
A direita sem vergonha assume liderança da oposição na França
O triunfo de Jean-François Copé nestas eleições internas minadas pelas irregularidades consagra a derrota da chamada “direita civilizada” encarnada pelo liberal conservador François Fillon. A ascensão de Copé reforça também a ala mais extremista da UMP, perfeitamente de acordo com a campanha eleitoral xenófoba e nacionalista que Nicolas Sarkozy protagonizou. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.
Eduardo Febbro
Paris - A direita francesa está mordendo a própria cauda e o coração. A primeira eleição interna do partido do ex-presidente Nicolas Sarkozy, a UMP (União por uma Maioria Popular), converteu-se numa farsa violenta que opôs dois adversários, o ex-primeiro ministro de Sarkozy, Fraçois Fillon, e o herdeiro dos valores do sarkozysmo, Jean-François Copé, num pugilato que beira ao patético. Fundada em 2002 pelo presidente conservador Jacques Chirac e pelo ex-chanceler Alain Juppé, com a meta de modernizar a direita aprisionada aos valores do general de Gaulle, a UMP se desagrega publicamente no processo de eleger um sucessor para Sarkozy.
Oficialmente, a eleição interna foi ganha por Jean-François Copé, por uma diferença de apenas 98 votos. No entanto, depois de uma batalha épica de acusações e denúncias, o campo de François Fillon questionou a legitimidade da vitória de seu rival, com o argumento de que a comissão eleitoral da UMP não contabilizou os votos de três territórios franceses ultramar: Nova Caledônia, Wallis e Futuna e Mayotte.
Até que o imbróglio se resolva – se é que isso ocorrerá – Jean-François Copé é o novo líder de uma direita que, com ele à frente, oficializou o retorno ao primeiro plano da versão mais extremista e despudorada da direita francesa. Jean-François Copé é uma cópia de Nicolas Sarkozy, uma cópia em todo o sentido da palavra: populista, oportunista, agressivo, capaz de dizer qualquer barbaridade com o objetivo de manter as rédeas do poder e de entoar discursos xenófobos para capturar o eleitorado envelhecido que vota na extrema direita da Frente Nacional.
Teórico e militante de “uma direita sem complexos”, Jean-François Copé não tem pudores de atacar publicamente os muçulmanos ou em chegar ao extremo de acusar as crianças muçulmanas de roubarem croissants das crianças francesas durante o período do Ramadã (o jejum muçulmano). Copé se refere aos estrangeiros e aos homossexuais como se fossem objetos tóxicos que é preciso apartar. Não por acaso a mídia local apoiou o “pequeno Sarkozy”. Ele é em quase tudo similar ao presidente que deixou o poder em maio passado depois de perder a eleição presidencial para o socialista François Hollande.
O triunfo de Jean-François Copé nestas eleições internas minadas pelas irregularidades consagra a derrota da chamada “direita civilizada” encarnada pelo liberal conservador François Fillon. A ascensão de Copé reforça também a ala mais extremista da UMP, perfeitamente de acordo com a campanha eleitoral xenófoba e nacionalista que Nicolas Sarkozy protagonizou. Na visão apresentada por Copé e sua corrente, a França é um país exposto a todas as ameaças possíveis e imagináveis – sobretudo as imaginárias -, assediado por inimigos estrangeiros contaminantes que buscam se aproveitar da riqueza do país e corromper a sua “essência”. Por isso, juram ante quem queira escutá-los, que estão dispostos a dar a vida para defender a França imortal, esse país encurralado pelos estrangeiros, pelos mercados e pelas más intenções da Alemanha.
O homem que hoje imita Nicolas Sarkozy foi, no entanto, seu inimigo mais atento. Sarkozy o detestava e a primeira coisa que fez quando chegou à presidência foi cortar as suas asas, para que não avançasse. Mas sua simpatia natural, suas propostas populistas contra os estrangeiros e sua prosa culta e refinada lhe valeram os votos de um setor considerável do eleitorado. Como só pode, amiúde, acontecer na França, Jean-François Copé assentou sua autoridade num livro: “Manifesto para uma direita sem complexos”, no qual plasmou a ruptura com a ala social dos conservadores: sem complexos quer dizer sem barreira de contenção para as ideias da ultradireita da Frente Nacional. Sem complexos e sem vergonha.
Com o correr do tempo, Copé, isolado por Sarkozy, conseguiu contar com as suas próprias divisões dentro da UMP, como para negociar com o ex-presidente do partido a sua direção, em troca de seu pleno apoio nas prévias presidenciais, de abril e maio passado.
Jean-François Copé é o brilho do dinheiro, o luxo ostentoso e o resplendor do populismo que joga com os extremos em nome da defesa territorial. Seu triunfo é apenas a parte visível de um imenso abalo que sacudiu a direita francesa: o triunfo do sarkozysmo, a ascensão de uma corrente chamada “A Direita Forte”, criada depois da eleição presidencial. “A Direita Forte” barrou os moderados, os liberais sociais, os herdeiros do gaullismo decente, os conservadores elegantes e aristocráticos. O pódio pertence aos lobos modernos, hiper nacionalistas, paranoicos com as ameaçadas de que a França seria objeto, propulsores de uma síntese entre o social e a identidade, asseados e educados, mas com ideias que têm a cara menos apresentável da história.
Tradução: Katarina Peixoto
Oficialmente, a eleição interna foi ganha por Jean-François Copé, por uma diferença de apenas 98 votos. No entanto, depois de uma batalha épica de acusações e denúncias, o campo de François Fillon questionou a legitimidade da vitória de seu rival, com o argumento de que a comissão eleitoral da UMP não contabilizou os votos de três territórios franceses ultramar: Nova Caledônia, Wallis e Futuna e Mayotte.
Até que o imbróglio se resolva – se é que isso ocorrerá – Jean-François Copé é o novo líder de uma direita que, com ele à frente, oficializou o retorno ao primeiro plano da versão mais extremista e despudorada da direita francesa. Jean-François Copé é uma cópia de Nicolas Sarkozy, uma cópia em todo o sentido da palavra: populista, oportunista, agressivo, capaz de dizer qualquer barbaridade com o objetivo de manter as rédeas do poder e de entoar discursos xenófobos para capturar o eleitorado envelhecido que vota na extrema direita da Frente Nacional.
Teórico e militante de “uma direita sem complexos”, Jean-François Copé não tem pudores de atacar publicamente os muçulmanos ou em chegar ao extremo de acusar as crianças muçulmanas de roubarem croissants das crianças francesas durante o período do Ramadã (o jejum muçulmano). Copé se refere aos estrangeiros e aos homossexuais como se fossem objetos tóxicos que é preciso apartar. Não por acaso a mídia local apoiou o “pequeno Sarkozy”. Ele é em quase tudo similar ao presidente que deixou o poder em maio passado depois de perder a eleição presidencial para o socialista François Hollande.
O triunfo de Jean-François Copé nestas eleições internas minadas pelas irregularidades consagra a derrota da chamada “direita civilizada” encarnada pelo liberal conservador François Fillon. A ascensão de Copé reforça também a ala mais extremista da UMP, perfeitamente de acordo com a campanha eleitoral xenófoba e nacionalista que Nicolas Sarkozy protagonizou. Na visão apresentada por Copé e sua corrente, a França é um país exposto a todas as ameaças possíveis e imagináveis – sobretudo as imaginárias -, assediado por inimigos estrangeiros contaminantes que buscam se aproveitar da riqueza do país e corromper a sua “essência”. Por isso, juram ante quem queira escutá-los, que estão dispostos a dar a vida para defender a França imortal, esse país encurralado pelos estrangeiros, pelos mercados e pelas más intenções da Alemanha.
O homem que hoje imita Nicolas Sarkozy foi, no entanto, seu inimigo mais atento. Sarkozy o detestava e a primeira coisa que fez quando chegou à presidência foi cortar as suas asas, para que não avançasse. Mas sua simpatia natural, suas propostas populistas contra os estrangeiros e sua prosa culta e refinada lhe valeram os votos de um setor considerável do eleitorado. Como só pode, amiúde, acontecer na França, Jean-François Copé assentou sua autoridade num livro: “Manifesto para uma direita sem complexos”, no qual plasmou a ruptura com a ala social dos conservadores: sem complexos quer dizer sem barreira de contenção para as ideias da ultradireita da Frente Nacional. Sem complexos e sem vergonha.
Com o correr do tempo, Copé, isolado por Sarkozy, conseguiu contar com as suas próprias divisões dentro da UMP, como para negociar com o ex-presidente do partido a sua direção, em troca de seu pleno apoio nas prévias presidenciais, de abril e maio passado.
Jean-François Copé é o brilho do dinheiro, o luxo ostentoso e o resplendor do populismo que joga com os extremos em nome da defesa territorial. Seu triunfo é apenas a parte visível de um imenso abalo que sacudiu a direita francesa: o triunfo do sarkozysmo, a ascensão de uma corrente chamada “A Direita Forte”, criada depois da eleição presidencial. “A Direita Forte” barrou os moderados, os liberais sociais, os herdeiros do gaullismo decente, os conservadores elegantes e aristocráticos. O pódio pertence aos lobos modernos, hiper nacionalistas, paranoicos com as ameaçadas de que a França seria objeto, propulsores de uma síntese entre o social e a identidade, asseados e educados, mas com ideias que têm a cara menos apresentável da história.
Tradução: Katarina Peixoto
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