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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O QUE DEVO AO LÍBANO?



Se pudesse enumerar tudo que recebi da terra de meu avô paterno, Francisco Marolino Mansur, Chico Turco,teria uma listagem  imensa que este espaço não comportaria. Digo mais, já se vão 80 anos que ele morreu, em Muniz Freire, 1932, e 129 anos que chegou ao Brasil vindo do Líbano, 1883, todos os dias me chegam novas informações e novas energias, que tenho plena certeza, elas vêm da montanha libanesa, da sua aldeia de nascimento, Zgharta/Aalma. Tenho sido mais destinatário do que remetente.

 Ao Líbano, seu povo e sua História, sou um poço imenso e sem fundo de gratidão. Um devedor eterno, que a cada dia vê a coluna do débito crescer, crescer e virar a esquina até desaparecer na linha de um horizonte que não tem fim. É assim que me sinto todos os dias. Um devedor que não tem vergonha para dizer a todos ouvidos de boa vontade: devo e não nego, mas eu não tenho como pagar todo o montante, sou réu confesso.

Uma distancia tão grande em número de anos ainda pode manter acesa a chama da ligação familiar e étnica? Está é uma pergunta óbvia e natural que aparece quando coloco o meu ponto de vista com relação ao Líbano.  Mas é lógico que a medida em termos de tempo é relativa do ponto de vista de cada um. Luto diariamente para não esquecer o passado, com a finalidade de perpetuá-lo em mim e nos que me permitem fazer não uma pregação, mas uma conversa amistosa. Do passado faço um trampolim para o futuro. Do passado não faço um ancoradouro para atracar meu pequeno barco

Um grande incêndio pode começar de uma pequena faísca. Manter a chama acesa para ela ilumine os caminhos para receber os passos é uma rotina. É preciso a cada dia renovar e exercitar a curiosidade, a conversa e ter os ouvidos e os olhos sempre ligados. São fatos passados, mas que não se esgotam nunca. A cada dia é um renovar.

Como a maior caminhada que um homem é capaz de realizar tem sempre como base o primeiro passo e a decisão de fazê-la. Como o mascate, meu avô, Francisco Marolino Mansur e meu pai, Manuel Mansur, que bateram pernas pelo interior do Espírito Santo, com animais de carga e suas malas de novidades em busca de um possível comprador e compradora. Esta jornada é uma lembrança deixada não somente por vovô e papai, mas por milhares de brimos.

Sair em defesa da integridade do Líbano é uma ação que já de há muito deveria ser sido tomada. A colônia muitas vezes foi omissa. Calou-se diante dos confrontos entre irmãos. Calou-se diante da agressão militar externa. Mas não adianta lamentar o que deveria ter feito não foi realizado. Melhor é tomarmos uma atitude. O capital que o Líbano nos concedeu é o lastro que erguemos nossas vidas, bens materiais e espirituais. Chegou o momento de decidir o que podemos fazer pelo Líbano. Ou agimos ou teremos no futuro apenas a lembrança do que foi a terra dos nossos antepassados. O Líbano poderá existir apenas na nossa cabeça e nos livros de História.   

Por tudo que até aqui registrei a respeito do Líbano, seus filhos e filhas imigrantes, constituem o motivo e a emoção que me levará no dia de abril, Líbano, minha alma veio de lá.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

MEU NETO E MINHA NETA


Outro dia fazendo um mergulho no passado notei que convivi pouco com meus avós. Do lado paterno apenas me lembro de minha avó Teresa e uma estória que ela sempre contava. O meu avô libanês eu nem chegue conhecer, Chico Turco morreu 17 anos antes do meu nascimento. Já pelo materno tenho na memória o meu avô Heraclides, que foi professor de muitos em Muniz Freire. Já a vovó Laureta, lembro que ela era pequena e usava roupa de tom escuro. No lado materno a convivência foi maior do que do lado paterno, mas um tempo curto.
Lamento que a falta de uma maior convivência com meus avós deixou uma grande lacuna. Quanto maior a distancia e menor a convivência, maior parece ser a carência. Deve ser por isto que hoje na condição de avó de Rihan, nove anos, e Yasmin, três anos, não perco uma oportunidade de estar com eles. Uns dizem que estou ajudando, mas tem gente que fala ao contrário.
No caminho entre a creche de Yasmin e a minha casa, a gente sempre para na loja do Hortifruti da Praia da Costa, parada é sagrada. Outro dia a minha neta Yasmin, com pouco mais de três anos de idade, pediu para ir ao banheiro. Como bom conhecedor das condições dos banheiros utilizados pelos homens, fui direto ao banheiro feminino. Já na chegada recebi uma indagação direta. “Vovô, menino pode entrar aqui?” Falei que sim e expliquei que o banheiro das meninas era mais limpo do que os dos meninos. Daí para frente foi o ritual normal em qualquer banheiro. Depois de fazer o procedimento higiênico, recebi de volta uma segunda indagação: vovô, porque você jogou o papel higiênico no vazo e deu descarga? Porque não jogou na lixeira? Dei uma explicação meio marota e seguimos prá casa. Um mês após aconteceu um fato que imaginei que havia chegada a hora de empatar a partida. Minha esposa Eliane brincando com Yasmin na sala, pediu que ela fosse até o lavabo para limpar o nariz. Logo em seguida ouvi o barulho da descarga. Imaginei, agora é minha vez, na volta entro em ação. Quando ela chegou fui logo perguntando: porque você deu descarga? Como resposta recebi um convite, “vovô, vem ver”. Seguimos para o lavabo e ela me falou: olha, aqui não tem lixeira.
Com Rihan tenho duas histórias. Nas nossas caminhadas pelas ruas da Praia da Costa, encontramos com um grande número de pombos embaixo do vão da Terceira Ponte. Fiz uma sugestão: vamos correr atrás dos pombos? Para a minha proposta recebi uma lição: vovô, eu já falei para os meus colegas que a gente não deve maltratar os animais.
Na minha casa sempre tivemos apenas um aparelho de TV. Como os interesses são diferentes e diversificados, a opção às vezes causa pequenos conflitos familiares. Mas o horário do noticiário é sagrado. Quem não gosta é o Rihan, que depois de muita discussão cede, mas sem antes reclamar muito. Um dia na sua casa eu cheguei e liguei o televisor e não demorou ele ao meu lado falou baixinho: vovô, aqui em casa quem comanda o controle da televisão sou eu. Eu estava num outro território, onde o dono havia delimitado o seu domínio.
Terminando este texto terei de irei cumprir a missão e o sagrado compromisso que assumi, de forma vitalícia, encontrar com Rihan e Yasmin. Somente quem tem a oportunidade de conviver com neto e/ou neta pode medir e dizer com alegria infinita: vale a pena.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A MINHA FAMÍLIA


     O meu núcleo familiar é igual a qualquer outro. No mapeamento familiar materno, tenho registros que dão mergulho em Portugal e com passagem em Minas Gerais. Aliás, grande parte dos capixabas tem sua origem histórica nas terras mineiras, tudo obra do isolamento do Espírito Santo ter permanecido intocado praticamente até o XVIII. Por obra e a ação de pesquisa de anos da prima Zélia Cassa de Oliveira, que percorreu dezenas de cidades mineiras, em Cartórios, Paróquias e Arquivos Particulares, para nos brindar com o: Os Alves Araujo Ribeiro Soares – homens e mulheres forjados na luta. Agora sei de onde vim e que tipo de gente tenho na origem materna.
    Zelia nos faz viajar numa estrada que começa em Portugal, passa por Minas e em 1866 toma como destino as terras capixabas, quando os descendentes dos Alves de Araujo Ribeiro Soares ‘’tomaram conhecimento de que uma nova fronteira agrícola se abria, desta vez para as bandas da Serra do Caparaó- naquele momento conquistado por um poderoso rei – O CAFÉ.’’
     Na imensidão de informações que Zélia nos passa, abaixo uma transcrição sobre meu bisavô, Lino Ribeiro de Assis.
      -Adolescente ainda, tomando consciência das míseras e degradantes condições de vida dos negros, nas grandes fazendas de café da região, dedicou-se a defesa da causa abolicionista, para desespero do pai Vicente, proprietário de algumas dezenas de escravos. Nessa aventura era coadjuvado pelo primo Manoel Ribeiro de Souza Cassa, menino de porteira na tropa do Velho Cassa.
     -Para alimentar a campanha operacionalizada de porta em porta, nos ranchos – centro de convergência de tropeiros – Manoel recolhia panfletos, jornais e revistas abolicionistas – que passava às mãos de Lino. Nessas ocasiões, o abolicionista pacientemente explicava a absurda existência de pessoas tratadas com “coisas” vendidas como animais. Outras vezes, era na praça ou na porta da sua venda, que, através de discursos inflamados manifestava a sua indignação.
     -Ao ser substituída a mão de obra escrava pela do imigrante, Lino, voltou a sua atenção para a situação do semi escravismo na qual se debatiam os colonos europeus, nas mesmas fazendas, antes escravocratas. Revoltado com tais circunstâncias, Lino dedicava parte do seu tempo criticando os fazendeiros como tratavam os patrícios e Dona Filomena Vicvaqua, por estar esta senhora sempre ao lado do Padre José Evaristo Villa – com quem Lino comprava brigas homéricas.
     -As divergências contra Dona Filomena se acirravam quando nascia mais uma filha na casa do casal Lino e Carlota (dez filhas no total). Protegida pela altura do seu sobrado, Filomena chegava à janela e gritava: você já comprou a enxada para a sua filha? O piano para a minha filha já chegou.
       A briga entre “piano” e ‘enxada, costumava durar semanas, dividindo a comunidade entre “pianistas’’ partidários de Filomena e enxadeiros correligionários de Lino; até que ela ou ele, por algum ouro motivo, corriqueiro ou sério, dava motivo para o recomeço de novas querelas. Num destes ‘’entreveros’’ o padre Vila excomungou Lino e a sua família até a quarta geração.
        Se toda famílias tivessem uma Zélia, certamente teriam mais informações sobre o passado, que é a base do futuro. Em tempo, o livro que tem centenas de informações ainda não está a disposição do público, por isto convoco todos os Alves de Araujo Ribeiro Soares interessados em conhecer um pouco da sua história familiar a entrarem em contato comigo.
ronaldmansur@gmail.com