Antes, havia ousadia. Hoje, parece haver conservadorismo pedagógico
José Pacheco
José Pacheco
Essa velha é uma chata! - Com a sentença sussurrada para o colega do lado, o professor se retirou do auditório. Mas já há muito tempo se manifestava incomodado. A professora considerada "chata" perguntava aos jovensprofessores: Por que razão continuais dando aula, em escolas com turma e classes?
Significativa parte da nova geração parece ser pedagogicamente mais conservadora do que os professores da geração do Lauro de Oliveira Lima, que, na década de 1960, afirmava: Não se compreende mais escola como local onde são dadas aulas. O programa não é um rol de assuntos que devem ser expostos a uma classe. Não tem sentido a divisão do tempo escolar em horas, aulas e lições com tempo rígido e uniforme.
Acredito que as novas gerações deveriam revisitar o Lauro. Nos seus mais de 90 anos de idade, parece bem mais jovem do que muitos docentes que encontro por aí, quando escreve: A divisão da escolaridade em anos letivos, semestres é mera tradição sem base científica (...) Na aula, faça perguntas, perguntas! Mesmo que o professor não goste e os colegas reajam. Só um professor completamente inepto ditará aulas.
Maria Nilde, a idealizadora, alimentava a esperança de que, um dia, os responsáveis pela educação brasileira eliminariam o precipício que separa o mundo das intenções educacionais e a realidade do que ocorre no ensino público. E sublinhava o objetivo da sua escola: levar o jovem à descoberta da sua personalidade. A ditadura não perdoou a "ousadia". Nilde acabou nas mãos do DOPS. A ditadura acabou com a Escola Vocacional.
Regresso aos escritos do Lauro: A escola, como se apresenta atualmente, é uma antítese da vida. Deve ser repensada, abdicando do seu papel predominantemente informativo (...) Enquanto fala o professor, não está havendo aprendizagem, mas mera informação. A falta de oportunidade de intercâmbio leva à subordinação emocional e intelectual, preparando o indivíduo, no plano político, para a ditadura e, no plano intelectual, para o argumento da autoridade. Sociologicamente, leva a comunidade ao imobilismo, por falta de oportunidade de criação e reestruturação de fatos. Proféticas palavras, há 50 anos escritas.
José Pacheco é educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)

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