Alguns dias atrás me deparei com um bom texto sobre teses científicas no facebook, que fora publicado no Jornal o Estado de São Paulo em 1998, por Mário Prata.
André Celarino
André Celarino
O texto falava do quanto nos comprometemos com as “teses” e com que intensidade perdemos bons momentos da vida nos preocupando com umas 100 ou 200 páginas que pouquíssimas pessoas lerão e quase nenhuma achará legal.
Meu amigo, eu não sei quanto a você leitor, mas este que aqui vos escreve jamais abriu uma tese de mestrado ou doutorado para ler em casa, apenas em horário de trabalho e conto nos dedos as que me meti a ler por completo. É uma leitura chatíssima, travada, emoldurada, padrão, repetitiva, careta e muitos outros adjetivos, e aqui incluo a minha dissertação de mestrado também. Meu amigo, em casa, só literatura e romance, nada teses ou artigos.
É claro que algumas áreas conseguem escapar a esse padrão científico, ou pelo menos de tempos em tempos surgem algumas tentativas, caso da antropologia, arquitetura, ciências sociais, letras e em raríssimos momentos, a geografia. E por isso são penalizadas, as chamadas ciências humanas são as mais relegadas do ponto de vista de investimentos em pesquisa.
Outro contrassenso são os artigos científicos e os congressos. Vou começar pelo segundo (?).
O congresso, a grande maioria, hoje é uma desculpa para orientadores descarregarem uma parte do dinheiro que recebem de financiamentos. Além disso, reproduzem uma mecânica de pôster ou apresentação oral e resumo nos anais do congresso. Geralmente os internacionais até que mantém algum nível de seriedade, pois muitas pessoas de diferentes países se encontram e geralmente é produtivo. Dos nacionais, aqueles tradicionais, 90% não prestam. No caso dos alunos, é sempre bom, ganham umas três ou quatro linhas no Lattes, o que também não agrega nada. Se tudo isso já não bastasse, o preço dos Congressos é/está um absurdo. O maior exemplo disto foi o congresso de Geologia de 2012 em Santos-SP, onde a inscrição para não sócios estudantes de pós graduação era próximo a 700 reais, com direito a show do titãs… A 700 reais o congresso, temas que geralmente são fechados a uma comunidade restrita, a ciência está sendo socialmente difundida? Como? Os congressos estão caros porque agora quem os organiza não são mais os funcionários, alunos e professores, mas sim empresas.
Quanto aos artigos científicos, aí está outro gargalo dominado pelo dinheiro. Amigo, você pode ser o novo Copérnico e ter a prova para provar que é o Sol que gira em torno da Terra e não o contrário, só que sem uns 1000 doláres pra publicar, esquece, sua ideia não vale nada ou vai cair numa revista B3, que segundo alguns critérios, não vale nada. Outro contrassenso, talvez o maior, os acessos às revistas são limitados e pagos. O ativista e hacker Aaron Swartz, que se matou essa semana, era processado por várias entidades científicas por compartilhar de graça artigos que seriam pagos e restritos.
Bom, não gosto de posts longos então acho que o recado foi dado. A ciência está muito chata, neste formato em que está sendo feita, pelo menos no Brasil, é um saco. É igual a revista Veja, você sabe qual é o formato e qual conteúdo esperar, a diferença é que a ciência mente com menor frequência.
André Celarino doutorando em Geografia (Unicamp).

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