segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O jardim de lá


Para correspondente britânico, terroristas de grupos como o Al-Shabab- 'a juventude', em árabe-, que atacou shopping em Nairóbi, não serão derrotados só com o uso da força

Ivan Marsiglia

Audiência. Crianças de rua quenianas acompanham o confronto - Jerome Delay/AP

Audiência. Crianças de rua quenianas acompanham o confronto
Na quinta-feira, quando as forças de segurança do Quênia enfim derrotaram o grupo que se apossara de um shopping center na capital, Nairóbi, o saldo final foi de 72 mortos e quase 200 feridos. As razões do atentado, no entanto, estavam a 1.200 km dali, na Somália, país vizinho conflagrado por guerras civis desde a década de 1990, com raros intervalos de relativa estabilidade. Extremistas islâmicos do grupo Al-Shabab não aceitam a presença de tropas etíopes e quenianas, apoiadas por nações ocidentais, na região sul do país. “Não me parece apenas coincidência que o shopping escolhido pelo Al-Shabab tenha esse nome: Westgate”, diz o escritor e correspondente de guerra britânico James Fergusson – chamando a atenção para a expressão, que pode ser traduzida como “porta para o Ocidente”.

Fergusson é daqueles raros jornalistas atentos ao significado das palavras. Radicado em Edimburgo, na Escócia, e autor de The World’s most Dangerous Place: Inside the Outlaw State of Somalia (Transworld, 2013), impressionante retrato da região que há mais de duas décadas não sabe o que quer dizer paz, ele alerta para o sentido etimológico do terror que abalou Nairóbi. “A chave está no próprio nome ‘Al-Shabab’, que, em árabe, significa ‘a juventude’”, diz, a certo ponto da entrevista que você lê a seguir.

Nela, o jornalista sustenta que a política americana para a Somália tem sido desastrosa desde a administração Bill Clinton e se agravou com a “guerra ao terror” de George W. Bush. Considera que seria um erro retirar as tropas quenianas do país a esta altura dos acontecimentos. Explica por que a região se transformou num polo produtor (e importador) de terroristas, inclusive estrangeiros, como a britânica Samantha Lewthwaite, de 29 anos, a “Viúva Branca”, suspeita de envolvimento no ataque. E sustenta que quando governos locais e a comunidade internacional falham na missão de garantir condições mínimas de existência aos jovens dessas regiões, acabam por empurrá-los diretamente para os braços dos radicais islâmicos.

Logo após o ataque ao shopping, analistas especularam se o objetivo do Al-Shabab é empurrar as forças militares quenianas para fora da Somália ou, ao contrário, provocar uma presença ainda mais ostensiva, a fim de obter apoio popular ao grupo terrorista. Qual sua opinião?

James Fergusson-Penso que foi, antes de tudo, um ato de desespero. O Al-Shabab perdeu sua última grande cidade, Kismayo, para os quenianos em 2012, e tem perdido terreno para a Amisom (Missão da União Africana para a Somália, força de paz autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU) no país inteiro desde então. O grupo terrorista sofre de divisões internas e seu líder, (Ahmed Abdi) Godane, tem assassinado seus rivais – alguns, nomes conhecidos na organização. É improvável que o ataque em Nairóbi visasse a forçar a retirada do Quênia do sul da Somália. E, bem ao contrário, ele deverá fortalecer a decisão queniana de estabelecer uma zona de segurança ali, uma vez provado que a permanência do Al-Shabab na região representa uma ameaça direta aos interesses do Quênia. Meu palpite, inclusive, é que a participação das Forças Armadas quenianas na Amisom ficará mais popular, e não menos, em ambos os lados da fronteira.

O que os terroristas queriam então?
James Fergusson-
Suspeito que o ponto tenha sido reestabelecer a visão de Godane para o Al-Shabab: como uma força terrorista internacional, ao estilo da Al-Qaeda, fortalecendo suas credenciais de grande líder. Foi uma ação claramente pensada para atrair o máximo possível de impacto na mídia – no que certamente foi bem-sucedida. A estratégia do grupo durante muito tempo vinha sendo criar um fosso entre a maioria cristã queniana e a minoria muçulmana, de aproximadamente 12% da população. Fomentar tensões etnorreligiosas que desestabilizem o país, especialmente ao longo da chamada Costa Suaíli, predominantemente muçulmana, e em seguida o continente africano. Mas é uma aposta que pode não dar resultado: nos últimos dias o Quênia deu claros sinais de unidade em torno do presidente Uhuru Kenyatta e de repúdio à ação dos terroristas.

A natureza do atentado – quase suicida considerando-se que todos os extremistas terminariam cercados no shopping para serem mortos ou capturados e torturados pelas forças de segurança quenianas – não foi uma demonstração de força?

James Fergusson-
A maior parte dos terroristas era de estrangeiros, não locais quenianos ou cidadãos somalis – aquela categoria de jihadistas que estamos acostumados a ver buscar martírio islâmico. Foi uma surpresa para mim que tantos deles tenham se deixado capturar em vez de lutar até a morte – como você diz, o ataque tinha de fato todos os componentes de uma operação de martírio. Isso não prova, entretanto, que o Al-Shabab esteja se fortalecendo. Pode-se inclusive dizer que ele teve de escolher um alvo fácil como um shopping center no Quênia justamente porque não tinha condições de realizar uma ação espetacular como essa na própria Somália.

Autoridades suspeitam da participação de uma cidadã britânica, Samantha Lewthwaite, conhecida como ‘Viúva Branca’, na organização do ataque. O Al-Shabab é conhecido pela facilidade com que recruta ocidentais para seus quadros. Por quê?
James Fergusson-
Porque é a franquia mais bem-sucedida da Al-Qaeda no continente africano, facilmente acessível pelo Quênia, pela península saudita e, nos últimos tempos, até pela Turquia. Mas também pelo tamanho imenso da diáspora somali mundo afora. Existem talvez 10 milhões de somalis espalhados por diversos países, 2 milhões vivendo em grandes comunidades nos EUA, Canadá, Austrália, Reino Unido, Suécia, etc. Há um trânsito intenso entre a diáspora e o país natal, tanto em termos de pessoas como de remessa de dinheiro, que se soma à facilidade com que somalis ocidentalizados podem retornar ao país. Sem falar na fronteira porosa que existe entre o Quênia e a Somália. Tudo isso contribui. E, se por causa da história de colonização o país não mantém relações diplomáticas com o Reino Unido, dezenas de milhares de cidadãos britânicos ainda vivem lá – fazendo da Somália um bom lugar para foras da lei se esconderem. Como foi o caso, por pelo menos dois anos, de Samantha Lewthwaite.

O que a política americana para a Somália tem a ver com a situação que vemos agora?
James Fergusson-
A intervenção direta dos EUA na Somália ainda no início dos anos 1990, em apoio às Nações Unidas, levou ao desastre do Black Hawk Down (quando, em outubro de 1993, durante a guerra civil no país, uma força de elite dos EUA foi enviada ao local, teve dois helicópteros UH-60 Black Hawk derrubados e o que era para ser uma missão rápida virou uma batalha de 15 horas, com 19 soldados americanos mortos e outros 73 feridos) e à decisão, iniciada pelo presidente Clinton, de retirada completa do país, abandonando-o à própria sorte. E a guerra civil de clãs somalis, iniciada com a deposição do ditador Siad Barre em 1991, prosseguiu sem controle. Desde então, a política americana para a região não serviu bem ao país. O único período de relativa prosperidade para toda uma geração lá foi, paradoxalmente, o governo da União das Cortes Islâmicas (UCI), entre 2004 e 2006. No entanto, depois do 11 de Setembro os EUA sob Bush não puderam mais engolir o regime islâmico e procuraram derrubá-lo, apoiando de maneira velada uma invasão pela Etiópia. A UCI desmoronou, mas uma resistência nacionalista se aliou à ala jovem do antigo governo – que virou o Al-Shabab e mostrou-se violentamente antiamericana, como a UCI nunca foi. Nesse sentido, o Al-Shabab é um inimigo que os próprios americanos criaram.

E a sociedade queniana, como está hoje?
James Fergusson-
Tampouco está em boa forma, embora o principal foco de tensões sociais não seja entre muçulmanos e cristãos, que se entendem relativamente bem ali. O problema é entre tribos. Diversos políticos quenianos estão sendo julgados em Haia por incitar a violência intertribal após as eleições presidenciais de 2007. Há anos que a região norte do país é particularmente instável, problema exacerbado pela presença do campo de refugiados de Dadaab, o maior do mundo, com uma população de 450 mil somalis. Cerca de 40% dos quenianos vivem na pobreza absoluta e 75% trabalham na agricultura. Apesar disso, o PIB cresce a uma taxa superior a 4% ao ano, com o florescimento de uma ativa classe média urbana. O preço dos imóveis em Nairóbi disparou espetacularmente em anos recentes. E o país mantém posição de destaque na África oriental, com uma economia impulsionada pelo turismo e o mercado financeiro. Embora o gap entre ricos e pobres esteja aumentando, há uma esperança entre os locais de que toda essa atividade econômica permita a ascensão de ao menos uma parte da sociedade que vive no atoleiro.

É por isso que um shopping frequentado pela classe média queniana foi o alvo escolhido pelos terroristas?
James Fergusson-
O shopping Westgate foi construído em 2007 e é um símbolo do “novo Quênia”, muito valorizado por essa crescente classe média de Nairóbi, particularmente pela grande comunidade asiática. Shoppings centers oferecem ar condicionado e grifes famosas, representam um aperitivo para a vida boa que o Ocidente promete. E não me parece apenas uma coincidência que o shopping escolhido pelo al-Shabab tenha esse nome: Westgate (algo como “porta para o Ocidente”). Para quem conhece Nairóbi, entrar naquele ambiente luxuoso causa espanto – você tem que fazer um esforço para acreditar que ainda está no Quênia.

Em sua opinião, as Forças Armadas do Quênia deveriam se retirar imediatamente da Somália ou isso poderia ser interpretado como uma vitória para os terroristas
James Fergusson-
Certamente seria interpretado como uma vitória do terrorismo. E é muito improvável que aconteça. A Operação Linda Nchi (cooperação entre as Forças Armadas do Quênia, da Etiópia e da Somália) é a primeira missão militar queniana no exterior e Nairóbi embarcou nela por boas razões. Há muito em jogo do ponto de vista do orgulho militar nacional. Seria absurdo retirar-se agora da Somália, depois de tanto esforço investido e dos resultados efetivos que a operação conquistou.

O que as grandes nações ocidentais podem fazer para minimizar as tensões e prevenir novos ataques?
James Fergusson-
O Al-Shabab tem facilidade de atrair uma parcela da juventude somali por causa da falta de um governo legítimo na região. É só quando governos fracassam em sua missão de prover as condições básicas de existência – água, segurança, empregos, educação –, privilegiam clãs em detrimento de outros, praticam a corrução, a inépcia e a indiferença, que o islamismo radical se transforma numa alternativa atraente. Organizações como o Al-Shabab jamais serão totalmente derrotadas enquanto essa realidade não mudar. Consequentemente, as nações ocidentais deveriam colaborar intensamente para que o governo de Mogadiscio tenha êxito nessa tarefa. Como na Primavera Árabe em geral, o grande desafio do Ocidente é um desafio demográfico. A chave está no próprio nome “Al-Shabab”, que, em árabe, significa “a juventude”. O uso da força, sozinho, não basta. Encontrar maneiras de responder aos anseios legítimos desses jovens privados de seus direitos no mundo é um problema de todos nós. 

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