quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Café dos Vikings



* Por Felipe Barreto Croce
No sótão de um armazém situado na periferia de Estocolmo (Suécia), onde funciona uma torrefação de cafés, estavam as maiores mentes da industria de Cafés Especiais da Escandinávia. E junto a este seleto grupo, nós, João Hamilton dos Santos e Felipe Barretto Croce, dois pequenos produtores de café do interior de São Paulo. O encontro (9° Nordic Roaster Forum), que durou três dias, além de sua força simbólica devido àquelas personalidades presentes, tinha igualmente um propósito temático: Direct Trade (a compra direta).

O que faziam dois produtores da região Mogiana de São Paulo em meio aos compradores e torrefadores dos melhores cafés do mundo? Compradores estes que têm o poder de escolha entre cafés distintos como o colombiano do Juan Valdez, o famoso Geisha da Hacienda La Esmeralda do Panamá e os prestigiosos quenianos e etíopes?

João Hamilton e eu fomos convidados pela organização do evento para falar sobre os cafés de nossa fazenda, cafés de nossa região e também do Brasil. Durante os três dias, discutimos a importância da ciência para desenvolvermos conhecimento sobre cafés especiais e a arte de criar bebidas novas e diferenciadas.

Ficou claro para nós que a commodity, por identidade, é um produto submetido a uma indústria que busca padronizar sabores e que a indústria gourmet busca justamente o oposto: a diversidade. A nossa grande experiência foi que, a cada café que provávamos, tornava-se evidente que, quanto mais distante ficávamos do sabor tradicional de café, mais aumentava a pontuação e o interesse por aquele café.

Cinco anos atrás iniciamos, em nossa fazenda, um trabalho "de loucos" (como chegamos a ser chamados). Começamos a colher seletivamente, a secar em terreiros suspensos, a catar todos os grãos verdes que restavam nos lotes e a fazer testes no laboratório com foco na bebida. Seguimos em frente sem pensar em custos de produção e somente na qualidade da bebida. Tínhamos sempre a dúvida em mente: será que alguém vai pagar mais por esses cafés? Sabíamos que os compradores poderiam escolher cafés de outros países mais reconhecidos por suas qualidades e com custos de produção inferiores.

O país tema deste evento-encontro era o Quênia, a origem que mais focou em qualidade até hoje. As características marcantes de seus cafés, sendo extremamente ácidos e florais, tornaram os cafés quenianos conhecidos, ao longo dos anos, exatamente por estas variedades de notas, juntamente a formas diferenciadas de manejo de solo e processos de fermentação específicas. Hoje, mesmo muitos leigos em café podem identificar um café queniano entre os de outros países produtores.

Voltando aos nossos cafés, escutando os especialistas falarem, ficou claro para nós que o café brasileiro também merece um lugar na mesa entre os melhores do globo.

O Brasil, pela sua extensão e pelos diversos micro-climas, poderia oferecer a maior diversidade de sabores e aromas do mundo inteiro. O potencial em produzir cafés de alta qualidade é enorme.

Meu conselho para qualquer produtor é não ter medo em ser diferente, pois é isso que os compradores de cafés especiais estão buscando.

O país tema do encontro Nórdicos de 2013 será o Brasil. O tema: O cultivo Orgânico e a Sustentabilidade.
 
*Felipe Barretto Croce    Mococa - São Paulo
Formado em Relações Internacionais e ADM pela Universidade de Washington - EUA. Trabalhou com torrefação de cafés especiais nos EUA, retornando ao Brasil para ajudar a família na FAF, onde hoje é responsável por pesquisas e controle de qualidade 
 
Fonte: Café Point

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