O socialismo dos produtores como impossibilidade lógica.
Robert Kurz
Robert Kurz
Este texto possuí um arquivo PDF para leitura.
Clique aqui para acessá-lo na íntegra.
Clique aqui para acessá-lo na íntegra.

A ontologia do trabalho
Não é possível socialismo algum nos horizontes da ontologia do trabalho, ou seja, a forma de mercadoria da reprodução social só pode ser superada juntamente com o "trabalho". Porém, isso é impensável tanto para a concepção do socialismo típica do velho movimento operário como para o seu antagonista burguês. Mesmo em Marx essa questão não é ainda completamente resolvida, fica na ambiguidade. Por um lado, ele avança (sobretudo nos escritos de juventude) a necessidade duma superação do "trabalho", mas por outro explicita em muitos trechos uma ontologia deste mesmo "trabalho". Poderia tratar-se, portanto, apenas da superação das formas histórico-sociais sempre diversas que assumiu o "trabalho", e não da sua existência pressuposta como eterna.
Esta contradição explica-se com as condições ainda insuficientes de desenvolvimento do processo capitalista de socialização e cientificização. O conteúdo do socialismo não pode ser "libertar o trabalho", mas única e exclusivamente "libertar do trabalho". Convém esclarecer desde logo que não se trata da forma da actividade humana tout court, ou do "processo de metabolismo com a Natureza", mas sempre e apenas do "trabalho abstracto" encarnado na forma do valor ou da mercadoria, do "dispêndio de força de trabalho humana" como fim em sim mesmo sob as condições materiais estabelecidas pela concorrência dos sujeitos no mercado. Importa explicar melhor tal identidade entre o conceito de trabalho em geral e o trabalho abstracto na forma de mercadoria, identidade esta que torna impossível uma superação da mercadoria e do dinheiro no interior da ontologia do trabalho
a) O "trabalho" como categoria real já inclui o "não-trabalho", ou seja, "esferas" para além do "trabalho" e "âmbitos" sociais separados do processo do trabalho. O "trabalho" que se manifesta separado do "tempo livre", da "política", da "arte", da "cultura" etc., já é sempre trabalho abstracto. Só a relação capitalista como forma desenvolvida do valor produziu na sua pureza esta separação real entre o "trabalho" e os outros momentos do processo de reprodução social. No passado, esta separação existia apenas de maneira embrionária no divórcio entre os "produtores imediatos" e as classes isentas do processo do trabalho que se apropriavam do mais-produto material. Nas sociedades primitivas pré-classistas, pelo contrário, encontra-se ainda a totalidade imediata do processo reprodutivo (1) em que não há nem "trabalho", nem "tempo livre", nem "cultura" etc. como esferas particulares. E esta identidade imediata do processo da vida em todos os seus momentos perpetua-se no interior do processo de reprodução dos produtores imediatos nas formações pré-capitalistas, até ao limiar da industrialização e da divisão capitalista do trabalho.
É claro que a separação do "trabalho" do resto do processo da vida não pode ser suprimida voltando-se para trás, como queria em última instância a crítica moderna das forças produtivas, inspirada na filosofia da vida. A unidade entre trabalho produtivo, práxis da vida e cultura, da maneira como se expressava por exemplo nos cantos de trabalho dos navegadores do Volga, dificilmente poderia ser recomendada para solucionar as contradições da socialização abstracta no seu nível actual. Qualquer "reconstrução" pseudo-concreta e pseudo-imediata dessa unidade tem de acabar na idealização reaccionária duma pobreza de necessidades e dum estado de sofrimento que o nível de civilização hoje alcançado torna efectivamente inimaginável.
Na unidade total da práxis da vida que "ainda" existia nas sociedades pré-capitalistas, o "trabalho" não é ainda abstracto como esfera separada pelo simples facto de ocupar, como processo de metabolismo em boa parte imediato com a natureza, quase todo o espaço activo da vida. Os momentos culturais ou "políticos" são meros apêndices dum processo de reprodução imediato que tudo abrange, não no sentido "funcionalista", mas como parte duma unidade tosca, indiferenciada e não mediada, que se pode dizer "orgânica" apenas se quisermos ressaltar o quanto ainda se apega à natureza. O carácter concreto do trabalho pré-capitalista consiste precisamente no trabalho como totalidade que abarca a práxis unitária da vida. Onde o trabalho é ainda total nesse sentido, seu conceito ainda não pode ser formulado por falta de diferenciação, e só como trabalho total que abarca e preenche toda práxis da vida ele pode ainda ser não abstracto, no sentido de não ser uma esfera separada do dispêndio da força de trabalho.
O desprezo do trabalho por parte das "classes dominantes" pré-capitalistas representou por isso também um enorme progresso, pois só a isenção de uma minoria em relação ao trabalho total no processo de vida que tudo abrange pode criar uma distância para com a natureza e preparar um grau superior no metabolismo (uma correlação que escapa naturalmente à consciência dos implicados). O ócio dos antigos "dominantes" (ainda submetidos na práxis da vida a fetiches naturais como por exemplo o parentesco de sangue) era afinal de contas muito mais "produtivo" que todo o "honesto trabalho produtivo" da história universal. A ciência nasceu na antiguidade, e não do "trabalho", mas do "ócio", do distânciamento da crua unidade do processo da vida.
Pode-se compreender assim que a emancipação da humanidade teria de passar pelo trabalho abstracto e que a separação do trabalho da totalidade do processo da vida foi necessária para poder reconstruir a sua unidade num plano superior de riqueza de necessidades. De facto, por mais paradoxal que possa parecer à primeira vista, só a separação entre o "trabalho" e a unidade originária do processo da vida como um todo, considerada "boa" e "desejável", criou um "ócio" limitado também para a massa dos "produtores imediatos". Só o trabalho abstracto produziu um tempo efectivamente livre, ou seja, um tempo disponível para as massas.
A referência, muitas vezes repetida pelos críticos do desenvolvimento, ao suposto "tempo livre" dos produtores imediatos pré-capitalistas acaba por confundir a simples suspensão da praxis da vida ou o "tempo vazio" dentro de um processo reprodutivo elementar e pobre de necessidades com o tempo "livre" activo da própria praxis da vida, que só pode surgir a partir da distância em relação ao processo de metabolismo imediato com a natureza. Só o trabalho abstracto, que fez da reprodução imediata uma esfera separada, pôde generalizar gradualmente esta distância. O navegador do Volga, no seu tempo livre ou vazio, podia na melhor das hipóteses repisar sua obtusa cantilena do trabalho, ao passo que à "mascara de carácter" do trabalho abstracto se abre cada vez mais todo um universo de possibilidades no tempo livre à sua disposição, embora naturalmente o acesso a este universo permaneça deformado pela indiferença abstracta própria do mundo das mercadorias.
Não se trata portanto de "reconstruir" para trás a unidade do processo da vida, por meio da dissolução do trabalho abstracto, mas, pelo contrário, de conceber o trabalho abstracto como uma escada para um estágio superior da práxis da vida, escada esta hoje dispensável porque inútil. Não se trata portanto de anular a capacidade conquistada de distanciamento da natureza, mas antes de libertá-la das miseráveis muletas do trabalho abstracto. A superação do trabalho abstracto não é possível, portanto, com base no trabalho produtivo, mas com base no "ócio produtivo". Só deste ponto de vista se torna claro o discurso de Marx sobre o "desenvolvimento das forças produtivas" como pressuposto para uma revolução socialista que o capitalismo cria inconscientemente.
Esta lógica de superação do trabalho abstracto é incompatível com o conceito de socialismo do velho movimento operário. Este último só podia imaginar a extensão do "tempo livre" com base no "trabalho". O "trabalho" aparecia como aquilo que é autêntico, o tempo livre como o que é derivado, inautêntico. Na luta para reduzir a "jornada normal de trabalho", conquistou-se e estendeu-se de facto o tempo livre disponível para as massas, mas com ênfase na abstracta "jornada de trabalho normal" como centro indiscutível da praxis da vida e como sentido da vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário