O patrimônio arqueológico de Mato Grosso do Sul, ainda pouco conhecido, é tema de artigo da CH de outubro. O estudo das manifestações gráficas pré-históricas da região pode ajudar a entender o modo de vida dos primeiros habitantes das terras do Centro-oeste.
Rodrigo Luiz Simas de Aguiar
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Painéis com pinturas policrômicas encontrados em Alcinópolis
A diversidade ecológica de Mato Grosso do Sul é amplamente reconhecida. Em seu território, com cerca de 357 mil km2, se entrelaçam três biomas: o Pantanal, o cerrado e ocorrências de bolsões de mata atlântica. Essa multiplicidade de ambientes resulta em imensa variedade biológica. Tais atributos contribuíram para a formação de assentamentos humanos naquela região, em um passado distante, estudado hoje pela arqueologia. Essa outra face desse estado pantaneiro é ainda bem desconhecida da população brasileira.
O Centro-oeste do país passou a ser habitado por grupos de caçadores e coletores entre 12 mil e 10 mil anos atrás. Naquele tempo, o clima da região era um pouco diferente do atual. Após a última glaciação, com temperaturas mais baixas, teve início o Holoceno, período marcado pela estabilização climática.
O Centro-oeste do país passou a ser habitado por grupos de caçadores e coletores entre 12 mil e 10 mil anos atrás
Entre 8 mil e 6 mil anos atrás começa um período de estabilização climática, até chegar às características de clima atuais. Foi a partir desse período, denominado ‘ótimo climático’, que se intensificou a ocupação humana.

- Animais em grande dimensão em um painel que representa uma possível caçada, no distrito de Taboco, no município de Corguinho
Expressão simbólica
Os grupos humanos de caçadores e coletores que transitavam pelos espaços de transição entre as serras e a planície pantaneira encontravam por ali variadas opções de alimentação. Rios piscosos eram explorados em paralelo com a farta caça e a coleta dos muitos frutos existentes na área. Essa abundância alimentar possibilitava uma ocupação territorial por longos períodos de tempo.
A paisagem regional é formada por áreas elevadas e planas (mesetas) e serras em torno da planície alagável do Pantanal. Os muitos córregos, riachos e nascentes que brotam e correm entre os maciços rochosos supriam as necessidades de água potável dos primeiros habitantes humanos. As migrações entre montes e platôs, na exploração e ocupação do espaço, eram registradas em diferentes locais por meio de pinturas e gravuras nas rochas. Os diferentes grupos humanos que habitaram essas terras deixaram suas ideias, em forma de arte, nas paredes dos abrigos e cavernas, em uma grande profusão de técnicas e estilos.
Os diferentes grupos humanos que habitaram essas terras deixaram suas ideias, em forma de arte, nas paredes dos abrigos e cavernas, em uma grande profusão de técnicas e estilos
O primeiro passo no estudo da arte rupestre é o registro sistemático dos sítios arqueológicos dessa natureza, estabelecendo a análise e ordenamento dos elementos representados por categorias. Esse ordenamento leva em consideração variáveis como estilo, técnica de elaboração e de representação. Por fim, os elementos identificados são dispostos em tabelas de tipos com base na similaridade dos motivos. A repetição ordenada de motivos dá ao pesquisador pistas para identificar as regras que compunham os códigos usados pelos autores.
A arte rupestre do Mato Grosso do Sul ainda necessita ser inventariada. Os estudos até agora desenvolvidos são pontuais e fragmentários, em geral realizados para complementar outros estudos, cujo foco não era a arte rupestre. Para modificar esse quadro e ampliar o conhecimento a respeito da arte rupestre do estado, uma pesquisa vem sendo desenvolvida há mais de um ano pela Universidade Federal da Grande Dourados. Uma equipe de pesquisadores está levantando os sítios de arte rupestre que ocorrem nas áreas de transição entre as terras altas das serras e a planície pantaneira.
Rodrigo Luiz Simas de Aguiar
Programa de Pós-graduação em Antropologia
Universidade Federal da Grande Dourados, MS
Programa de Pós-graduação em Antropologia
Universidade Federal da Grande Dourados, MS
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