sexta-feira, 23 de março de 2012

EDUCAÇÃO RURAL TEM ESCOLA IDEAL NO ES


A GAZETA 5-9-1991
A imprensa nacional dá um grande destaque ao Ciep, que é uma nova maneira de ver a educação, trabalho implantado no primeiro mandato do Governador Leonel Brizola do Rio de Janeiro. Agora novamente volta o sistema Ciep, onde o aluno tem um atendimento integral na escola, com a possibilidade do governo Collor de Mello encampar a idéia e construir um total de 5.000 Cieps em todo Brasil. Para o problema urbano da educação, a decisão de apoiar a iniciativa merece o apoio de todos.

Hoje no Brasil, mais urbano do que rural, os problemas das cidades geralmente merecem mais destaque, mais verbas e mais atenção do que os problemas rurais. Na educação está situação também é verdadeira.

As informações que temos é que o Governo Federal, ao apoiar o sistema Ciep, mudaria o seu nome para Casa Comunitária, uma maneira sutil de dissimular a adoção de uma idéia.

No Espírito Santo há no meio rural um sistema escolar que funciona há 23 anos, é a Escola Família Agrícola (EFA) do Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (MEPES) fundado pelo jesuíta italiano Humberto Pietrogrande com a finalidade de formar as pessoas para que elas continuem vivendo e trabalhando no campo. A idéia foi uma ação no sentido de estancar a migração para os centros urbanos e daí para a marginalidade. Campo, cidade e marginalidade: três passos muito conhecidos da realidade brasileira.

O sistema de ensino do Mepes tem como ponto de partida a alternância, isto é, um tempo o aluno passa na escola e outro tempo na sua casa, em família. No 1º grau a alternância é de sete dias e no 2º grau passa para 15 dias. Ela evita a perda de contato do jovem com a sua casa, com a sua realidade.

Quando o jovem vai para casa ele leva tarefas para desenvolver junto com a sua família e com sua comunidade, que é chamado de plano de estudo. Fazer um levantamento histórico da ocupação da propriedade, da origem da família, do trabalho da cooperativa e do sindicato, são temas do plano de estudo. Uma síntese da realidade. É neste momento, o da realidade, que a compreensão se torna mais franca e mais aberta. É nas mesclagens de opiniões e de realidades que a EFA tem o seu grande momento.

Hoje já são centenas de ex-alunos que continuam no meio rural, lutando diariamente para serem verdadeiros agricultores e não potenciais migrantes. A manutenção deste esquema de ensino se dá com a colaboração de prefeituras, Governo do Estado e também com recursos das famílias, que custeiam a alimentação durante o tempo que o aluno fica na EFA. As construções, bem como a pequena propriedade onde está a EFA, são obras vindas quase que exclusivamente das famílias rurais.

Por um determinado tempo o Mepes recebeu ajuda financeira de um grupo de amigos do Padre Humberto, que moram na cidade de Pádova, na Região do Veneto, Norte da Itália, de onde veio a maioria dos imigrantes italianos para o Estado. Lá existe a Associação dos Amigos do Estado do Espírito Santo (AES). Hoje o Mepes é mantido basicamente com recursos locais, mas a AES continua ajudando o Mepes e atendendo a outras regiões do Brasil mais carente.

Pois é, enquanto se começa a discutir a construção de 5.000 Cieps, uma associação da idéia de Leonel Brizola com os recursos do Governo Collor como uma solução para a educação urbana, no Estado já há uma solução para o problema da educação rural.

Se a idéia da educação diferente deu certo no Espírito Santo e hoje não é mais uma experiência, mas sim um modelo sólido, deve-se saber que as dificuldades para o seu financiamento continuam grandes. Os deslocamentos dos dirigentes do Mepes em busca de recursos nas prefeituras e no Governo do Estado constituem peregrinação constante, entra ano, sai ano. Quem visita uma escola do Mepes nunca verá um reforma sendo feita por estar o imóvel deteriorado, como vemos nas redes públicas municipal e estadual. Verá na verdade ampliações com a finalidade de se atender a um número sempre crescente de interessados na educação diferente que não separa o jovem da sua realidade e da sua família.

Hoje, o Espírito Santo tem uma escola rural que não é passaporte para o êxodo rural. As dificuldades do Mepes não são pequenas, mas não constituem problema para levar os mepianos ao desânimo, muito pelo contrário, são estímulos e sinais de que o trabalho é árduo difícil. O Mepes com 23 anos continua formando agricultores conscientes de suas responsabilidades. A EFA é uma escola integral e assim deve ser vista e apoiada por todos.

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