
O poder do clero é maior ou menor de acordo com democracia na Igreja
Neste terceiro artigo sobre os polos de poder na Igreja Católica Romana, o jornalista Dermi Azevedo vai à base da instituição e analisa os diferentes perfis do clero. Para ele, é possível verificar padres são seculares, isto é, diretamente dependentes dos bispos, ou religiosos, ou seja, aqueles que dependem de uma ordem ou de uma congregação religiosa.
Dermi Azevedo
Poucas semanas depois da eleição do novo papa, as palavras e os temas preferidos por Francisco assumem o lugar mais destacado na produção eclesial de sentidos, na ação pastoral da Igreja Romana em todo o mundo. Esse processo integra a dinâmica da hegemonia, característica de toda instituição baseada numa hierarquia centralizada. Nela, o padre é uma figura central porque é o responsável direto pelo contato direto com os integrantes de sua comunidade e com o público em geral.
Os termos mais utilizados pelo papa, como "ternura", "misericórdia" e "perdão" (que não representam objetivamente uma novidade na catequese e na homilética cristã), são retomados, com nova ênfase, nas missas e nas demais celebrações. O sacerdote é, desse modo, o principal intelectual orgânico da Igreja Romana, assim como é o pastor nas Igrejas Evangélicas.
É algo bastante desafiador analisar o papel do clero, hoje, por vários motivos. Não é possível fazer generalizações. Há vários perfis de padres: é preciso primeiro verificar se são seculares (isto é, diretamente dependentes dos bispos) ou religiosos (ou seja, aqueles que dependem de uma ordem ou de uma congregação religiosa, cada uma delas com os seus superiores). O novo papa é membro da Companhia de Jesus, uma das ordens mais antigas e mais estruturadas da Igreja Romana. Os jesuítas fazem o chamado "quarto voto", específico, de obediência ao Papa, depois de jurarem ser castos, pobres e obedientes.
Em termos da ação pastoral, é também necessário verificar que modelo de Igreja o padre assume na sua ação cotidiana. Embora de forma esquemática, pode ser verificada a vigência de três modelos eclesiais básicos: Igreja Povo de Deus, Igreja Sociedade Perfeita e Igreja Cristandade, cada qual no seu contexto. Em termos gerais, é predominante, na Igreja Romana, hoje, o modelo da Igreja como Povo de Deus, de origem judaica, que foi assimilado pelo Cristianismo e que foi, séculos depois, consagrado pelo Concílio Vaticano II. No entanto, as conclusões mais importantes do Concílio (abertura para dentro e para fora da Igreja) ficaram e m segundo plano, graças à política neoconservadora adotada a partir do pontificado de João Paulo II.
Em relação ao poder do clero, a partir de uma visão latino-americana, podem ser estabelecidas várias hipóteses: 1. O poder clerical (especificamente dos padres), aumenta na medida em que diminui o poder dos bispos e do Papa, com a conquista de espaços de colegialidade 2. A Igreja Católica Romana foi o braço religioso do processo de colonização e de submissão da América Latina, com a eclosão de casos de genocídio, sobretudo quanto aos índios e aos negros. 3. De acordo com um processo dialético, do seio da Igreja surgiu as primeiras vozes de protesto, de denúncia profética, contra o extermínio desses povos, em um processo que tem continuidade em pleno século XXI. Os maiores exemplos nesse sentido foram dados, pelo arcebispo Bartolomé de las Casas e, mais recentemente, por bispos como o cardeal d. Paulo Evaristo Arns, o de d.Oscar Arnulfo Romero, por d. Pedro Casaldáliga, d. Tomás Balduíno, d. Hélder Câmara e por um grande número de mártires, como Marçal Tupã, Chico Mendes, Irmã Dorothy, madre Maurina, Margarida Maria Alves, Santo Dias da Silva e outros lutadores sociais.
Cada leitor, em sua mente, possui certamente uma imagem do sacerdote, trazida da infância, de geração em geração. Isto acontece independentemente da sua opção religiosa ou ideológica. Representa um equivoco generalizar e estereotipar um só perfil do padre. Em termos de poder, a realidade clerical ainda é mais complexa. Depende da existência ou não de padrões democráticos de governo eclesiástico, em todos os níveis.
Polos de poder na Igreja
Artigo 1: No Vaticano, o discurso religioso não esconde a luta pelo poder
Artigo 2: Cardeais representam a elite do poder no Vaticano
PS.: Quero esclarecer aos leitores que não sou teólogo. Sou jornalista e cientista político e, durante quase 40 anos, fiz e faço a cobertura e a análise dos acontecimentos religiosos. Preocupa-me cientificamente a decodificação da linguagem religiosa para nela distinguir o discurso político. Por isso, fiz uma especialização sobre a política externa do Vaticano (na FESPSP), uma dissertação de mestrado em Ciência Política sobre a colaboração de membros das Igrejas Cristãs com a repressão da ditadura militar e uma tese de doutorado sobre Igreja e Democracia, na USP, ambas sob a orientação do Prof. Dr. Paulo Sérgio Pinheiro.
Os termos mais utilizados pelo papa, como "ternura", "misericórdia" e "perdão" (que não representam objetivamente uma novidade na catequese e na homilética cristã), são retomados, com nova ênfase, nas missas e nas demais celebrações. O sacerdote é, desse modo, o principal intelectual orgânico da Igreja Romana, assim como é o pastor nas Igrejas Evangélicas.
É algo bastante desafiador analisar o papel do clero, hoje, por vários motivos. Não é possível fazer generalizações. Há vários perfis de padres: é preciso primeiro verificar se são seculares (isto é, diretamente dependentes dos bispos) ou religiosos (ou seja, aqueles que dependem de uma ordem ou de uma congregação religiosa, cada uma delas com os seus superiores). O novo papa é membro da Companhia de Jesus, uma das ordens mais antigas e mais estruturadas da Igreja Romana. Os jesuítas fazem o chamado "quarto voto", específico, de obediência ao Papa, depois de jurarem ser castos, pobres e obedientes.
Em termos da ação pastoral, é também necessário verificar que modelo de Igreja o padre assume na sua ação cotidiana. Embora de forma esquemática, pode ser verificada a vigência de três modelos eclesiais básicos: Igreja Povo de Deus, Igreja Sociedade Perfeita e Igreja Cristandade, cada qual no seu contexto. Em termos gerais, é predominante, na Igreja Romana, hoje, o modelo da Igreja como Povo de Deus, de origem judaica, que foi assimilado pelo Cristianismo e que foi, séculos depois, consagrado pelo Concílio Vaticano II. No entanto, as conclusões mais importantes do Concílio (abertura para dentro e para fora da Igreja) ficaram e m segundo plano, graças à política neoconservadora adotada a partir do pontificado de João Paulo II.
Em relação ao poder do clero, a partir de uma visão latino-americana, podem ser estabelecidas várias hipóteses: 1. O poder clerical (especificamente dos padres), aumenta na medida em que diminui o poder dos bispos e do Papa, com a conquista de espaços de colegialidade 2. A Igreja Católica Romana foi o braço religioso do processo de colonização e de submissão da América Latina, com a eclosão de casos de genocídio, sobretudo quanto aos índios e aos negros. 3. De acordo com um processo dialético, do seio da Igreja surgiu as primeiras vozes de protesto, de denúncia profética, contra o extermínio desses povos, em um processo que tem continuidade em pleno século XXI. Os maiores exemplos nesse sentido foram dados, pelo arcebispo Bartolomé de las Casas e, mais recentemente, por bispos como o cardeal d. Paulo Evaristo Arns, o de d.Oscar Arnulfo Romero, por d. Pedro Casaldáliga, d. Tomás Balduíno, d. Hélder Câmara e por um grande número de mártires, como Marçal Tupã, Chico Mendes, Irmã Dorothy, madre Maurina, Margarida Maria Alves, Santo Dias da Silva e outros lutadores sociais.
Cada leitor, em sua mente, possui certamente uma imagem do sacerdote, trazida da infância, de geração em geração. Isto acontece independentemente da sua opção religiosa ou ideológica. Representa um equivoco generalizar e estereotipar um só perfil do padre. Em termos de poder, a realidade clerical ainda é mais complexa. Depende da existência ou não de padrões democráticos de governo eclesiástico, em todos os níveis.
Polos de poder na Igreja
Artigo 1: No Vaticano, o discurso religioso não esconde a luta pelo poder
Artigo 2: Cardeais representam a elite do poder no Vaticano
PS.: Quero esclarecer aos leitores que não sou teólogo. Sou jornalista e cientista político e, durante quase 40 anos, fiz e faço a cobertura e a análise dos acontecimentos religiosos. Preocupa-me cientificamente a decodificação da linguagem religiosa para nela distinguir o discurso político. Por isso, fiz uma especialização sobre a política externa do Vaticano (na FESPSP), uma dissertação de mestrado em Ciência Política sobre a colaboração de membros das Igrejas Cristãs com a repressão da ditadura militar e uma tese de doutorado sobre Igreja e Democracia, na USP, ambas sob a orientação do Prof. Dr. Paulo Sérgio Pinheiro.
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