Há quase quatro anos a minha rotina
nas manhãs de sábado praticamente não se alterou. Saio de casa e percorro 50
metros na Avenida Hugo Musso até chegar ao cruzamento com a Avenida Champagnat,
depois sigo no sentido do centro de Vila Velha até o vão da Terceira Ponte, já
avisto as barracas da feira orgânica. Uma nova caminhada de outros 50 metros.
Apresso o passo para agradecer aos feirantes pelos alimentos que levarei para
casa. Assim, a rotina do sábado é um encontro marcado, que vai completar quatro
anos no dia 19 de março. Lá encontro amigos e amigas do dia a dia urbano, mas o
mais importante encontro é com produtores.
Um encontro feito também por
centenas de pessoas interessadas em ter uma alimentação normal e produtores em
paz com meio ambiente. Assim tem sido uma relação bem acima da troca de
dinheiro por hortigranjeiros, onde o valor da mercadoria é em termos
nutricionais.
A feira orgânica tem pelo lado do
consumidor um grupo formado por funcionários públicos, aposentados e
profissionais liberais. Uma parte busca produtos saudáveis, outro segmento
deseja produtos mais frescos e um terceiro grupo está na busca de preço. Mas
tem gente que consegue reunir todos os pontos. A feira é uma festa e ponto de
encontro e de bate papo de muita gente. Aliás, como deve ser uma feira de
verdade.
Falar destes quatro anos é fácil.
Difícil foi a chegada deles até hoje. A agricultura orgânica no estado é bem
disseminada graças a ação pastoral da Igreja Evangélica de Confissão Luterana
que além de se preocupar com as coisas do Divino, sempre esteve preocupada com
as coisas aqui da Terra. Foi a igreja que levou os agricultores até ao Centro
de Agricultura Natural Augusto Ruschi, da Prefeitura de Cachoeiro de
Itapemirim, que era dirigido pelo agrônomo Nasser Youssef Nars, na década de
80. Foi lá que a agricultura orgânica deu os primeiros passos.
Os 20 produtores de Santa Maria do
Jetibá, todos descendentes de pomeranos chegam na noite de sexta feira, armam
as suas barracas e dormem debaixo delas até a madrugada do sábado. Os três
produtores de Iconha chegam na manhã do sábado. Uma vida dura e sofrida, como é
a vida do trabalhador do campo.
No início, a falta de apoio do
governo era quase unânime. Raras exceções aconteceram empenho pessoal de
técnicos isolados. Hoje a realidade mudou e seria uma inverdade dizer que os
órgãos governamentais continuam alheios e omissos. Um fato merece registro, é
preciso mais ação além das bancas da feira. É preciso umapoio na
comercialização, porque em termos de produto e qualidade eles são mestres para
qualquer doutor.
Eles merecem a nossa homenagem,
porque trabalham com competência para ter produção e depois vendê-la, e levar o
dinheiro para casa. Mas a memória de Albertino Uhlig, agricultor que lutou para
a agricultura orgânica capixaba chegar ao atual nível merece um registro
especial. Eu o vi defendendo uma causa que há 25 anos parecia utópica e maluca:
produzir sem usar adubo químico e agrotóxico. Se todos fossem como Albertino,
que maravilha viver, já dizia o poeta.
ronaldmansur@gmail.com