sexta-feira, 13 de julho de 2012

Folia de Reis, mambembe e comovente


  12/07/2012

Folia de Reis em São José do Barreiro, Serra da Canastra, Minas Gerais, Brasil
Num ensaio fotográfico, as cores de uma festa popular brasileira na Serra da Canastra, onde Minas assume seu lado rural
Por Márcio Ramos, editor de Habitar o Mundo
Certa vez fui à Serra da Canastra na cidade de São José do Barreiro. Acordava cedo para fotografar e logo conheci em pouco tempo a população local. A cidade na época possuía meia dúzia de ruas de terra batida aonde a hospitalidade e o queijo de minas era tudo o que eu queria.
Folia de Reis nas comunidades do município de São José do Barreiro.
Aproveitando a hospitalidade para afinar os instrumentos e bater um papo.
Moradora com o estandarte da Folia de Reis.
O palhaço da Folia de Reis.
Conversa vai conversa vem me convidaram para participar da Folia de Reis quando perceberam que a minha fissura era a fotografia. Assim no terceiro dia de viagem, logo após o início do ano acompanhei a Folia de Reis pelas pequenas propriedades vizinhas da cidade. A Folia era composta de quatro violeiros, um sanfoneiro, dois palhaços, o motorista da caminhonete, o percursionista com a zabumba, mais duas pessoas que carregavam o estandarte com a imagem do menino Jesus, a santa virgem Maria e São José, o carpinteiro. De carro íamos até a porteira das propriedades rurais. Assim que descíamos do carro e em fila a ladainha começava, o estandarte á frente, os músicos atrás, os palhaços dançando e eu procurando o melhor ângulo para fotografar sem atrapalhar a festa.
As crianças acompanham os adultos e participam ativamente da Folia de Reis.
Grupo de Folia de Reis e a Serra da Canastra ao fundo.
A Serra da Canastra vista de dentro da Igreja local.
Caminhávamos até a porta das casas e éramos recebidos pelos proprietários. Neste momento havia uma cantoria de chegada e os devidos cumprimentos. Logo após entravamos na sala que era o primeiro cômodo das pequenas casas e todos desfiavam uma ladainha como uma prece em frente ao pequeno altar quase sempre com um quadro com uma imagem religiosa na parede. Nas propriedades mais humildes cantávamos e aceitávamos um café, uma água e nas propriedades mais abastadas comíamos a vontade. Naquela primeira semana de janeiro almocei finas iguarias, cada dia em uma casa, foi fantástico. Fartura aqui penúria ali, mas a comunidade se ajudava. Logo após a acolhedora receptividade saíamos em fila conversando para a próxima parada e isso só terminava a noite. A folia passava nas casas e pedia uma prenda para os proprietários que cediam conforme sua condição econômica – uma galinha, um móvel, um boi – para no dia seis de janeiro ser dividido com as pessoas mais pobres da comunidade após a missa católica na simpática Igreja local.

> Edições anteriores da coluna:
Abandono: ensaio poético-fotográficoFotógrafo envolvido na luta pela reforma urbana retrata sem-teto paulistanos e descobre identidades entre eles e poeta Manoel de Barros
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