Urbanista critica moradores que se opõem a estação de metrô em Ipanema e diz que linha favorecendo a Barra não é prioridade
FELIPE WERNECK
FELIPE WERNECK

Grupo contra estação afirma querer só preservar praça, mas, para arquiteta, 'árvore é desculpa'
Transtornos
"Falta amadurecimento para a vida em sociedade. O mix é que é bom. É natural reagirem, mas depois essas mesmas pessoas vão gostar de que o empregado possa usar o metrô, e o apartamento delas vai valorizar umas cinco vezes. É importante que as pessoas se coloquem, que a discussão evolua. Mas metrô é um benefício, elas estão sendo presenteadas. É como negar favela. Muitas pessoas não gostam de favela, mas preferem que o empregado more na Rocinha, na zona sul, e não em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
Higienópolis
"Achei muito bom o contramovimento que houve em São Paulo. Teve o movimento dos que não queriam o metrô. E depois o movimento das pessoas que tinham um pouco mais de noção de como é viver emsociedade e fizeram aquele churrasquinho.
Lucro
"O metrô está passando justamente na orla, de Ipanema até a Barra, porque vai ter demanda. Isso é muito interessante para o operador da linha, mas é péssimo para a cidade. Porque está tirando o transporte de quem mais precisa. Não é que seja ruim fazer essa linha, mas é uma questão de prioridade. Quem mora na orla pode pagar e vai se movimentar em outros horários além daquele de maior demanda. O operador da linha vai ter mais lucro.
Estratégia
"Existe uma estratégia, mas não é a melhor para a cidade. A prioridade deveria ser a área onde mora a maior parte da população. Na Barra ainda há muito terreno livre, de propriedade privada. Estão beneficiando quem, levando transporte de ótima qualidade para lá? Quem tem terreno livre, e não a cidade como um todo. Depois que passar Copa e Olimpíada, será que vamos ter uma economia que sustente novos investimentos? O momento certo para fazer o prioritário era agora. Foi o que Barcelona fez. Eles disseram: vamos investir onde a gente sabe que é difícil. Aqui é tudo meio esgarçado, não tem muito planejamento.
Zona norte
"O interesse privado está predominando nesses investimentos em direção à Barra. Senão, estariam investindo na zona norte (área mais pobre), em melhorar as estações e transformar os trens em metrô. A população não aguenta pegar os trens de subúrbio. O serviço é péssimo. Se o cidadão tem um pouco de dinheiro e um financiamento para comprar carro, ele paga R$ 250 por mês para viver com mais dignidade. A frota de trens no Rio tem mais de 60 anos. Tinha que pegar parte desse dinheiro e colocar na zona norte. São 2,5 milhões de pessoas. Seria mais importante que levar o metrô até a Barra, onde vivem 600 mil. O IAB tem uma posição clara. Defendemos o melhor para a cidade. Se há uma área onde mora a maior parte da população e que já tem infraestrutura, por que botar para o outro lado? É o bom senso. Mas existe o interesse imobiliário. A área do entorno do Parque Olímpico da Barra virou um grande canteiro de obras. Estão colocando nova infraestrutura no lugar errado. O projeto olímpico reforça a desagregação da cidade. Poderiam ter feito tudo na área do porto.
"O interesse privado está predominando nesses investimentos em direção à Barra. Senão, estariam investindo na zona norte (área mais pobre), em melhorar as estações e transformar os trens em metrô. A população não aguenta pegar os trens de subúrbio. O serviço é péssimo. Se o cidadão tem um pouco de dinheiro e um financiamento para comprar carro, ele paga R$ 250 por mês para viver com mais dignidade. A frota de trens no Rio tem mais de 60 anos. Tinha que pegar parte desse dinheiro e colocar na zona norte. São 2,5 milhões de pessoas. Seria mais importante que levar o metrô até a Barra, onde vivem 600 mil. O IAB tem uma posição clara. Defendemos o melhor para a cidade. Se há uma área onde mora a maior parte da população e que já tem infraestrutura, por que botar para o outro lado? É o bom senso. Mas existe o interesse imobiliário. A área do entorno do Parque Olímpico da Barra virou um grande canteiro de obras. Estão colocando nova infraestrutura no lugar errado. O projeto olímpico reforça a desagregação da cidade. Poderiam ter feito tudo na área do porto.
Trens
"A prioridade deveria ser transformar o serviço de trens e fazer uma rede com o metrô, interligando uma área que já tem infraestrutura e permitindo mais alternativas de mobilidade. Essa é a boa cidade. No Rio, a gente está refém do carro. E o metrô já está superlotado. Eles sabem que tem demanda e estão carregando mais a linha. As pessoas vão andar de metrô no Rio como sardinha em lata. Se hoje a demanda até Ipanema já está esgotada, imagina quando for até a Barra. É bem possível que já saia de lá cheio. O que pode melhorar é a operação, o intervalo hoje está em 5 minutos e pode chegar a menos de 2. Nos trens, a espera vai de 15 minutos a meia hora. Mesmo melhorando, o metrô vai chegar cheio na zona sul. Os operadores vão adorar, e os cidadãos vão ter um serviço péssimo. Nos trens, são levados como carne de açougue. Se podem, vão para o carro, porque o trem é degradante. É um modelo insustentável.
"A prioridade deveria ser transformar o serviço de trens e fazer uma rede com o metrô, interligando uma área que já tem infraestrutura e permitindo mais alternativas de mobilidade. Essa é a boa cidade. No Rio, a gente está refém do carro. E o metrô já está superlotado. Eles sabem que tem demanda e estão carregando mais a linha. As pessoas vão andar de metrô no Rio como sardinha em lata. Se hoje a demanda até Ipanema já está esgotada, imagina quando for até a Barra. É bem possível que já saia de lá cheio. O que pode melhorar é a operação, o intervalo hoje está em 5 minutos e pode chegar a menos de 2. Nos trens, a espera vai de 15 minutos a meia hora. Mesmo melhorando, o metrô vai chegar cheio na zona sul. Os operadores vão adorar, e os cidadãos vão ter um serviço péssimo. Nos trens, são levados como carne de açougue. Se podem, vão para o carro, porque o trem é degradante. É um modelo insustentável.
Modelo
"Nossas cidades cresceram em 40 anos o que cidades europeias demoraram 100. Foi muito rápido, com base no carro e sem planejamento. Até os anos 1940, o que guiou foi o trilho. Toda a zona sul foi aberta a partir do bonde. O primeiro túnel permitiu a incorporação de Copacabana. Nos anos 1960, muda-se para o vetor rodoviário. O Rio é fruto disso. O metrô replica o trajeto de ruas. Em Paris ou Londres, há uma rede que dá outras alternativas."
FABIANA IZAGA - PROFESSORA DA FACULDADE E ARQUITETURA E URBANISMO DA UFRJ E VICE-PRESIDENTE DO IAB-RIO
Nenhum comentário:
Postar um comentário