sábado, 23 de março de 2013

Sarkozy e gerente geral do FMI na mira da Justiça francesa


Sarkozy e gerente geral do FMI na mira da Justiça francesa

O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy foi acusado oficialmente pela Justiça pelo escândalo do suposto financiamento de sua campanha eleitoral de 2007 pela herdeira da L’Oreal. Já a diretora do FMI, Christine Lagarde, é suspeita de ter favorecido o empresário Bernard Tapie com uma arbitragem que lhe concedeu uma indenização de mais de 400 milhões de euros. Por Eduardo Febbro, de Paris.

Paris - Semana judicial do fim do mundo para a direita francesa e que respingou também no governo de François Hollande. Contra o que se esperava, o ex-presidente francês, Nicolas Sarkozy, foi acusado oficialmente pela justiça francesa no espetacular escândalo do suposto financiamento de sua campanha eleitoral de 2007 por parte da herdeira do imperial L’Oreal, Liliane Bettencourt. Após uma segunda audiência no Tribunal de Bordeaux, que durou várias horas, a promotoria o acusou de “abuso de debilidade cometido em fevereiro de 2007 e ao longo de 2007 contra Liliane Bettencourt Schuller”. Nicolas Sarkozy foi interrogado como “testemunha assistida” no Tribunal de Bordeaux para esclarecer quantas vezes foi à casa da multimilionária e determinar assim se a senhora Bettencourt entregou dinheiro para sua campanha de 2007. Várias testemunhas afirmaram que Sarkozy obteve doações especiais.

Segundo o processo, Sarkozy foi à casa dos Bettencourt, situada em Neuilly sur Seine, em fevereiro de 2007, quando começava a campanha que o levou à presidência. Testemunhos diversos contaram que o administrador da fortuna da senhora Bettencourt, Patrice de Maistre, pediu 150 mil euros em espécie a sua contadora, Claire Thibout, para entregar ao então tesoureiro de Sarkozy e mais tarde seu ministro de Orçamento, Eric Woerth, acusado por sua vez de tráfico de influência. 

Sarkozy nega ter recebido esse dinheiro e baseia sua defesa na falta de provas e de testemunhos. De Maistre e Woerth também desmentiram a cobrança dos 150 mil euros. O caso se complica porque o testemunho central da suposta entrega do dinheiro, a governanta da casa dos Bettencourt, Nicole Berger, faleceu antes de confirmar esta suspeita à Justiça. Em novembro do ano passado, Sarkozy passou 12 horas no Tribunal de Bordeaux prestando depoimento. Segundo o diário Sud-Ouest, o ex-presidente disse: “os Bettencourt nunca me deram um centavo sequer e eu nunca pedi nada a eles”. A audiência desta quinta-feira confrontou Sarkozy com um dos mordomos de Bettencourt, Pascal Bonnefoy e outros três empregados domésticos a fim de estabelecer se o ex-presidente foi apenas uma vez à casa de Bettencourt, como afirma, ou várias.

Fontes do Judiciário adiantaram à imprensa que mesmo se for estabelecida a existência de certas “mentiras” de Sarkozy, estas não constituem “indícios graves e concordantes” capazes de provar que ele teria abusado da “fraqueza” de Liliane Bettencourt. A Justiça, no final, decidiu o contrário e mudou o estatuto judicial do ex-chefe de estado: de “testemunha assistida” passou a ser alvo de uma acusação formal. O advogado de Sarkozy, Thierry Herzog, adiantou que pretendia apresentar um recurso imediatamente. Herzog considerou a decisão da justiça “incoerente no plano jurídico e injusta”.

Este não é o único escândalo que atinge a direita francesa. O outro caso põe em cena a diretora geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, que está sob suspeita de ter favorecido o empresário Bernard Tapie com a arbitragem que lhe concedeu uma indenização de mais de 400 milhões de euros. Os juízes econômicos de Paris, Serge Tournaire, Guillaume Daïeff e Claire Thépaut abriram uma negociação em setembro do ano passado e fizeram acusações pelo “uso abusivo de poderes sociais e ocultação desse delito”, contra o Consórcio de Realização (CDR). Trata-se de um desses bancos que administram fundos suspeitos, investimentos tóxicos e passivos fraudulentos de bancos.

O CDR foi criado em 1995 para administrar os passivos tóxicos do banco Crédit Lyonais, que faliu. A justiça investiga Christine Lagarde para saber se a chefe do FMI usou sua influência sobre os árbitros privados encarregados de definir o litígio entre o empresário Bernard Tapie e o banco público Crédit Lyonais. Ambos estavam confrontados pela venda da multinacional Adidas. Em julho de 2008, Tapie se beneficiou com uma sentença da comissão de arbitragem, que decidiu por uma indenização milionário de 402 milhões de euros. Muitos especialistas questionaram essa decisão e propuseram que fosse apresentado um recurso, mas Lagarde, que naquele momento era ministra de Economia e Finanças, recusou seguir esse caminho.

O escândalo volta hoje ao primeiro plano de forma espetacular com a busca na casa de Christine Lagarde e as revelações publicadas pelo vespertino Le Monde, dando conta de que Bernard Tapie esteve em repetidas ocasiões com Nicolas Sarkozy quando este era ministro do Interior e depois quando este foi presidente entre 2007 e 2012. A imprensa também revelou que Sarkozy recebeu um dos árbitros que decidiu em favor de Tapie, Pierre Mazeaud. A justiça já realizou uma busca na casa de Tapie e também na de um dos principais colaboradores do ex-presidente, Claud Guéan, ex-secretário geral da presidência da República. O advogado de Christine Lagarde declarou que a diretora do FMI “não tem nada a esconder”.

A semana se encerra assim com a acusação contra Sarkozy, a busca na residência de Lagarde e a renúncia de um ministro do governo socialista, Jérôme Cahuzac. O agora ex-titular da pasta do Orçamento teve que deixar seu cargo depois que se descobriu que ele teve uma conta em um banco suíço aberta em seu nome, informação revelada pelo portal de Mediapart, que Cahuzac sempre negou. Mas, como no caso L’Oreal e no de Bernard Tapie, a justiça terminou por estreitar o círculo em torno dos responsáveis políticos da direita conectados com dois dois maiores escândalos político-financeiros dos últimos anos.

Tradução: Katarina Peixoto

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