dar meios para solucionar os problemas e não solucionar ela mesma, os problemas dos jovens e de suas famílias.”
As Escolas procuram sempre realizar um currículo funcional visando a realidade local. Diz ainda o relatório que ‘’os currículos foram realizados sempre tendo presente que o processo da descoberta, de soluções de problemas, a partir da própria experiência e das aquisições congnitivas é de fato o ápice da aprendizagem  que não se confunde com o acúmulo de informações memorizadas. Por isso o currículo prevê muitas atividades práticas.
No primeiro ano do segundo grau os alunos começam estudando a origem da família e entram no mundo do meio rural, envolvendo desde a horta, até todo o esquema de tradições e costumes, passando pela cultura da região.
Já no segundo ano o esquema cresce e as aulas começam a envolver assuntos como comercialização, sindicalismo, crédito rural, êxodo rural e questões relacionadas com meio ambiente. Nesta fase ainda se continua o estudo das culturas.
No terceiro ano o assunto já cresce  mais, porque falam em distribuição de terras e estrutura fundiária, bem como sindicalismo, culturas e criações.
Como o jovem volta a sua casa quinzenalmente, ele pode dialogar com a família, passando assim para os seus, o que aprendeu. Também a reação da família serve de aprendizado. O importante é que a escola forme o jovem para permanecer no meio rural, mas também o capacita para trabalhar em muitas empresas.
Existe um sistema de serões noturnos com a duração de até duas horas, onde está inserida a proposta das atividades formativas. Os assuntos variam de escola e de turma, e basicamente envolvem:
- assuntos sociais;
-conhecimentos do Mepes;
- assuntos religiosos;
- realidade brasileira e internacional;
- relações humanas – vida em grupo e vida em família;
- saúde, higiene e sexo;
- debates sobre noticiários;
- teatro;
- avaliação de atividades realizadas; e,
- encontros com líderes das comunidades
A escola de segundo grau possui alunos de diversos Estados, como Bahia, Maranhão e Amazonas. Os alunos de outros Estados se comprometem a prestar serviços nas suas comunidades e prosseguirem o sistema. Por isto é que já existem escolas na Bahia e Paraná e grande possibilidade de surgirem novos grupamentos no Maranhão, Pará e Amazonas. Os alunos de outros Estados quando tem de sair da escola, para obedecer a alternância, passam a viver nestes quinze dias em propriedades capixabas. Para João Martins, presidente do Conselho da escola de Rio Novo do Sul ‘’o surgimento da Escola Família foi fundamental para nós, porque é difícil para um pai do meio rural colocar um filho na escola. Ainda existe o fato de que a escola do meio urbano não satisfaz o meio rural. Acho que o meio rural não vai se desenvolver nunca se não lhe derem a educação própria. Veja que o exemplo é tão bom que ele se espalhou por todos os lados, ele é um exemplo ligado à realidade rural”.
A Escola Família conta com grande apoio da cúpula do Espírito Santo, o bispo de São Mateus, D. Aldo Gerna, em carta enviada ao Padre Humberto Pietrogrande, afirma que:
- é um belo documento, é mais uma escola que merece todo apoio e, fazemos votos, aqueles que pensam na educação formação de jovens, de maneira mais humana e mais promissora para os nossos muitos sofridos homens do campo.
Dentro do esquema de preparar o jovem para continuar no meio rural, o Mepes desenvolve também através dos estudantes e sua famílias, atividades que vão envolver a comercialização e a produção. É fato normal no meio rural sempre sobrar alguma mercadoria para o comércio, situação que o produtor sempre utiliza para comprar os produtos que não produz e não tem condições de fazê-lo. A organização de feiras de produtores na sede dos municípios também é um fato que eles desenvolvem. Nas feiras, o intermediário é eliminado, o produtor recebe mais e o consumidor paga menos.
Existe ainda o fato de que em recente movimentação dos produtores de banana, a presença de alunos do Mepes e de seus pais foi fundamental. Agora os produtores estão organizados em uma associação, que divulga semanalmente os preços do mercado de Vitória e Rio de Janeiro, via as capelas do interior. A associação é o primeiro embrião de uma cooperativa. Os produtores sentiram que não poderiam formar uma cooperativa, porque os intermediários possuem uma estrutura muito sólida que fatalmente os levaria a falência. Vigiar os preços e manter os produtores informados do mercado.
No último relatório do Mepes, diz que “estamos procurando novas picadas nestes dias. Esta é uma hora importante. Há muito o que fazer. O agricultor não tem ainda uma consciência de classe. Há bons agricultores, boas pessoas, mas ainda falta o trabalho unido, de mãos dadas. O agricultor foi muito dividido e há interesse em mantê-lo desunido. Esta classe unida será uma força. ‘’ Fala ainda que “o  nosso agricultor tem de se unir integralmente, desde a oração até a sua atuação. As outras classes sabem se unir e pedir respeito a seus direitos. O agricultor ainda não conseguiu dar este passo. Para isso, muitas vezes, mais vale perder juntos do que ganhar sozinhos, porque de fato esta perda é mínima em relação do que se vai ganhar. A importância da união, através das pequenas atividades comuns, aqui citadas, feira-livre e mutirão de vendas. O saber ariscar juntos, tudo isto é de alto valor na promoção da união do agricultor’’. Outra colocação indica que “não é papel do Mepes tornar-se um partido ou um sindicato, mas ser a consciência críticade tudo isto”.
REVISTA VISÃO, 29-04-81

terça-feira, 13 de março de 2012

MEPES – 25 ANOS CONVERSA FRANCA, AMIZADE LONGA. O NOSSO TESTEMUNHO E A NOSSA ESPERANÇA.


Registrar um pouco da história do Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo é o nosso objetivo com:
MEPES – 25 ANOS
CONVERSA FRANCA, AMIZADE LONGA.
O NOSSO TESTEMUNHO E A NOSSA ESPERANÇA.
Reunir o que documentamos nestes anos e anos de convívio é a nossa contribuição ao Mepes, divididos em três pontos: Cartas ao Povo. Conversa com os de Casa. e Cartas ao Poder.
Como prefácio, a transcrição de uma carta que nos foi enviada em 1985, assinada por Francisco Giusti.
Prezado Amigo,
Ao lembrar as pessoas a quem mandar os votos de Feliz Natal, achei que o Sr. Merecia mais do que o simples cartão.
Há anos o Mansur dirige seu trabalho profissional para o meio rural, numa visão crítica e, até um passado recente, ousada, aproveitando do espaço augusto que a conjuntura permitia.
Foi nesse trabalho que acabou simpatizando, apoiando e estimulando o Mepes, voltado também, com coerência e ousadia, para o meio rural, com um trabalho de educação inovadora. E ao lado do tempo, muitas vezes, em várias circunstancias o “Jornal do Campo” focalizou a ação de nossas escolas.
Pe. Humberto se tornou um interlocutor sagaz e a mútua sinceridade e a sensibilidade para os problemas sociais fortaleceram uma sólida amizade.
Pe. Humberto se afastou: está atualmente no Piauí, lutando com o mesmo entusiasmo e obstinação. Mas o Mepes continua a sua luta aqui: para nós que herdamos a árdua tarefa de levar para frente a obra, será de estímulo e de apoio saber que os amigos continuam nos acompanhando. Estamos numa fase positiva: somos procurados por muitas comunidades que pretendem implantas escolas famílias.
Em 1985 iniciamos uma em Pinheiros; em 1986 iniciaremos uma de segundo grau em Boa Esperança, para responder a solicitação do Norte de ter uma escola deste tipo, sem precisar se deslocar para Olivânia; há em andamento um trabalho de animação e de organização para uma outra em Montanha (já há o terreno de 2 alqueires); Nova Venécia a tempo nos pressiona para implantar lá também.... e, olhe bem, não é nós que procuramos...
Ficamos cautelosos principalmente pela escassez de recursos humanos, que não podemos improvisar e pelo fato que queremos levar para frente um trabalho sério. Claro é que também os custos econômicos-financeiros são grandes e não facilmente se encontram.
Assim sendo, quero dizer-lhe que as portas  continuam abertas, que em nosso escritório central em Anchieta, como também em todas as nossas unidades. Gostamos de amigos que nos visitam, que nos questionam,  que mantêm conosco uma dialética enriquecedora.
Votos de Feliz Natal e Ano Novo, também aos colaboradores e familiares.
Francisco Giusti
Vice presidente do Mepes
Anchieta,05-12-1985

sábado, 25 de fevereiro de 2012

INTERCÂMBIO



Já se vão 43 anos que um grupo de capixabas foi ao Norte da Itália iniciar um processo de intercambio que tem hoje frutos advindos das sementes plantadas pelo Movimento Educacional e Promocional do Espirito Santo (MEPES) e a Associação de Amigos do Estado do Espirito Santo (AES). Foram sete jovens que saíram no ano de 1967 e lá ficaram até o final de 1968 - Ednis Orlandi, João Bortolot, Inacio Pompermayer, Celio Martins, Osmar Longui, Luiz Mill e Dirceu Marchiore. O grupo foi conhecerem o sistema de educação rural que estava dando os primeiros passos no sentido de valorizar a comunidade e a família rural.
Na Itália os brasileiros conheceram o que seria aqui a Escola Família Agrícola(EFA) que na sua base e essência tem a solidariedade entre pessoas e grupos. A maneira de atuar conhecida como Pedagogia da Alternância. Na prática o estudante fica um tempo na escola e igual período na sua família. Este esquema não distancia o estudante da sua família, faz dele a ponte entre a escola e o seu núcleo familiar. Fica claro que a família é o elo central, a escola uma linha auxiliar.
Este primeiro passo no intercambio gerou novas oportunidades para muitas pessoas irem a Itália e também a Argentina, parceira na ação educativa e formativa. O passo dado pelo Mepes e pela Aes serviu de modelo e exemplo para muitas entidades que tinham como fundamento a solidariedade para com os que menos possuíam, os deserdados do sistema.
 Quando o grupo voltou a EFA de Anchieta/Olivania já estava funcionando, em 1968. Depois vieram as EFA’s de Alfredo Chaves, Rio Novo do Sul e Iconha. Do grupo inicial apenas Ednis Orlandi permaneceu até a sua aposentadoria, mas continua dando apoio ao Mepes e a EFA de Alfredo Chaves.
Hoje no Estado são 17 EFA’s ligadas ao Mepes e 10 autônomas. Por este Brasil afora 240 EFA’s, que sempre tiveram o apoio capixaba. Apoiar e assessorar novas EFA´s no Mepes é obrigação e compromisso, um dogma. Todas EFA”s brasileiras tiveram o seu berço o nosso Estado. Centenas de viagens foram feitas por este Brasil afora por mepianos para falar sobre a Pedagogia da Alternância. Centenas de viagens e visitas foram feitas por lideranças rurais e comunitárias de outros estados ao Mepes.
O Agroturismo capixaba nasceu graças ao intercambio com a Italia. Lá a denominação é Agriturismo, aqui nós trocamos o i pelo o. Uma maneira de mostrar que o modelo italiano não foi transportado, mas a sua essência sim. A sua maneira de mostrar que a comunidade rural pode crescer com as suas forças e com a sua capacidade de organização e produção. Agregar valor a produção primaria e repassar a sua mercadoria com um mínimo possível de da intermediação. Uma ligação direta, sempre que possível. A idéia do agroturismo surge em 1988, na Fazenda Agroturistica Mondragon, do casal Roberto Tessari e Tina Sartori, mas é no ano de 1992 que toma corpo em Venda Nova do Imigrante. Depois ganhou outros municípios e o Brasil. Roberto havia sido voluntário italiano no Mepes na década de 70.
O intercambio Brasil Itália reergeu as relações dos descendentes dos imigrantes que começaram a chegar ao Estado no final do século XIX. Milhares de capixabas são beneficiários do intercambio iniciado em 1967, por ação do jesuíta italiano Humberto Pietrogrande.
A ação do Mepes e da Aes sempre foi assentada no respeito à individualidade das pessoas, mas com um forte sentimento coletivo. O principio da liberdade sempre norteou o intercâmbio. Como diz o agricultor filósofo João Martins, lá de Cachoeirinha, Rio Novo do Sul, “a ação do Mepes sempre foi norteada pela liberdade e compromisso social de cada indivíduo”.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

MEPES



A sigla que está acima deste texto que dizer- Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo. Muitos sabem o que o Mepes, mas nem todos. O Mepes trabalha com educação rural, tem um Hospital em Anchieta e também algumas creches.

Em 1993 editei um livro: Mepes 25 anos, conversa franca, amizade longa, o nosso testemunho e a nossa esperança. O livro foi de autoria coletiva e familiar: Ronald Mansur, Eliane Staufferde Andrade Mansur, Augusto de Andrade Mansur, Vinícius de Andrade Mansur e Helena de Andrade Mansur.

Em breve, após postar as histórias do livro No caminho da roça aqui fala quem faz. Jornal do Campo 20 anos e outras história, vou postar os textos do livro do e sobre o Mepes. Me aguardem.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

JUVENTUDE RURAL


JUVENTUDE RURAL
Entre 23 e 26 de agosto, 2011, 400 jovens rurais de 20 Estados estiveram reunidos no Hotel Eco da Floresta em Domingos Martins participando da IV Jornada Nacional do Jovem Rural, debateram o tema: por uma agricultura familiar, profissional e inovadora. Este encontro foi organizado pela Rede Jovem Rural e patrocinado pelo Instituto Souza Cruz.
Além de temas da atualidade social e econômica do Brasil, a Jornada teve visitas nas propriedades do que atuam no Agroturismo, iniciativa que teve origem no Movimento de Educação Promoção Educacional do Espírito Santo (Mepes) gestor das Escolas Família Agrícola e o Hospital de Anchieta. É bom lembrar que o Agroturismo no Brasil teve o seu berço inicial no município de Venda Nova do Imigrante no ano de 1992.
No dia 26 de outubro foi realizada uma Sessão Solene na Assembléia Legislativa, iniciativa do deputado Marcelo Santos, onde foi lida a carta de resoluções da IV Jornada.  Basicamente a carta ficou assentada em quatro pontos: Direito ao desenvolvimento integral, Direito ao território, Direito a diversidade e à vida segura e Direito a participação. Do documento oficial destaco três pontos relevantes para uma discussão mais profunda por toda sociedade brasileira, a saber:
-Reconhecimento de que os elevados índices de analfabetismo nas áreas rurais têm como um dos principais motivos a predominância do ensino tradicional e regular, que são distantes de sua realidade. Fator que incentiva o aumento do êxodo rural. Para melhorar esta situação, é fundamental que a escola esteja próxima da comunidade, enfocando conteúdos diagnosticados pela população local e que valorize o conhecimento empírico da família.
- Fortalecimento das modalidades de ensino técnico, profissional e superior no meio rural com ampliação de acesso e priorizando as tradições familiares em sua unidade produtiva, possibilitando ao jovem a permanência no campo a partir do acesso a novos conhecimentos.
- Garantir assistência técnica permanente para a agricultura familiar, assegurando a formação de jovens para que se tornem sujeitos de desenvolvimento no campo.
A Jornada mostra que a juventude rural não está de braços cruzado e nem mesmo com a cabeça fechada, quando no encerramento da Carta são firmes ao colocar que “a luta por um campo mais justo e produtivo com base numa agricultura profissional e inovadora, que busca contribuir para o desenvolvimento sustentável deste país, permanece para nós jovens rurais brasileiros.” O texto integral da Carta está no site: www.jovemrural.com.br. Confira. ronaldmansur@gmail.com

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

CECOTTI, VISÃO DE FUTURO

Um velho hábito me acompanha há décadas, a curiosidade. Sempre que tenho oportunidade a exerço com plena consciência e intensidade. Foi por causa deste comportamento que pude conhecer e vivenciar um caso interessante de visão e competência comercial.
Em 2005 numa exposição de produtos rurais, em Anchieta, por ocasião de um encontro de Escola FamÍlia Agrícola ligadas ao Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (Mepes), me chamou a atenção uma mesa com dezenas de produtos feitos pelas famílias dos agricultores. Um em especial me atraiu: um pacote de café. Não resisti e fui em busca de sua origem. Tinha o pacote um belo logotipo e o nome do produtor: Cecotti, com endereço, telefone e um cheiro agradável de café de qualidade.
Neste dia constatei uma das maiores ações vindas de um agricultor capixaba. Dois irmãos cafeicultores, Francisco e Vicente resolveram agregar valor no bem maior que possuíam, o trabalho, no caso, apresentado em forma do café. Logo em seguida fui buscar as duas figuras que eram as responsáveis pela ação de marketing normal numa empresa dita moderna, mas uma surpresa quando vindo do meio rural. Encontrei os irmãos Cecotti, descendentes de imigrantes italianos, morando e trabalhando numa propriedade como muitas outras, explorada no sistema de economia familiar.
Torrar café e vende-lo é uma situação onde o produtor quer agregar valor na sua produção primária. Uma ação normal e justa de qualquer indivíduo que deseja ter um ganho sobre o produto que ele tira da terra. Os irmãos Cecotti foram um pouco mais adiante no torrar e vender café. Fizeram um a ação inovadora, vinda do meio rural, normalmente descapitalizado e sofrendo nas mãos de intermediários, mas trabalhando e lutando diariamente para sobreviver. Ir um pouco mais adiante.
Ao torrarem, moerem café e vende-lo fizeram igual ao que muitos cafeicultores capixabas já haviam feito. Até aqui nada de diferente. Mas eles investiram um bom capital na aquisição de três máquinas para fazer café expresso, que foram locadas em bares e lanchonetes de Castelo. O gasto representou despesa extra que na época equivalia a dezenas de sacas de café. Hoje já são oito máquinas. Um investimento de quem acredita no futuro e no que está fazendo.
No início do empreendimento o mínimo que se podia imaginar é que eles estavam num projeto utópico e sem a menor possibilidade de sucesso. Aliás, um fracasso com tempo certo para acontecer. Me lembro que o Jornal do Campo fez uma reportagem para falar sobre a iniciativa dos Cecotti, o Francisco falou sobre o custo de cada máquina e que ela teria de trabalhar para fazer retornar o dinheiro nelas investido. Mas lembrou que a máquina iria fazer com que o produto deles ficasse conhecido e renderia um bom retorno.
Outra ação dos irmãos Cecotti é o de estar sempre presente em eventos no município. Como Castelo tem a Festa de Corpus Christh, que atrai milhares de turistas, lá sempre estão distribuindo café de graça, mas na expectativa de ir passando os seus pacotes aos interessados em levar prá casa um produto de qualidade.
O Espírito Santo tem de aplaudir o trabalho de gente como os Cecotti. Aliás, o nosso futuro dependerá do apoio que a Sociedade e o Poder Público derem a este tipo de iniciativa. Isto é uma parte do Espírito Santo real que não me cansarei nunca em buscar, bater palmas, agradecer e divulgar.
ronaldmansur@gmail.com

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

CAMINHO DE TATU


No meio rural o produtor sabe que uma boa colheita tem de somar uma série de fatores e situações. Ter terra boa, preparada e cuidada, para receber semente de qualidade que vá render outras sementes e depois novos plantios e novas colheitas.
Um fato que ilustra esta situação se passou em 1963, em Rio Novo do Sul, sob liderança do padre jesuíta italiano João Confa, que viu a situação precária no meio rural do ponto de vista de produção e de organização, começa a agir em parceria elementos de sua paróquia.
É preciso lembrar que o Brasil vivia em 1963 uma grande movimentação política que resultou no golpe militar de 1964. É nesta época a erradicação dos cafezais no Espírito Santo, que acelerou o êxodo rumo às cidades e para Rondonia e Pará. Hoje podemos olhar o passado e entender o que aconteceu. A desorganização do meio rural capixaba.
O padre Confa percebeu que sem organização e participação da população rural, pouco ou nada eles conquistariam na saúde, estradas e uma vida digna que os incentivasse a permanecer no campo. O produtor rural e filosofo João Martins, lá de Cachoeirinha, Rio Novo do Sul, participou com o Padre Confa, me fez um relato interessante do ambiente da época.
Numa reunião de planejamento surgiu uma  ida a comunidade de Palmeiras na casa do agricultor Betinho. Quando o Padre Confa disse que em determinado ponto eles tomariam a estrada para Palmeiras, foi surpreendido. O agricultor Betinho levantou-se e foi direto:
- O senhor está errado, para chegar até a minha casa não se pega nenhum estrada, lá não temos estrada. Nós temos é um caminho de tatu.
Segundo João Martins, foi um momento que ele guarda na memória: pela primeira vez um produtor falava e se manifestava. Era o sinal de que o trabalho realizado para se ter consciência crítica dava o primeiro fruto, um agricultor falou.
Neste clima nasce a Escola Família Agrícola/EFA, do Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo – MEPES, pela ação de outro jesuíta italiano, Padre Humberto Pietrogrande. A primeira surge em 1968 em Olivânia/Anchieta, depois em 1969 em Rio Novo do Sul e Alfredo Chaves. Um somatório de ações de pessoas com visão social. Agricultores que perceberam que o modelo que estava em curso, jogar as pessoas para o meio urbano não daria bons resultados. Hoje sentimos a realidade ao consultar as estatísticas econômicas e sociais.
 Enquanto um grupo se preparava na Itália, aqui no Estado outro grupo agia pelo interior da região sul do Estado, nos municípios de Iconha, Anchieta e Rio Novo do Sul. Agiam de forma a preparar o terreno para receber a EFA, a nova semente da educação. Eles iam buscar parceiros e que seriam os beneficiários da ação que tinha na sua filosofia a solidariedade e a liberdade.
A EFA nasce no Sul do Estado e segue para o Norte, no rastro da Igreja Católica liderada pelo padre italiano Aldo Luchetta. Hoje são EFAs em São Mateus, Nova Venecia, Boa Esperança, Marilandia, Jaguaré, Rio Bananal, São Gabriel da Palha e Pinheiros. Padre Aldo por problemas políticos em São Mateus foi transferido para a Bahia, levando a idéia e a semente da EFA. Mas este assunto fica para mais adiante.
Uma marca importante é a chegada da EFA na região da colônia Alemã protestante luterana de Domingos Martins e Santa Maria do Jetibá. É o Ecumenismo tão falado, mas que com a EFA teve a sua versão prática e real. São outros caminhos de tatu.  Mas este assunto também fica para outra ocasião. O caminho de tatu do seu Betinho foi e é um marco histórico.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

NECESSIDADE, POSSIBILIDADE E VONTADE

No ano de 1969 a necessidade de ser ter uma educação rural apropriada em Alfredo Chaves fez surgir a Escola Família Agrícola (EFA). Por onde passaram centenas de pessoas. Filhos e filhas dos primeiros alunos e alunas também passaram pela EFA. Certamente que alguns netos e netas dos pioneiros hoje estudam aqui. Do ensino básico dos primeiros anos hoje temos um ensino técnico. Uma evolução natural. Como será o amanhã. A necessidade gerou a EFA.
A possibilidade da EFA surgiu depois que a comunidade teve necessidade de olhar mais longe. O surgimento da escola tem ligação direta com a capacidade de organização e de traçar metas das famílias rurais.
No pátio desta EFA eu vi nascer e dar os primeiros passos a organização dos produtores de banana. Primeiro em forma de associação, depois como uma cooperativa. Lembro bem disto. Foi um passo e uma ação que se perdeu no tempo. Mas a EFA continuou sua trajetória, ajudando e sendo levada pelas famílias. Não é por acaso que daqui de Alfredo Chaves seguiu para a Itália em 1967 o jovem Ednis Orlandi para se preparar e depois vir a ser monitor na EFA. Foi. Voltou.  Até hoje tem íntima ligação com a EFA, doando parte de seu tempo ao movimento que o acolheu no passado.
Foi também aqui em Alfredo Chaves que no ano de 1979 o Movimento de Educação e Promocional do Espírito Santo (Mepes) realizou uma memorável assembléia. Os governantes da época queriam colocar um ponto final na vida do Mepes. Naquele ano a EFA de Rio Novo do Sul por ocasião da festa do município apresentou no desfile, profeticamente, as mazelas que vivemos nos dias de hoje: álcool, êxodo e drogas. O tema central da CNBB - Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil era: saúde para todos.  A EFA representou o tema da CNBB.
Por causa deste desfile o Governador Eurico Rezende chamou o padre Humberto Pietrogrande no Palácio e disse: vocês não são subversivos, vocês são de oposição. Padre Humberto respondeu: mas não estamos à venda. Na assembléia ocorrendo. A pressão política quase sufocou e acabou com o Mepes. Eu disse quase.
Hoje mais um passo: os ex-alunos e alunas tomam a iniciativa de fazer uma ação no sentido de manterem e preservarem uma relação mais presente com a instituição onde tiveram a oportunidade de terem formação educativa em todos sentidos. O ato fortalece a escola. Exemplo que poderá ser seguido por ex-alunos e alunas de outras unidades que compõem o Mepes. Não tenho dúvida que esta ação mostra que a Pedagogia da Alternancia é uma ação concreta no meio rural capixaba.
A Escola Família Agrícola nestes 42 anos sempre teve o objetivo de ser um acessório da família, mas nunca substituí-la. Como diz João Martins, agricultor de Rio Novo do Sul, a Escola Família Agrícola não tem e nunca teve como objetivo fixar o homem e a mulher no meio rural, a proposta é a liberdade de escolha e a formação de pessoas que tenham livre arbítrio, sejam corretas nas suas ações, competentes no se determina fazer, comprometidas com causas justas e solidárias para com os seus irmãos. A necessidade mostrou que havia possibilidade de mudança na realidade há 42 anos. A vontade de mudar gerou a possibilidade. Agora existe a necessidade de fortalecer a EFA de Alfredo Chaves, mas existe a possibilidade de agir neste sentido, desde que exista a vontade de agir hoje, com o conhecimento da história, com os pés no chão e sonhos na cabeça de cada um. Por consequencia teremos um Mepes forte. Necessidade, possibilidade e vontade, vamos novamente unir estas palavras e viver o futuro. Contem comigo para mais um desafio.