quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Os caminhos da palavra escrita


Texto publicado no Jornal Folha de S. Paulo em março de 1996, no caderno espacial sobre o Islã

NEUZA NEIF NABHAN
No estudo panorâmico da literatura árabe, deve-se considerar inicialmente a produção do período pré-islâmico -Al Jahilyah (do século 5º até as primeiras décadas do século 7º)- como fonte de conhecimento do saber tradicional.
A partir de 622, marco do islamismo, a literatura árabe desenvolve-se até os nossos dias refletindo, por um lado, traços e valores de diferentes culturas que marcaram o caminho da expansão do Islã e, por outro lado, os temas e os motivos que influenciaram os escritores árabes imigrantes na Europa e na América.
A expressão literária árabe no Islã dos primeiros tempos sugere valores que são demarcados por duas vias: o saber corânico (do Alcorão, livro sagrado do islamismo) -com princípios éticos reguladores do homem e da sociedade; e o saber tradicional, revelando um forte comprometimento com a palavra proferida.
Tradição oral
Na sociedade árabe, caracteristicamente gráfica, a manifestação oral -narrativas históricas ou literárias e poesia- desencadeou um fenômeno social com caráter livre e espontâneo e que se mantém vivo até hoje.
Esta tradição oral, no entanto, sempre foi recuperada por meio da escrita e, como exemplo, cito os "Poemas 'Dourados' ou 'Dependurados' " (Al Muallaqat), da época pré-islâmica, e os contos populares "As Mil e Uma Noites", organizados a partir do século 13, por meio de seus manuscritos.
Periodização
A literatura árabe, dividida em épocas, segue o rumo dos inúmeros fatos que marcaram sua história política e social.
Após a morte do profeta Maomé (632), quatro califas o sucederam (de 632 a 661), denominados de Rachidun (os "inspirados" ou "corretamente guiados"). É nesta época que o califa Utman, em 650, encarregou Zaid Ibn Tabit, o escriba do profeta Maomé, de organizar a cópia do Alcorão, considerado o primeiro texto em prosa com linguagem poética, ritmo, rima e vocabulário seleto.
Na sequência da história política do Islã, surge a dinastia omíada (capital Damasco: 660 a 750), de origem árabe. A partir desta dinastia, a antiga organização tribal passa para a monarquia centralizada e o império islâmico se estende pelo norte da África, Península Ibérica e Sicília. Do século 5º ao 8º, a literatura árabe é identificada como "pura" ou "nacional", uma vez que durante o processo de criação -forma e conteúdo- o autor se inspira no ambiente original, e os temas retratam a sensibilidade e a ética dos habitantes da Península Arábica: o deserto e o beduíno, as novas conquistas e a mudança de vida, as formas simples -tudo isso se transforma no instrumento para o gênio criador.
Na metade do século 8º, surgiu a dinastia abássida (capital Bagdá: 750 a 1258), de origem persa. E nos séculos 8º e 9º manifesta-se o esplendor deste califado por meio das reformas administrativas, do apogeu comercial e do notável desenvolvimento nas artes e nas letras.
Em 710, durante o processo de expansão do islamismo, os árabes entraram na Península Ibérica e os acontecimentos políticos, junto ao califado omíada em Damasco, resultaram na organização do emirado, que, aos poucos, tornou-se independente do Oriente e desenvolveu um processo particular de sucessão até o ano de 1492.
Durante este longo período de influência árabe na Andaluzia (sul da Espanha), floresceu importante centro da cultura do Islã no Ocidente. Os períodos da literatura andaluza (710 a 1492) e da literatura abássida (750 a 1258) são identificados como literatura árabe mesclada, pois nestas épocas a criação árabe tem inspiração persa e hispano-árabe.
A decadência do Islã acontece no período de 1258 a 1798, quando as capitais imperiais foram destruídas: Bagdá (no Oriente), Córdoba e Sevilha (no Ocidente). Neste momento, intensificaram-se as produções populares, os relatos de viagens e a historiografia.
A chegada de Napoleão ao Egito (1798) é considerada o marco para a identificação da fase do renascimento cultural, que continua até os dias atuais. A partir desta época, iniciam-se as versões de novelas, comédias e dramas, desenvolvendo-se uma terminologia literária, histórica e social que tem origem no Ocidente.

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