segunda, 11 de março de 2013 • 01:03
Todo mundo, se não leu, pelo menos, já ouviu falar daquele incrível livro árabe que conta a história das Mil e Uma Noites, certo? Mas, poucos sabem realmente do que se trata, e que a protagonista é...uma mulher. Estou falando de Xerazade, a célebre contadora de histórias que, noite após noite, consegue adiar sua própria morte, simplesmente contando histórias para o sultão de um certo país oriental. Revoltado com a traição da própria esposa, o sultão resolve matar todas as donzelas de seu reino, após deitar-se com elas. Quando chega a vez de Xerazade a coisa se inverte e a história toda começa a se desenrolar a partir daí.
Mas como assim??? Pergunta você admiradíssimo: Uma mulher, a protagonista de um livro árabe, escrito e publicado há tantos anos? Logo nesses países onde as mulheres são submissas aos homens, e obrigadas a usarem o véu ou a burca? Pois é, assim como na ficção, a realidade também só pode ser presumida. E como tal, criada, recriada, inventada da forma que nós queremos. Resumo da ópera: somos narradores da história de nossas vidas. Essa é a grande lição do livro. Podemos sim, sempre que quiser, virar o jogo, apesar de tudo e de todos.
Xerazade, contando histórias e mais histórias que nunca acabam para o poderoso sultão Chahriar, ao mesmo tempo em que incita a curiosidade de seu algoz, vai tecendo o seu próprio destino, fio a fio, até conseguir comovê-lo, interrompendo assim este ciclo de mortes, e por tabela, o destino de todas as mulheres do reino. A ‘arma’ mais poderosa que ela usa para atingir objetivo tão nobre é a sua palavra, carregada de imaginação e pontilhada de emoção.
Podemos tirar deduções da bela e antiquíssima história de Xerazade? Sim, várias. O espaço aqui é pequeno para tantas. Mas, podemos destacar algumas e a primeira e mais simples delas é a de que somos o que narramos para nós mesmos. A narrativa faz parte da história humana desde que aprendemos que, com o falar (e depois, com o escrever) poderíamos ser co-autores de nossas próprias vidas. A ficção se entrelaçando com a realidade e vice versa. Nesse caso, a palavra tem a mesma força de uma espada, nunca duvide disso. Principalmente quando a narradora é...uma mulher.
Segundo, que os árabes, por costume e/ou tradição, sempre enxergaram nos múltiplos de dez a perfeição das coisas, a plenitude da vida, aquilo que não pode ser mudado. Partindo desse mesmo princípio, a inclusão de uma unidade a mais em números como cem ou mil significava para eles, a infinitude da vida. Então, eis que aparece o mais árabe dos livros árabes subvertendo esta ordem com um número a mais. Em vez de Mil Noites, agora são Mil e Uma Noites, numa alusão a infinitude humana, tal e qual as histórias de Xerazade que se multiplicam noite após noite como se não tivessem um fim.
Terceira dedução (essa é pessoal): se, um belo dia, você leitor amigo, desconfiar que está diante de uma mulher que pode mudar a realidade ao seu redor ou a sua própria vida usando o poder da palavra - falada ou escrita - não faça com o sultão Chahriar, que resistiu durante mil e uma noites para se convencer de que isto sempre é possível. Simplesmente deleite-se aos prazeres de sua Xerazade e a escute com todo cuidado e atenção. Pois a palavra dela pode mudar não só o seu coração, mas todo um mundo ao seu redor.
É por isso que nós, mulheres, somos naturalmente mais propensas à arte de falar. Entendeu agora o mistério?
A propósito, sobre as mulheres orientais serem submissas e obrigadas a usarem a burca ou o véu, o que existe é um discurso político e midiático muito bem elaborado por um grupo hegemônico cujo objetivo é desenvolver a ideia de um Ocidente civilizado versus um Oriente atrasado e retrógrado. Tudo passa pela perpetuação e alusão a uma sutil superioridade desse mesmo poder político. Nada a ver com religião ou imposição de costumes. Usar o véu não é uma obrigação e não está em nenhum livro do Islã. Existem as exceções, claro! A este respeito, há um livro muito curioso escrito por uma mulher chamada Nawal Saadawi (A face Oculta de Eva- as mulheres do mundo árabe) para quem quiser se aprofundar mais no assunto.
PS- Este artigo é uma forma de homenagear as mulheres de minha família (avós principalmente) que sempre ensinaram o sagrado direito de expressar suas (e nossas) opiniões. E também aos homens, que sempre exerceram o sagrado direito de nos escutar. Com sabedoria e atenção.
PS- Alguns leitores estão reclamando do tamanho da fonte que estou usando, dificultando a sua leitura. Pelo sistema do gerenciador não posso aumentar o tamanho dessa fonte que é padrão do Portal AZ. Mas, vai uma dica: lá acima, bem abaixo do título do artigo, à direita do leitor, há três símbolos (em formato da letra a), que clicando, podem aumentar ou diminuir a fonte. Espero que dê certo.
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