terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Mãos sujas de sangue


Mãos sujas de sangue

O Última Hora não escondia seu apoio a Getúlio, mas não abriu mão de apuro jornalístico, criatividade e respeito aos fatos. Tais opções afrontaram os donos dos instrumentos de construção da opinião pública, que se sentiam no direito de conspirar contra governos legítimos. É assim até hoje.

(...) Podemos ser dirigidos por la prensa
sin advertilo. Y no existe en ningún diario 
la información por la información; se informa
para orientar en determinado sentido a las
distintas clases e capas de la sociedad, y con el 
propósito de que esa orientación llegue a
expresarse en acciones determinadas.
Periodismo y Lucha de Clases, de Camilo Taufic, Akal Ediciones, 1976, pág. 7



Dia 2 de fevereiro de 1951.

Palácio Rio Negro, Petrópolis.

Primeira reunião do ministério de Getúlio Vargas, recém-eleito, na qual seriam anunciadas as diretrizes centrais do novo governo.

Só dois jornalistas presentes: um repórter da Agência Nacional e Samuel Wainer. Iniciava-se, com ferocidade, a conspiração do silêncio da grande imprensa contra Getúlio. O silêncio ensurdecedor foi o primeiro movimento, não o último.

Getúlio certamente percebeu.

Fim da reunião, Wainer é convidado a ficar e jantar com a família.

Terminado o jantar, é chamado por Getúlio à sala de despachos, vasto salão que o presidente usava para conversas reservadas. Falava sempre entre baforadas de charuto e caminhadas de um lado para outro. Iniciou a conversa com rememorações.

– Tu te lembras de uma frase que disseste no dia em que começamos a campanha?

– Não, presidente – respondeu Wainer.
Getúlio puxou-lhe pela memória:

– Era uma frase sobre jornalismo.

Wainer lembrou-se. Voava com o presidente do Rio de Janeiro para o Amazonas e lhe disse:

– Presidente, a imprensa pode não ajudar a ganhar, mas ajuda a perder.

Dissera mais:

– Perceba que sou o único jornalista destacado para cobrir sua campanha. Note que a do brigadeiro Eduardo Gomes mobiliza pequenas multidões de repórteres e fotógrafos. Toda a grande imprensa está contra sua candidatura.

– Não preciso da grande imprensa para ganhar – retrucou Getúlio na conversa a bordo do avião.

O presidente pensava em Franklin Roosevelt, que nunca tivera apoio dos jornais americanos e sempre vencera as eleições. Pensou e disse.

Wainer ponderou:

– Presidente, ao contrário do que ocorre em países como os Estados Unidos, no Brasil a imprensa tem um fortíssimo poder de manipulação sobre a opinião pública. Não é fácil enfrentá-la.

E completou com a frase que o presidente pretendia que ele lembrasse:

– A imprensa pode não ajudar a ganhar, mas ajuda a perder.

Getúlio, entre as baforadas de charuto e as passadas pelo salão, perguntou:

– Tu reparaste que hoje não veio ninguém cobrir a reunião?

– Claro que reparei. Hoje foi desencadeada a conspiração do silêncio.

E Wainer acrescentou, ainda:

– O senhor só vai aparecer nos jornais quando houver algo negativo a noticiar. Essa é uma tática normal da oposição, e a mais devastadora.

O presidente não parava de caminhar, e fumava seu charuto, e queria dizer alguma coisa conclusiva, e disse:

– Por que tu não fazes um jornal?

Wainer, perplexo, e feliz, reagiu:

– Presidente, isso é o maior sonho de um repórter como eu. Não seria difícil editar uma publicação que defendesse o pensamento de um governante como o senhor, que tem o perfil de um autêntico líder popular.

Getúlio foi taxativo:

– Então, faça.

Wainer perguntou:

– O senhor quer saber como faria?

– Não – Getúlio respondeu prontamente.

E acrescentou:

– Troque ideias com a Alzira e faça rápido.

– Em 45 dias, dou um jornal ao senhor – reagiu Wainer.

– Então, boa noite, Profeta.

– Boa noite, presidente.


Artigo publicado originalmente na revista Teoria e Debate

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