Porque os banqueiros dominam o mundo
Ellen Brown
Ellen Brown

Na edição de 2012 de Occupy Money que saiu na semana passada, a professora Margrit Kennedy escreve que uns espantosos 35% a 40% de tudo o que compramos vai para juros. Estes juros vão para banqueiros, financeiros e detentores de títulos, os quais ficam com 35% a 40% do nosso PIB. Isso ajuda a explicar como a riqueza é sistematicamente transferida do homem comum para a Wall Street. Os ricos ficam progressivamente mais ricos a expensas dos pobres, não por causa da "cobiça da Wall Street" mas sim por causa da matemática inexorável do nosso sistema bancário privado.

http://www.oftwominds.com/blogsept12/cui-bono-Fed9-12.html
O crescimento exponencial dos lucros no sector financeiro verificou-se a expensas dos sectores não financeiros, onde o rendimento na melhor das hipóteses cresceu linearmente.

http://lanekenworthy.net/2010/07/20/the-best-inequality-graph-updated/
Em 2010, 1% da população possuía 42% da riqueza financeira , ao passo que 80% da população possuía apenas 5% da riqueza financeira. A Dra. Kennedy observa que os 80% da base paga o encargos dos juros ocultos que os 10% do topo arrecadam, tornando o juro um imposto fortemente recessivo que os pobres pagam aos ricos.
O crescimento exponencial é insustentável. Na natureza, o crescimento sustentável progride numa curva logarítmica que cresce cada vez mais vagarosamente até parar de crescer (a linha vermelha no primeiro gráfico acima). O crescimento exponencial é o reverso: começa vagarosamente e aumenta ao longo do tempo, até que a curva passa a subir verticalmente (o gráfico abaixo). O crescimento exponencial é considerado em parasitas, cancros e ... juros compostos. Quando o parasita esgota a sua fonte de alimentação, a curva de crescimento entra em colapso súbito.

As pessoas geralmente supõem que se pagarem as suas contas dentro do prazo não estarão a pagar juros compostos mas, mais uma vez, isto não é verdade. O juro composto está incorporado na fórmula da maior parte das hipotecas , as quais compreendem 80% dos empréstimos nos EUA. E se os cartões de crédito não forem pagos dentro do período de graça de um mês, os encargos de juros são compostos diariamente.
Mesmo que pague dentro do período de graça, o dono do cartão está a pagar 2% a 3% pela utilização do cartão , uma vez que os comerciantes transferem seus encargos mercantis para o consumidor. Os cartões de débito, o quais equivalem a cheques, também envolvem encargos. O Visa-MasterCard e os bancos em ambos os extremos destas transacções cobram uma comissão média de 44 centavos por transacção - embora o custo para eles seja cerca de quatro centavos.
Como recapturar os juros: possuir o banco
As implicações de tudo isto são espantosas. Se tivéssemos um sistema financeiro que devolvesse o juro arrecadado do público directamente para o público, poderia ser removido 35% do preço de tudo o que compramos. Isso significa que poderíamos comprar três ítens pelo preço actual de dois e que nossos cheques de pagamento poderiam ir 50% mais além do que vão hoje.
Ao tomarem emprestado dos seus próprios bancos de propriedade pública, os governos poderiam ao mesmo tempo eliminar o seu fardo de juros. Isto foi demonstrado alhures com resultados excelentes, incluindo entre outros países o Canadá , a Austrália e a Argentina .
Em 2011, o governo federal dos EUA pagou US$454 mil milhões em juros sobre a dívida federal [NT] - aproximadamente um terço do total de US$1100 mil milhões pagos em impostos sobre o rendimento pessoal naquele ano. Se o governo tivesse estado a tomar emprestado directamente do Federal Reserve - o qual tem poder para criar crédito na sua contabilidade e agora transfere seus lucros directamente para o governo - os impostos sobre o rendimento pessoal poderiam ser cortados em um terço.
Tomar emprestado do seu próprio banco central sem juros pode até permitir, ao mesmo tempo, que um governo elimine a sua dívida nacional. Em Money and Sustainability: The Missing Link (na pg. 126), Bernard Lietaer e Christian Asperger, et al., menciona o exemplo da França entre 1946 e 1973. A lei então mudou, proibindo esta prática e exigindo ao Tesouro que, ao invés, tomasse emprestado do sector privado. Os autores incluem um gráfico mostrando o que teria acontecido se o governo francês houvesse continuado a tomar emprestado sem juros versus o que aconteceu. Ao invés de cair de 21% para 8,6% do PIB, a dívida disparou de 21% para 78% do PIB.
"Neste caso não de pode culpar nenhum governo perdulário", escrevem os autores. "Os juros compostos explicam tudo!"

Mais do que uma solução apenas federal
Não é apenas o governo federal que poderia assim eliminar seus encargos de juros. Governos estaduais e locais também poderiam eliminá-la..
Considere-se a Califórnia. No fim de 2010 o estado tinha compromissos gerais e dívidas em títulos de US$158 mil milhões. Destes, US$70 mil milhões, ou 44%, eram devidos a título de juros. Se o estado houvesse incorrido naquela dívida junto ao seu próprio banco - o qual então devolvia os lucros para o estado - a Califórnia podia ser US$70 mil milhões mais rica do que hoje. Ao invés de cortar serviços, liquidar activos públicos e efectuar despedimentos colectivos de empregados, aquele estado podia estar a acrescentar serviços e a reparar sua infraestrutura decadente.
O único estado dos EUA que possui actualmente o seu próprio banco de depósitos é o Dakota do Norte. O Dakota do Norte é também o único estado que escapou à crise bancária de 2008 , ostentando desde então um considerável excedente orçamental. Ele tem a mais baixa taxa de desemprego do país, a mais baixa taxa de arrestos hipotecários e a mais baixa taxa de incumprimento em dívidas sobre cartões de crédito.
Globalmente, 40% dos bancos são de propriedade pública e estão concentrados em países que também escaparam à crise bancária de 2008. Estes são os países BRIC - Brasil, Rússia, Índia e China -, os quais abrigam 40% da população global. Os BRICs cresceram economicamente em 92% na última década, ao passo que economias ocidentais estiveram a afundar-se.
Cidades e municípios também poderiam estabelecer os seus próprios bancos; mas nos EUA este modelo ainda tem de ser desenvolvido. No Dakota do Norte, enquanto isso, o Bank of North Dakota subscreve as emissões de títulos de governos municipais, salvando-os dos caprichos dos "vigilantes de títulos" e dos especuladores, bem como das altas comissões dos subscritores da Wall Street e do risco de saírem no lado errado dos swaps de taxa de juro exigidos como "seguro" pelos subscritores.
Uma das muitas cidades esmagadas por este esquema de "seguro" da Wall Street é Filadélfia, a qual perdeu US$500 milhões só em swaps de juros. (Como os swaps funcionam e a sua ligação ao escândalo LIBOR foi explicado num artigo anterior, aqui ). Na semana passada, o Philadelphia City Council efectuou audiências acerca do que fazer em relação a esta perda de receitas. Em outro artigo de 30 de Outubro intitulado "Can Public Banks End Wall Street Hegemony?" , Willie Osterweil discutiu a solução apresentada nas audiências por um inflamado discurso de Mike Krauss , director do Public Banking Institute.
A solução de Krauss era fazer tal como a Islândia: apenas afastar-se. Ele propôs "um incumprimento estratégico até que os bancos negociem em termos melhores". Osterweil chamou-o de "radical", uma vez que a cidade perderia sua classificação de crédito favorável e poderia ter perturbações para conseguir empréstimos. Mas Krauss tinha uma solução para esse problema: a cidade podia constituir o seu próprio banco e utilizá-lo para gerar crédito para a cidade a partir das receitas públicas, tal como bancos da Wall Street geram crédito agora a partir daquelas receitas.
Uma solução radical para a qual chegou o momento
A banca pública pode ser uma solução radical, mas é também uma solução óbvia. Isto não é ciência espacial. Ao desenvolver um sistema de banca pública, os governos podem manter os juros e reinvesti-los localmente. Segundo Kennedy e Creutz, isso significa poupanças públicas de 35% a 40%. Os custos podem ser reduzidos de cabo a rabo, impostos podem ser cortados ou serviços podem ser acrescidos; e pode ser criada estabilidade de mercado para governos, tomadores de empréstimos e consumidores. A banca e o crédito podem tornar-se serviços de utilidade pública, alimentando a economia ao invés de dela se alimentarem.
08/Novembro/2012
[NT] Em Portugal, o Orçamento de Estado para 2013 prevê pagamentos de juros no montante 7164,4 mil milhões de euros, o que equivale a 4,3% do PIB português.
08/Novembro/2012
[NT] Em Portugal, o Orçamento de Estado para 2013 prevê pagamentos de juros no montante 7164,4 mil milhões de euros, o que equivale a 4,3% do PIB português.
Ellen Brown é procuradora e presidente do Public Banking Institute. Em Web of Debt , o mais recente dos seus onze livros, ela mostra como um cartel privado usurpou o poder de criar moeda, retirando-o do povo e atribuindo-o a si próprio, e como nós o povo podemos recuperá-lo. Seus sítios web são http://WebofDebt.com , http://EllenBrown.com e http://PublicBankingInstitute.org
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