terça-feira, 13 de agosto de 2013

Favela no império


votar
Cidades acampamentos ressurgem nos EUA,repetindo fenômeno da Grande Depressão dos anos 30.

Redação
Nos Estados Unidos, o resultado da crise econômica global que afetou o mun­do todo a partir de 2008 é um índi­ce de pobreza típico do Terceiro Mundo: 15% da população do País vivem em condições precárias, o que dá 46,2 milhões de pessoas, índice aferido no final de 2012 pelo Departamento de Habita­ção e Desenvolvimento Urbano do governo es­tadunidense. A primeira sequela do aumento da pobreza, também como ocorre nos países subdesenvolvidos, é a falta de moradia que tem feito ressurgir e inflar as chamadas tent cities  ou cida­des acampamento. São o último recurso de sem tetos, dos novos desempregados e de famílias que antes eram classe média, mas que perderam não apenas seus empregos, como também suas casas, engolidas pela fome do sistema financeiro no es­cândalo das hipotecas, um dos elementos que de­tonaram a crise de 2008.
As tent cities  somam cerca de 30 em todo o País, repetindo um fenômeno já visto na Grande Depressão nos anos de 1930, quando os acampa­mentos de sem teto e desempregados eram chamados dehoovervilles, nome emprestado do en­tão presidente Herbert Hoover. O número, porém, varia, já que algumas tent cities surgem, mas são fechadas pelos governantes locais, algumas vezes com a ajuda nada bem educada da polícia. Em geral, são feitas em parques públicos e em áre­as na periferia ou rurais e, como em todo agrupa­mento precário, sofrem com a falta de infraestrutura, como água, energia elétrica ou esgoto.
O fenômeno, registrado na literatura de John Steinbeck, As Vinhas da Ira,  preocupa gover­nantes, mesmo com leve recuperação da econo­mia do País. Segundo dados do censo oficial, de 2010, cerca de 650 mil estadunidenses não têm onde morar, número que, embora tenha se man­tido estável nos últimos 12 meses, resiste a di­minuir. Em dezembro de 2012, a expectativa de prefeitos de 25 cidades que integram a Confe­rência dos Prefeitos dos Estados Unidos, é de um aumento da fome e da necessidade de ajuda ali­mentar no próximo ano.
No documentário Camp Take Notices, disponí­vel também na internet, realizado em 2012 para retratar a história da tent city em Ann Harbor, no estado de Michigan, o jornalista e professor da Universidade de Michigan, Anthony Collings, de­parou-se com a situação da maioria dos acam­pados: abandono pelo poder público, efêmera e demagógica visibilidade de seus problemas pelas empresas midiáticas e luta cotidiana contra a de­gradação humana. No Estado, a situação de Detroit é emblemática: a cidade, que foi ícone da pu­jança industrial estadunidense, mais parece uma cidade fantasma, com bairros inteiros abandona­dos às moscas depois que as montadoras, que fi­zeram seus anos de glória, deixaram a capital - a população caiu de mais de 1 milhão para cerca de 250 mil pessoas.
Michael Stoops, diretor da Organização Comu­nitária de Coalização Nacional para os Sem Teto (Community Organizing National Coalitionforthe Homeless), informa que as tent cities pararam de crescer porque as cidades não têm estrutura para organizá-las, embora na sua opinião elas são a melhor opção para enfrentar o problema da falta de moradia. “Metade da população de Rua dos Es­tados Unidos não está em acampamentos organi­zados, mas se reúnem em agrupamentos menores, com quatro a cinco pessoas”, explica. O fecha­mento do Take Notice,retratado no documentá­rio, infelizmente não é um fato isolado. Há vários relatos parecidos no International Homeless Fó­rum, todos marcados por tristeza e desesperança.
Take Notice (em português, “Olhe para nós”), em Ann Harbor, surgiu em 2008 e abrigou de 20 a 70 pessoas, dependendo da estação do ano, majoritariamente desempregados da classe trabalha­dora ou classe média empobrecida após a crise, além de alguns veteranos do exército norte-ame­ricano, Segundo Stoops, não existe um perfil es­pecífico dos sem-teto atualmente. “Qualquer um pode perder sua moradia, brancos, negros, famílias inteiras”, conta. Mas nas tent cities, a maio­ria - 75% - é de homens entre 35 e 55 anos. “Não são pessoas com problemas crônicos de pobreza, mas que perderam suas casas com a crise e que não gostariam de ir para abrigos”, afirma Stoops.
Um estudo de campo feito por George Saunders no acampamento H. Street, em Fresno, na Ca­lifórnia, destaca os altos índices de demência en­contrados nestes locais, apontados por ele como a razão para a dificuldade em separar a realidade dos exageros e fantasias nas histórias que ouviu. “A relação entre doença mental e residência na área é digno de um estudo mais aprofundado. Em alguns casos, a doença mental parece ser a razão para a residência na área. Em outros, a moradia numa tent city parece estar causando o desequilí­brio mental nos indivíduos que, em um ambiente menos estressante, não seriam doentes”, escreve Saunders. Essa prevalência também aparece nas pesquisas da organização dirigida por Stoops, que indicam que 55% dos moradores têm algum tipo de deficiência, sendo que as doenças mentais apa­recem como a quarta maior prevalência.
O acampamento de Ann Harbor foi fechado pela polícia em junho de 2012, com a remoção de todos os seus mo­radores e o cercamento da área à bei­ra da estrada para evitar novas insta­lações. De acordo com o que registra Collings em seu documentário, “alguns dos maiores problema enfrentados pe­los moradores de Take Notice eram o alcoolismo e a rejeição da comunidade ao redor do acampamento”, retrato que, em muitos casos, se assemelha ao pre­conceito visto também no Brasil em re­lação aos favelados.
Nenhum dos dois principais partidos políticos dos Estados Unidos, Republicano e Democrata, manifestou qualquer tipo de apoio aos acampados que, após a remoção, retomaram para as ruas e abrigos temporários - tampouco se manifestam em rela­ção a outras tent cities. Um dos ex-moradores de Ann Harbor aparece no Fórum Internacional de Sem Tetos com o codinome Scared 1959 e publi­ca um post seis meses depois avisando que tinha, finalmente, conseguido alugar um apartamento e estava deixando a vida de sem-teto. Um caso de “final feliz”, como gosta o cinema de Hollywood, mas que não é para a maioria.
Michael Stoops conta que em algumas cida­des, os governos municipais procuram apoiar a criação de tent cities. Há uma discussão pública na Costa Oeste sobre onde instalar estes acampa­mentos de forma segura, seja em terra privada ou pública e em Portland, Oregon, o município tem dado apoio efetivo. “Eles não divulgam publica­mente esse apoio porque não querem dizer que o melhor que a sua cidade ou comunidade pode fa­zer é colocar pessoas em barracas, mas essa é a realidade, simplesmente não há moradia com preço acessível ou cama nos abrigos para todos”, diz ele.
Segundo o diretor da Coalizão, que já foi sem-teto, os acampamentos se mantêm com doações individuais. “As pessoas mandam cheques. Há desde indivíduos até fundações e corporações”, conta. Da mesma forma como no Brasil, a solida­riedade é uma marca da vida nas tent cities, nas­cidas da luta contra a repressão policial e da experiência do coletivismo.
Os comentários nas listas de discussões, blogs e sites das tent citiesindicam que a vida em acam­pamentos é muito parecida com a dos moradores de rua paulistanos. A lista de necessidades regu­lares dos moradores do Tent City 4, por exemplo, na periferia leste de King County, em Seattle, in­clui comida (café, creme, leite, açúcar, chá), saco de lixo, papel higiênico, meias, botas e sapatos. E avisa que eles terão de mudar o acampamento de lugar. O acampamento tem 40 moradores e a lis­ta de discussão relata a ocorrência de um estupro de menor no local. As discussões que se seguiram a respeito do sistema de segurança acabaram di­vidindo o grupo. Uma parte queria investigar o antecedente criminal de todos os moradores, já que o culpado pelo estupro era reincidente e pro­curado pela polícia; enquanto outra parte consi­derava essa medida uma invasão de privacidade.
A violência e a criminalidade nesses acampa­mentos é uma das histórias que o pesquisador da Califórnia George Saunders cita como difíceis de mensurar. Saunders conta que foi recebido com histórias macabras de invasões noturnas de vi­ciados em crack, que roubariam “até mesmo a sua aliança de casamento, com o dedo junto se fosse necessário”, imediatamente desmentidos no relato seguinte. No Fórum, há pessoas que con­sideram a vida nos acampamentos agradável e harmoniosa, apesar das dificuldades e experiên­cias bem sucedidas como a do acampamento cha­mado Dignity Village, em Portland, no estado de Oregon - aqui, é preciso mediar a avaliação com a cultura estadunidense, cujos habitantes não se importam em morar em trailers, por exemplo. Ini­ciado em 2000, atualmente Dignity tem casas de madeira, ao invés de barracas de lonas, instaladas sem-teto que vivem na cidade e dormem espalha­dos pelas ruas, sob marquises e pontes.
Em 1941, durante a II Guerra Mundial, quan­do o sucesso dos Estados Unidos no conflito não era um fato, circulava nas altas rodas dos dirigen­tes políticos e grandes capitalistas norte-america­nos a expressão: “Nós temos Detroit”. Com isso, faziam referência à vantagem que o País pode­ria adquirir no conflito, dado o enorme complexo industrial e a força de trabalho ali concentrada, bem como a possibilidade de converter rapida­mente a produção metalúrgica, especialmente au­tomobilística, em produção de armamentos e tan­ques de guerra. A recuperação econômica da crise que estourara em 1929 coincidia com o tempo de guerra, e Detroit era considerada a esperança pro­dutiva e tecnológica dos Estados Unidos, em um ciclo de crescimento que perduraria até meados dos anos 1970 e a crise do petróleo.
Atualmente, Detroit não é senão a sombra do seu passado. Aliás, qua­se uma espécie de assombração na­cional. A profunda e progressiva desindustrialização pela qual os Es­tados Unidos passou a partir dos anos 1980, quando Ronald Reagan imple­mentou o novo liberalismo financei­ro, e seu caráter crônico depois da crise financeira de 2007, atacou a cidade-automóvel em cheio. Dados do Bureau of Labor Statistcs (Escritório de Estatísticas do Trabalho) mostram que na região de Detroit, a taxa de desemprego, atualizada em maio de 2013, é de 9,3°/o da força de trabalho, bem superior ao índice nacional, em pouco mais de 7°/o. Além da destrui­ção do parque industrial, a profunda cri­se fiscal local e a recente crise imobiliária leva­ram à migração da força de trabalho para outros estados, desertificando partes inteiras da cidade.
Um retrato da cidade fantasma, disponível na internet, foi feito entre 2005 e 2009 pelos fotógra­fos franceses Yves Marchand e Romain Meffre, que percorreram a capital de Michigan semanal­mente, registrando prédios, hotéis, delegacias de polícia, igrejas, bibliotecas e teatros completa­mente vazios e destruídos. As imagens impres­sionantes de uma grande cidade fantasma de­ram origem ao livro Detroit em Ruínas. Este, nas palavras dos fotógrafos, revela imagens de “uma cidade abandonada para morrer”. Em nada se parece com a cidade na qual, em 1913, Henry Ford montou sua primeira planta para pro­dução do modelo Ford I e para a qual contratou 90 mil operários. Hoje em dia, a mesma compa­nhia contrata pouco mais da metade deste núme­ro e é a principal empregadora da região.

Nenhum comentário:

Postar um comentário