Parceria público-privada para o sistema de esgoto da Região Metropolitana de Recife ameaça entregar parte do patrimônio comum pernambucano. Além disso, 110 mil moradores de regiões mais pobres continuarão sem os serviços de saneamento, já que esse "mercado" não oferecia condições vantajosas para os investidores
Edson Aparecido da Silva
Edson Aparecido da Silva

Este artigo pretende analisar a proposta de PPP para o sistema de esgotamento sanitário da RMR, composta de catorze municípios, mais a cidade de Goiana. Trata-se da segunda maior região metropolitana do Nordeste e a sexta do Brasil, com aproximadamente 4,5 milhões de habitantes.
O modelo de PPP proposto é na modalidade concessão administrativa, na qual o parceiro privado deve operar, manter, ampliar e recuperar o sistema de coleta e tratamento de esgoto, além de introduzir a infraestrutura necessária para a ampliação dos serviços.
Também há uma diferença fundamental: a operação do sistema e o faturamento decorrente, em caso da não privatização, ficariam em poder do público. Já na PPP, a operação vai ficar sob controle de empresas privadas durante 35 anos, e todo o faturamento do sistema de esgoto vai para o caixa das empreiteiras, restando somente o fornecimento de água para o estado.
Deixemos claro que todas as obras executadas sob responsabilidade da Compesa serão transferidas, ao seu término, à concessionária privada, incluindo o direito de exploração dos novos ativos até o fim da concessão.
É previsto que, ao longo dos 35 anos do contrato, o total de receitas a ser apropriado pelo parceiro privado será de R$ 16,6 bilhões, dos quais R$ 3,1 bilhões serão repassados ao governo na forma de impostos. Em resumo, investe-se pouco mais de R$ 3 bilhões em troca de uma receita de mais de R$ 13 bilhões. O empreendimento prevê uma Taxa Interna de Retorno (TIR) de 8,4%.
Mais escandaloso ainda é o fato de áreas urbanizadas dentro da RMR não terem sido contempladas com investimentos em sistemas de esgotamento sanitário. Os locais excluídos são justamente aqueles em que o retorno do investimento não é vantajoso, ou seja, onde vivem as populações mais pobres, como as ocupações de margens de rios e córregos, terrenos com alto grau de aglomeração e áreas de favela. Essas ocupações representam aproximadamente 1% da área da RMR e 2,5% de sua população. Assim, cerca de 110 mil moradores continuarãosem os serviços de saneamento.
O Sindicato dos Urbanitários de Pernambuco construiu uma grande unidade com sindicatos de outras categorias e entidades do movimento popular e vem lutando de todas as formas para evitar que a privatização avance, apesar da correlação de forças desfavorável, já que o governo tem colocado a máquina da administração na defesa desse projeto. A audiência pública que tinha por objetivo debater a proposta foi uma farsa, aconteceu durante o dia e dentro da empresa, dificultando a participação da população.
Para enfrentar essas ameaças de privatização, a Federação Nacional dos Urbanitários, entidade sindical nacional que representa os trabalhadores dos setores de água e saneamento, energia, gás e meio ambiente, e várias outras entidades que integram a Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental (FNSA), como a Central de Movimentos Populares (CMP), a Confederação Nacional das Associações de Moradores (Conam), a Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge), a Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento (Assemae) e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), lançaram, em novembro de 2011, uma campanha nacional contra as PPPs.1
Esse grupo de entidades e movimentos entende que o saneamento no Brasil passa por um momento privilegiado, em que uma legislação nacional (Lei n. 11.445/07) definiu suas diretrizes. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) vem destinando grandes somas de recursos para o setor, o que possibilita a ampliação dos índices de atendimento em água e esgoto, e acabou com o contingenciamento de recursos que sufocava essa área desde os anos 1990.
Apesar dos avanços, há muito por fazer, sobretudo no que tange à coleta e ao tratamento dos esgotos, à destinação e coleta dos resíduos sólidos e à drenagem urbana. É preciso que o Plano Nacional de Saneamento (Plansab), instrumento estruturante das políticas de saneamento, que se encontra em consulta pública, seja colocado em prática o quanto antes.
O saneamento básico ainda requer grandes somas de investimento até que se atinja a universalização do acesso, principalmente em áreas carentes onde vivem as pessoas de mais baixa renda. Essas áreas, pelas quais o setor privado não tem interesse, só terão sua realidade transformada com forte presença do Estado, indutor do desenvolvimento e da melhoria da qualidade de vida. A busca incessante do lucro é incompatível com a necessidade de superação dos desafios da universalização. Nesse sentido, é preciso reafirmar o papel insubstituível do poder público na gestão e operação dos serviços públicos de saneamento básico.
Edson Aparecido da Silva é sociólogo, é coordenador da Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental (FNSA) e assessor de saneamento da Federação Nacional dos Urbanitários (FNU/CUT).
Ilustração: André Dahmer
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