Sobre a reformulação da emancipação social após o fim do "marxismo"
Robert Kurz
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1. O politicismo e a questão da forma embrionária emancipatória
A miséria de uma crítica radical do sistema produtor de mercadorias, isto é, de um "modo de produção baseado no valor" (Marx), parece estar no fato de ela ser incapaz de representar uma práxis histórica (não confundir com um oficiozinho praticista qualquer), de tomar uma iniciativa, de encontrar uma saída e de declarar-se à consciência comum e das massas, permanecendo, por isso, condenada a uma existência esotérica, domiciliada nos campos socialmente remotos da reflexão puramente teórica ou até mesmo da especulação filosófica, e esvaindo-se, por fim, numa curiosa existência sectária. Se e como é possível uma sociabilização emancipatória sem as formas fetichistas da mercadoria e do dinheiro - isso continua um livro fechado a sete chaves.
Disso não é isento de culpa o marxismo minoritário, que, até agora, "de alguma maneira", compreendeu a si mesmo como crítico do valor ou deixou soar de forma mais ou menos vaga essa crítica do valor. De fato, esse tipo de crítica marxista ao "fetichismo da mercadoria", que remonta ao jovem Lukács de História e consciência de classes, à Teoria Crítica de Adorno e Horkheimer ou também, em parte, aos situacionistas franceses em torno de Guy Debord, ou recusou, de modo consciente, um aguçamento e uma concretização da crítica do fetichismo na economia política moderna, ou, antes, deixou entrever, em seu rumo prático, traços existencialistas - isso quando não infletiu (como Lukács) para uma envergonhada apologia do sistema produtor de mercadorias do socialismo real. O novo comunismo de esquerda, por sua vez, com seus ingredientes em parte maoistas, em parte oriundos do "operaísmo" italiano, jamais ultrapassou, na melhor das hipóteses, uma crítica platônica das "relações dinheiro-mercadoria", despido que era de uma crítica fundada em termos filosóficos e antieconômicos, e permaneceu preso a noções bastantes toscas, reduzidas, na prática, a um mascaramento hedonista da antiga ideologia do movimento operário.
Estas correntes periféricas do marxismo hoje histórico, que chegaram mesmo a dominar e a amalgamar-se de forma cambiante no período de reformulação da Nova Esquerda, têm uma coisa em comum (como já foi discutido inúmeras vezes na Krisis): elas se recusam peremptoriamente a reconhecer a fórmula lógica negatio est determinatio, ou seja, elas calam, como um túmulo, sobre a superação concreta da determinação fetichista - e imposta pelo valor - da forma de reprodução capitalista. Tal ignorância, que é sobretudo teórica, alimenta-se do fato de a questão da superaçãoser dissociada, de um lado, numa simples negação ("por meio desta, declaramos e subscrevemos que somos contra o capitalismo-imperialismo e queremos derrubá-lo") e, de outro, numa práxis pragmática da "sociedade liberta" absolutamente vazia de conteúdo, a ser posta em curso somente após o capitalismo (depois da "queda" do poder capitalista).
Quando a questão do poder estivesse superada, então poder-se-ia facilmente e, por assim dizer, segundo o modelo da frase de anúncio ("e, então, tudo funciona por si") regular, em beneficio de todos, as forças produtivas desencadeadas pelo capitalismo. Ambos os fósseis do radicalismo de esquerda e do ex-fundamentalismo verde na Alemanha Ocidental, Rainer Trampert e Thomas Ebermarm, podem até, nas cerimônias, empenhar-se inutilmente em redigir o programa para tanto no espaço de quinze minutos, mas este não é exatamente o problema em face do capitalismo que reina sem oposição.
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