terça-feira, 20 de novembro de 2012

Sobre o antissemitismo como chantagem política: a propósito da nova agressão de Israel à Faixa de Gaza



 
Atilio Borón
Doutor em Ciência Política pela Harvard University. Professor titular de Filosofia Política da Universidade de B. Aires, Argentina. Director del PLED, Programa Latinoamericano de Educación a Distancia en Ciencias Sociales
Adital
Tradução: ADITAL
Quem condenar a nova agressão perpetrada por Israel na Faixa de Gaza se expõe a receber uma reiterada desqualificação: "antissemita”. Para esses inveterados racistas, qualquer crítica às políticas genocidas do Estado de Israel, qualquer denúncia de suas atrocidades e de sua barbárie somente pode nascer de um intenso ódio ao povo judeu. Tamanha confusão entre povo e regime político não é casual, nem gratuita. Constitui, em troca, a absurda chantagem metodicamente utilizada pela direita reacionária israelita e de seu suicida curso de ação que, em largo prazo, terá como vítima ao próprio povo judeu. Essa postura para nada exclusiva dos fascistas israelitas: recorda a que seus congêneres argentinos adotaram quando qualificavam de "campanha anti-argentina” as críticas que, internamente e fora do país, eram dirigidas contra a ditadura terrorista cívico-militar que semeou destruição e morte na segunda metade dos anos 70. Maliciosamente, eles também equiparavam povo e governo –como hoje o fazem os racistas judeus- para desvirtuar qualquer ataque contra o Estado terrorista, como se fosse uma agressão ao povo argentino. Em ambos os casos, o que se pretende é defender a um regime político nefasto que, no caso de Israel, tem sido denunciado por eminentes personalidades da comunidade judia, dentro e fora desse país. São conhecidas –apesar de ser silenciadas oficialmente- as dúvidas que Albert Einstein e o grande filósofo judeu Martin Buber abrigavam em relação à forma concreta que estava tomando a criação do Estado de Israel, em seus primeiros anos de vida. Pouco antes do desencadeamento da operação "Pilar Defensivo”, Noam Chomsky informava sobre o que pode ver em sua recente visita à Faixa de Gaza, e suas críticas foram demolidoras. Pode-se assistir ao vídeo(em inglês).
A lista de eminentes judeus inconformados com as políticas do Estado israelita seria interminável: Daniel Barenboim e sua nobre cruzada pacifista com o palestino Edward Said nos vem imediatamente à mente, o mesmo que o vibrante testemunho de Norman Finkelstein, um politólogo estadunidense, filho de sobreviventes dos campos de concentração do nazismo, que em uma conferência oferecida em 2010 na Universidade de Waterloo (Canadá) disse que "Não há nada mais desprezível do que usar o sofrimento e o martírio deles (dos que morreram em campos de concentração) para justificar a tortura, a brutalidade, a destruição de lares, cometida diariamente por Israel contra os palestinos. Portanto, me nego a ser pressionado ou intimidado por suas lágrimas de crocodilo (em referência a uma das assistentes a sua conferência)”.
Ao anterior, poderiam ser agregadas as múltiplas organizações judias que rechaçam essa espúria identificação entre povo e regime. Uma delas, denominada Jews for Justice for Palestinians. Two peoples-one future, tem como divisa uma citação do Rabino Hillel, do século I a.C., que, para horror dos ultraortodoxos de hoje, reza assim: "O que não queiras para ti, não faças ao teu vizinho. Essa é toda a Torah. O resto são comentários”. Hillel antecipou-se nada menos que 1800 anos ao célebre imperativo categórico que E. Kant popularizou: "Atua somente te forma tal que a máxima de tua ação possa converter-se em lei universal”. Claro que não serão os ensinamentos daquele sábio judeu ou as do filósofo prussiano as que vão assimilar Netanyahu, seu fascista chanceler Avigdor Lieberman e os falcões israelitas; escutarão os torpes balbucios de alguns decrépitos sucessores de Hillel movidos por um ódio incomensurável para com o povo de cujas terras se apoderaram, os palestinos, e dos quais in pectore se põe em dúvida sua própria condição humana.
O anterior permite compreender as razões pelas quais o governo de Israel pode mobilizar sem escrúpulo algum sua infernal máquina de guerra contra um povo indefeso, sem exército, sem aviação, sem marinha de guerra, sem status internacional reconhecido, bloqueado por ar, terra e mar; impossibilitado de receber ajuda externa (medicamentos, alimentos, roupa etc.) e encerrado "como animais em uma jaula”, como bem recorda Chomsky na entrevista citada acima. Porém, há algo mais: segundo informa Walter Goobar, o jornalista israelita Aluf Benn publicou no diário Haaretz dessa quinta-feira uma nota na qual assegura que Ahmed Yabari –chefe militar do Hamas, cujo assassinato desencadeou a violência- era o "responsável pela manutenção da segurança de Israel na Faixa de Gaza”. Em um giro sinistro dos acontecimentos, Yabari não foi eliminado por ser um chefe terrorista, como divulgou a propaganda sionista, mas porque estava negociando um acordo de paz. Como assegura Goobar, "essa não é uma afirmação retórica, nem obra de uma manobra de vitimização do Hamás, mas quem o afirma é nada menos do que Gershon Baskin, um mediador israelita que leva e trazia propostas entre Yabari e altos cargos israelitas”(1). Tem sentido: nem o complexo militar-industrial estadunidense e nem o fundamentalismo racista israelita estão interessados em chegar a um acordo de paz nessa parte do mundo. A guerra é um grande negócio e, ao mesmo tempo, um recurso para tentar estabilizar a cambaleante situação geopolítica que impera no Oriente Médio. Além disso, nesse caso, essa operação quase não tem custos para Israel porque não são dois exércitos os que se enfrentam –e que poderiam infligir-se danos relativamente semelhantes- mas uma formidável força militar que conta com todo apoio da maior potência militar na história da humanidade e uma população civil encurralada e inerme, que o único que tem para repelir o ataque é o voluntarismo de seus milicianos que mal pode equiparar ao fenomenal desproporção existente entre os armamentos de ambas as partes. A contagem das vítimas de um e de outro lado exime de maiores comentários.
Com esses antecedentes à vista, é apropriado caracterizar ao Estado de Israel como um "Estado canalha”, que viola flagrantemente, com o incondicional apoio do amo imperial, a legislação internacional, as resoluções das Nações Unidas e o direito dos povos. Tal como ressalta Finkelstein, nenhuma chantagem do "antissemitismo” pode dissolver o caráter genocida dessas políticas; nenhum ardil extorsivo, cuja eficácia obedece aos imperdoáveis horrores da shoahperpetrado pelo regime nazi (e perdoado pelas potências imperialistas da época) pode obrar o milagre de transformar o vício em virtude ou o crime em bondade. E ante isso, nenhum homem ou mulher deve permanecer calado. O cúmplice silêncio dos anos 30 e 40 possibilitou o extermínio dos judeus na Alemanha nazista. A comunidade internacional não pode incorrer outra vez em semelhante erro, sobretudo quando sabemos que os governos das principais potências, sob a direção dos EUA, não farão absolutamente nada para deter essa carnificina porque, desde 1948 até hoje, têm sido cúmplices e partícipes necessários de quantos crimes tenha cometido o Estado de Israel. Se existe o que alguns chamam de "sociedade civil mundial”, esta deve manifestar-se agora, antes que seja demasiado tarde.
Concluímos essa breve reflexão citando as atualíssimas palavras de León Rozitchner, um grande filósofo marxista, judeu, argentino, falecido há pouco mais de um ano. Um mestre no sentido mais integral do termo, que no "Epílogo” de um notável livro de sua autoria, Ser Judío, perguntava-se:
"Que estranha inversão foi produzida nas entranhas desse povo humilhado, perseguido, assassinado para humilhar, perseguir e assassinar aos que reclamam o mesmo que os judeus haviam reclamado para si mesmos: Que estranha vitória póstuma do nazismo, que estranha destruição inseminou a barbárie nazi no espírito judeu? Que estranha capacidade volta a despertar nesse empoderamento dos territórios alheios, onde a segurança que se reclama é sobre o fundo da destruição e da dominação do outro pela força e pelo terror! Vê-se, então, que quando o Estado de Israel enviava suas armas aos regimes da América Latina e da África, já era visível a nova e estúpida coerência dos que se identificam com seus próprios perseguidores. Os judeus latino-americanos não esquecemos isso. Não esqueçamos tampouco Chatila e Sabra”.
Nota:
(1) Ver Walter Goobar, "Los verdaderos blancos de Benjamín Netanyahu”, en Miradas al Sur (Buenos Aires) Año 5. Edición número 235. Domingo 18 de noviembre de 2012.http://sur.infonews.com/notas/los-verdaderos-blancos-de-benjamin-netanyahu

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