terça-feira, 27 de agosto de 2013

Zissi‏. por Jacques Gruman


Zissi‏

Este poema é dedicado a Manuel Bandeira, sacerdote maior, que adotou o Menino, na alegria e na tristeza: "Depois da poeira, a porta que rangia. / Como os dentes que consertava por ofício / Mas será que ninguém dá um jeito nesse barulho, que irrita e vicia?"
A Manuel Bandeira, sacerdote maior, que adotou o Menino, na alegria e na tristeza.



Depois da poeira, a porta que rangia.

Como os dentes que consertava por ofício.

Mas será que ninguém dá um jeito nesse barulho, que irrita e vicia ?

Vencido o muro empenado, a tortura dos degraus.

Metafísicos. Iam para o alto, mas, desgovernadas naus,

Movediças, desciam para a tristeza e o desvario.



Degraus viscosos, oh tende piedade,

Limpam o barro e deixam, intacta, a ancestral saudade.

Todo dia, sempre, aquela

E

  S

    C

      A

        D

          A



Sonhava sonhos de alpinista, everestiando de olhos abertos.

Nunca, porém, fincou bandeira no último degrau,

Pano que enxugaria suas lágrimas e aliviaria seus desacertos.



Com o tempo, transformou-se no Espírito que Anda,

Sem imortalidade, nem pigmeus bandar.

Justiceiro desarmado. Bolo que desandou.



Um dia, flutuou.

A sola gasta, objeto inútil, foi depositada,

Delicadamente,

No primeiro degrau.



Sobrevoa rotinas e apaga rastros. Deixa os dentes

E a melancolia

Para trás.

Finalmente,

O último degrau.



Salta para os olhos de Regina, anjo triste,

Que nunca mais pararam de chover.

A umidade, teimosa, insiste.

Lubrifica a porta, que para de ranger,

E a Vida, triunfante, desliza para as mãos do Menino,

Que, abraçado ao Zissi, toma posse da memória

Tantos anos emperrada.

(*) Engenheiro químico, é militante internacionalista da esquerda judaica no Rio de Janeiro.

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