domingo, 24 de março de 2013

O Chipre e a bagunça financeira


O Chipre e a bagunça financeira

A população do Chipre pode evitar que pague ela mesma a conta da bagunça financeira, se o ônus de eventuais perdas for colocado diretamente sobre aqueles que usaram o país como um paraíso fiscal e de lavagem de capitais, ou mesmo como um centro de investimento. Eles assumiram o risco e devem pagar. Por Michael Roberts, do blog The Next Recession

Eu pensei que o parlamento cipriota tinha sido intimidado e chantageado pelos líderes da UE, do BCE e do FMI – e o presidente de direita Nicos Anastasiades e seu ministro das Finanças – para aceitar a imposição de depósitos bancários, como parte do plano de resgate. 

Mas a ameaça do BCE de que iria retirar fundos de bancos cipriotas foi combatida por uma população irada, e tal era a fúria que até os deputados do governo não votaram o pacote e acabaram se abstendo. Como um manifestante colocou: era uma verdadeira covardia – eles não podiam votar a favor do projeto do presidente queria, mas eles também não podiam votar contra ele!

E agora? Bem, quando os bancos do Chipre reabrirem (e que não deve ocorrer até a próxima terça!), haverá uma corrida para obter dinheiro nos caixas. As autoridades estão preparando medidas de controle de capitais para conter isso. Mas, mesmo assim, os depósitos bancários (que já estavam caindo antes desta crise) vão dar um mergulho ainda maior. Ironicamente, isso faz com que o custo de recapitalização seja ainda maior do que a estimativa inicial de 6-7 bilhões de euros – e está se dirigindo a 10 bilhões, justamente o valor estimado pela empresa dos EUA Pimco ainda em janeiro.

Na verdade, o governo provavelmente tem até junho, antes de o dinheiro acabar, quando terá de pagar títulos oficiais que emitiu, a não ser, é claro, que o BCE retire o seu financiamento de emergência para os bancos, como tem ameaçado fazer. Mas, na verdade, o BCE só pode parar de suprir o banco central de Chipre com os empréstimos de emergência se houver uma maioria de dois terços no conselho do BCE, e há dúvida sobre isso.

Enquanto isso, o ministro das Finanças cipriota está na Rússia tentando negociar um acordo com Putin por mais dinheiro, além dos 2,5 bilhões de euros acertados no verão passado. Mais dinheiro só viria se ele fosse garantido por receitas futuras provenientes das reservas de gás que o Chipre tem em sua costa. Assim, a prosperidade futura de Chipre seria entregue aos russos, enquanto todos os depósitos em bancos da máfia russa no Chipre seriam garantidos.

É questão espinhosa. Deveriam os contribuintes da UE salvar os bancos cipriotas que se promoveram como paraísos fiscais e lavanderias de dinheiro para os oligarcas russos e os "roundtripping' de fundos ilícitos? Aparentemente, tanto Anastasiades quanto o chefe do Conselho Econômico Nacional, o vencedor do Prêmio Nobel Christopher Pissarides, um economista neoclássico, acham que sim. Eles querem preservar o sistema bancário atual cipriota como um paraíso fiscal. 

Como Pissarides colocou: "Chipre é dependente deles (fundos offshore), assim como Luxemburgo, Ilhas do Canal, Hong Kong e Cingapura. Toda nação madura pequena tem um grande sistema financeiro. Malta está construindo sua própria agora, após a adesão à zona euro. E está se beneficiando dos problemas do Chipre. Serviços financeiros é o que os cipriotas são treinados para fazer". Ele deixa de mencionar que o Chipre tem apenas um imposto sobre as corporações de 10%, o mais baixo da OCDE (ainda menor do que a Irlanda), concebido para atrair fundos de sonegação.

Chipre ainda tem tempo para resolver isso. Os chipriotas têm se manifestado. Eles não querem um 'bailout' que os faça pagar pelos fracassos de suas elites bancárias e dos políticos que estiveram no comando. Os cipriotas podem evitar isso, se o ônus de eventuais perdas for colocado de forma justa e diretamente sobre aqueles que usaram o Chipre como um paraíso fiscal e de lavagem de capitais, ou como um centro de investimento. Eles assumiram o risco e devem pagar. 

O sistema bancário deve ser reestruturado democraticamente; o sistema público deve prestar serviço aos cipriotas, não aos sonegadores. Os líderes da UE devem ajudar o Chipre, com financiamento para garantir isso. O mais provável, no entanto, é que o Chipre fazerá um acordo com a Rússia e com a UE para sustentar seu sistema distorcido em detrimento dos cipriotas. Vamos ver.

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