terça-feira, 18 de setembro de 2012

Império Romano: fronteiras do passado


As muralhas nas divisas foram o início do fim de Roma

Andrew Curry
Ruínas Argelinas, império romano
Com os olhos pregados no chão, cachimbo na mão, Hüssen – pesquisador do Instituto Arqueológico Alemão – cruza a estradinha e embrenha- se pela vegetação rasteira. A 50 metros da estrada, quase deixa passar um monte de terra com cerca de 1 metro de altura e 2 de diâmetro. Juncado de pedras brancas e achatadas, ele forma uma linha reta pouco natural no piso da floresta.
Quase 2 mil anos atrás, essa era a linha que separava o Império Romano do resto do mundo. Ali na Alemanha, o montículo é o que resta de uma muralha que chegou a ter 3 metros de altura, estendendo-se por centenas de quilômetros e protegido pelo olhar vigilante de soldados romanos em torres de observação.
O muro deve ter sido algo chocante nessa área remota e desolada, mil quilômetros ao norte de Roma. “Aqui, a muralha era rebocada e pintada”, afirma Hüssen. “Tudo era nítido e preciso. Os romanos tinham uma ideia clara de como deviam ser as coisas.” Estudantes de engenharia mediram o grande muro em outro local e constataram um trecho de 50 quilômetros de extensão com um desvio de apenas 92 centímetros.
Hüssen vira-se para o norte, dando as costas ao Império Romano. A 200 metros de distância, logo após uma estreita campina revolvida por javalis selvagens e atravessada por um regato rumorejante, a colina seguinte eleva-se como um muro verde. “Aqui é a divisa”, diz ele, “e no outro lado há uma maravilhosa vista do nada.”
Uma rede de muralhas, rios, fortalezas em desertos e torres de vigia em montanhas assinala os limites do Império Romano. Em seu auge, no século 2 d.C., as tropas romanas estavam encarregadas de patrulhar uma linha de defesa que se estendia do mar da Irlanda até o mar Negro, assim como através do norte da África. O Muro de Adriano, na Inglaterra, talvez o trecho mais conhecido desse intrincado sistema defensivo, foi incluído, em 1987, no Patrimônio da Humanidade, da Unesco. Em 2005, uma extensão de 550 quilômetros na divisa alemã também foi incorporada ao monumento.
Especialistas em preservação esperam acrescentar fragmentos remanescentes de 16 outros países. É provável que o esforço internacional ajude a esclarecer uma questão espinhosa: afinal, por que os romanos construíram essas muralhas?
A delimitação e a defesa de fronteiras também são uma obsessão em nossa época. Enquanto políticos debatem a construção de um muro entre os Estados Unidos e o México, e exércitos defrontam-se na faixa de terreno minada entre as duas Coreias, o problema dos imperadores romanos continua relevante. Entender por que eram obcecados em suas fronteiras – e o papel dessa fixação no declínio do império – talvez nos ajude a perceber melhor o nosso mundo.
Desde 500 a.C., Roma expandiu-se durante seis séculos, transformando-se de pequena cidade- Estado em recanto tumultuado da península Itálica, no maior império já estabelecido na Europa.
O imperador Trajano foi um entusiástico herdeiro desse expansionismo agressivo. Entre os anos 101 e 107 d.C., ele empreendeu guerras de conquista nos atuais territórios de Romênia, Armênia, Irã e Iraque, além de reprimir com brutalidade as revoltas judaicas. Esses triunfos e conquistas foram comemorados e registrados nas moedas cunhadas pelos romanos.
Quando Trajano morreu, em 117, o Império Romano estendia-se pelo golfo Pérsico até a Escócia. Esse território foi herdado por seu filho adotivo, Públio Élio Adriano – um senador, de 41 anos, nascido na Espanha, que se considerava poeta e arquiteto diletante. Confrontado com um território maior do que Roma podia controlar, sob a pressão de políticos e generais para que seguisse os passos do pai, o recém-empossado imperador – que ficaria conhecido na história como Adriano – recuou. “Sua primeira decisão foi a de abandonar as novas províncias e reduzir os prejuízos”, comenta o biógrafo Anthony Birley. “Ele reconheceu que seu predecessor havia abocanhado mais do que conseguia mastigar.”
A decisão não foi bem-vista por um exército acostumado a atacar em terreno aberto. Pior, era um duro golpe no modo como os romanos viam a si mesmos. Como poderia um império destinado a governar o mundo conviver com territórios sobre os quais não tinha o menor controle?
É possível que Adriano tenha se dado conta de que a voracidade territorial de Roma era cada vez menos vantajosa. As províncias mais valiosas, como a Gália e a Hispânia, sua terra natal, estavam coalhadas de cidades e propriedades agrícolas. Diante disso, a conquista de outras regiões não valia a pena. “Com a posse da maior parte da terra e do mar”, comentou o autor grego Apiano, os romanos “pretendiam preservar o império mais por prudência do que pela ampliação indefinida de seu domínio sobre tribos bárbaras miseráveis e pouco lucrativas.”
O respeito do exército a Adriano fez diferença. Durante metade de seu reinado de 21 anos, dedicou-se a percorrer as províncias e visitar as tropas estacionadas em três continentes. Imensos territórios foram abandonados, e as legiões entrincheiraram-se ao longo das novas fronteiras. Para onde quer que Adriano fosse, muralhas eram construídas. “Parece ter sido um sinal aos adeptos do expansionismo imperial de que havia acabado o tempo das guerras de conquista”, diz Birley.
Em 138, quando morreu esse governante inquieto, a rede de fortes e estradas, que havia sido concebida para assegurar o suprimento das legiões conquistadoras, tornara-se uma divisa com milhares de quilômetros de extensão. “Um exército aquartelado, como em um reduto, circunda todo o mundo civilizado, desde as áreas povoadas da Etiópia até Fasi [borda oeste do mar Negro, na Geórgia] e desde o Eufrates no interior até a grande ilha do extremo oeste”, notou o retórico grego Élio Aristides, após a morte do imperador.
Foi nessa “ilha do extremo oeste” que Adriano mandou erguer o monumento que hoje leva seu nome, um baluarte de pedra e terra que cortava ao meio a antiga Britânia. Agora, o Muro de Adriano é um dos trechos mais bem preservados e documentados da imensa fronteira romana.
Os resquícios dessa barreira de 118 quilômetros atravessam pântanos costeiros, verdejantes pastos de ovelhas e, em uma seção desolada perto do centro de Newcastle, ladeiam uma autoestrada.
Mais de um século de estudos proporcionou aos arqueólogos conhecimento sem-par do Muro de Adriano. Talvez concebida pelo próprio, durante uma visita à ilha no ano de 122, a muralha era uma tentativa de definir os limites do império.
Na maioria dos trechos erguia-se a uma intimidante altura de 4,5 metros, com 3 metros de espessura. Cada um dos fortes podia abrigar entre 500 e mil soldados, prontos para reagir a qualquer tipo de ataque. Em 1973, operários que escavavam um fosso de drenagem em Vindolanda, um desses típicos fortes fronteiriços, toparam com montes de entulho romano sob uma espessa camada de argila. O material úmido guardara todo tipo de coisas, desde vigas de construção com 1 900 anos de idade até tecidos, pentes de madeira, calçados de couro e excremento de cães, tudo preservado pela ausência de oxigênio.
Escavações posteriores e mais profundas revelaram centenas de frágeis e finas tabuletas de madeira cobertas de inscrições. Graças a elas, conhecemos detalhes da vida cotidiana junto ao Muro de Adriano: ordens de serviço, listas de tarefas, requisições de suprimentos, cartas pessoais. Há até mesmo o convite para uma festa de aniversário, enviado pela mulher de um oficial a outra, o mais antigo exemplo que dispomos de um manuscrito em latim por mulheres.
Essas tabuinhas sugerem que a tarefa de vigiar os “britânicos miseráveis”, como um dos romanos de Vindolanda descreve os nativos, não era fácil, mas, por outro lado, a vida no forte parecia boa. Alguns soldados viviam com suas famílias – sapatos infantis, até mesmo para bebês, foram recuperados entre os calçados. E os defensores do muro se alimentavam bem: bacon, presunto, carne de caça, frango, ostra, maçã, ovo, mel, cerveja e vinho faziam parte do cardápio. Havia até garum, um molho fermentado de peixe, versão romana do molho inglês. As tropas saudosas podiam receber pacotes de casa. “Mandei para você... meias... dois pares de sandália e dois pares de roupa de baixo”, avisa um correspondente preocupado.
Hoje, os estudiosos se colocam uma questão que deve ter passado pela cabeça desses soldados obrigados a cumprir longas missões sob o frio e a chuva da região: afinal de contas, o que estavam fazendo ali? As dimensões da muralha e do sistema de valas, baluartes e estradas sugerem a existência de um inimigo temível.
Todavia, os relatos de Vindolanda estão longe de mostrar uma guarnição sob ameaça. Além de poucas pistas dispersas – como o túmulo do desafortunado centurião Tito Ânio, “morto na guerra” –, não há nenhuma referência direta a combates em qualquer ponto da fronteira. O grande projeto de construção do muro, mais ao norte, nem sequer é mencionado. “A gente fica com a sensação de que algo está em andamento. Quantidades imensas de suprimento são encomendadas”, comenta Andrew Birley, o responsável pelas escavações em Vindolanda e sobrinho de Anthony Birley, o biógrafo de Adriano. “Mas não há nenhuma referência ao muro em si.”
Se o grande muro não visava contenção de perigo iminente, qual era seu propósito? Ao levar em conta toda a extensão das fronteiras romanas, o esforço para a criação de um sítio do Patrimônio da Humanidade, da Unesco, em âmbito multinacional, denominado “Fronteiras do Império Romano”, talvez ajude a solucionar essa dúvida. Desde que, na década de 1890, entusiastas britânicos organizaram as primeiras escavações sistemáticas no Muro de Adriano, historiadores e arqueólogos partiram do pressuposto de que as muralhas tinham a função militar de bloquear exércitos bárbaros e invasores hostis.
Mais tarde, nas décadas de 1970 e 1980, os arqueólogos chegaram à conclusão de que a Cortina de Ferro que então dividia a Europa influenciava o modo como viam o passado mais remoto. “Na Alemanha, havia essa fronteira maciça, que parecia intransponível”, diz C. Sebastian Sommer, do Departamento de Preservação do Estado da Bavária. “A ideia era essa distinção clara: aqui os aliados, lá os adversários.” Hoje, uma nova geração começa a abordar a questão de outro ângulo. A ininterrupta extensão do Muro de Adriano talvez seja enganosa, uma exceção de 118 quilômetros. Em outras regiões da Europa, os romanos aproveitaram as barreiras naturais, formadas pelos rios Reno e Danúbio, cujas águas patrulhavam com uma poderosa marinha fluvial. No norte da África e nas províncias orientais da Síria, da Judeia e da Arábia, o deserto servia de divisa.
As bases militares eram muitas vezes instalações improvisadas, erguidas para vigiar rios e outras rotas de suprimento importantes. A palavra em latim que designa fronteira, limes, significava, em sua origem, caminho ou estrada patrulhada. Até hoje usamos o termo: “limite” vem de limites, o plural de limes.
Estações avançadas à beira de rios como Reno e Danúbio ou nos desertos que ficavam nos flancos leste e sul do império, com frequência, se assemelhavam mais a postos policiais ou aduaneiros. Eram de pouca serventia contra um exército invasor, mas funcionavam muito bem para capturar contrabandistas, perseguir bandos de bandidos ou, talvez, para arrecadar taxas aduaneiras. As muralhas pouco guarnecidas na Inglaterra e na Alemanha eram similares. “Os muros foram colocados lá por motivos práticos”, afirma o historiador Benjamin Isaac, da Universidade de Tel-Aviv. “Eram o equivalente ao atual arame farpado – usado para dificultar a passagem de indivíduos e pequenos grupos.”
Segundo Isaac, as fronteiras romanas eram mais parecidas com certas instalações modernas do que com os muros espessos das fortalezas medievais: “Veja o que Israel está construindo para controlar a passagem dos palestinos da Cisjordânia. Não se trata de impedir uma invasão do Exército iraniano, e sim de evitar a entrada de pessoas que pretendem explodir bombas nos ônibus de Tel-Aviv”. A proteção contra terroristas talvez não fosse a preocupação dos romanos – mas havia muitos outros motivos, tal como hoje. “O muro que os Estados Unidos estão levantando na fronteira com o México é algo sólido”, continua Isaac, “e serve apenas para manter fora do país aqueles que gostariam de trabalhar como lixeiros em Nova York.”
Cada vez mais, os arqueólogos tendem a pensar dessa maneira. “A análise de Isaac passou a ser bem-aceita entre os especialistas”, comenta David Breeze, autor do livro The Frontiers of Imperial Rome (“As Fronteiras da Roma Imperial”). Ao que parece, pode ser apropriado considerar os limites romanos não como barreira intransponível, mas como um instrumento adotado para estender sua influência ao barbaricum – o termo que empregavam para se referir a tudo que estava fora do império.
Durante séculos, para manter a paz, os imperadores recorreram a uma mescla de ameaças, dissuasão e suborno. Roma estava em constantes negociações com as tribos e os reinos fora de suas balizas. A diplomacia criou uma zona de segurança, constituída de soberanos clientes e chefes guerreiros aliados. Eles ajudavam a manter longe da fronteira os grupos hostis que viviam em áreas remotas. Aqueles considerados leais a Roma conquistaram o direito de cruzar à vontade a divisa; os outros só podiam levar seus produtos aos mercados romanos sob escolta armada.
Os parceiros também eram recompensados com presentes, armas e treinamento militar. Os bárbaros mais comprometidos, por vezes, serviam no Exército romano e, depois de 25 anos, se aposentavam como cidadãos de Roma, livres para se estabelecer em qualquer parte do império. Por Vindolanda passaram legiões formadas por soldados recrutados nos atuais territórios do norte da Espanha, França, Bélgica e Holanda. Barqueiros iraquianos chegaram a navegar pelos rios da Inglaterra sob a bandeira romana, e arqueiros sírios vigiaram os desolados campos ingleses.
O comércio também era um instrumento de política externa. Em Frankfurt, a Comissão Romano-Germânica, do Instituto Arqueológico Alemão, dispõe de um banco de dados referentes a mais de 10 mil artefatos romanos encontrados além do limes. Armas, moedas e objetos de vidro e cerâmica foram achados em locais tão remotos quanto as modernas Noruega e Rússia.
Mas nem toda a opção era diplomática. O próprio Adriano não hesitou em castigar populações turbulentas. Em 132, esmagou uma revolta judaica após uma longa e implacável campanha. Um historiador romano conta que os combates resultaram em meio milhão de judeus mortos, e acrescenta: “Com relação àqueles que pereceram de fome, doenças ou incêndios, não há como dizer o número correto”. Os sobreviventes ou foram escravizados ou expulsos.
Assim como o muro de adriano mostra a fronteira imperial em seu aspecto mais imponente, uma fortaleza abandonada à margem do rio Eufrates captura com nitidez o momento em que essas fronteiras começaram a ruir. Dura- Europos era uma cidade fortificada na divisa entre os impérios Romano e Persa, os maiores rivais na época. Hoje, Dura está a 40 quilômetros de distância da fronteira entre a Síria e o Iraque, uma viagem de ônibus de oito horas, desde Damasco, pelo deserto.
A cidade foi descoberta em 1920, quando tropas britânicas que combatiam guerrilheiros árabes encontraram a parede pintada de um templo romano. Uma equipe da Universidade Yale e da Academia Francesa contratou centenas de beduínos para que, com pás e picaretas, removessem do local dezenas de milhares de toneladas de areia, com a ajuda de vagões ferroviários e de mineração. “Houve momentos em que aquilo mais parecia a cena do poço das Almas no filme Indiana Jones”, comenta o arqueólogo Simon James, da Universidade de Leicester, na Inglaterra.
Após uma década de escavação frenética, o que veio à luz foi uma cidade romana do século 3, tal como se tivesse sido congelada no tempo. Restavam pedaços de reboco nas paredes de pedra e adobe. Os aposentos dos palácios e templos – entre os quais a mais antiga igreja cristã do mundo – são amplos o suficiente para que se possa caminhar neles e imaginar como seriam quando estavam cobertos.
Fundada pelos gregos por volta de 300 a.C., Dura foi conquistada pelos romanos quase meio milênio depois. Suas muralhas altas e grossas, alçadas acima do Eufrates, fazem da cidade um perfeito posto fronteiriço. A parte norte foi murada e transformada em um enclave, com casernas, um quartel-general para o comandante, termas de tijolos vermelhos amplas o bastante para fazer o deleite de mil soldados cobertos de pó do deserto, o anfiteatro mais a leste que se conhece no império e um palácio, com 60 quartos, construído para receber os dignitários.
Documentos exumados do local revelam que pelo menos sete outros postos estavam subordinados ao de Dura. Um deles era guarnecido por três soldados; outro ficava 150 quilômetros rio abaixo. “Esta não era nenhuma cidade sob ameaça constante”, disse James quando lá estive, antes que a situação política na Síria tornasse inviável a escavação. Sentados em meio às ruínas, podíamos avistar no horizonte as labaredas do gás sendo queimado nos poços de petróleo iraquianos. “É provável que aqui os soldados romanos passassem mais tempo policiando os moradores locais do que defendendo a cidade.”
A calmaria não durou muito. A Pérsia surgiu como ameaça importante em toda a fronteira leste do império meio século depois de os romanos tomarem Dura. A partir do ano 230, por toda a Mesopotâmia, multiplicaram-se os embates entre rivais. Logo ficou evidente que a estratégia fronteiriça que servira aos romanos por mais de 100 anos não se sustentaria diante de um adversário decidido e poderoso.
Em 256, chegou a vez de Dura. Trabalhando em conjunto com uma equipe de arqueólogos franco-síria, James levou dez anos para descobrir como foram os derradeiros momentos da cidade murada. Segundo ele, os romanos sabiam que um ataque era iminente. A fim de construir um baluarte inclinado, tiveram tempo de reforçar o maciço paredão oeste, soterrando uma parte da cidade – onde antes havia a igreja e uma sinagoga decorada de maneira primorosa.
O Exército persa montou acampamento no cemitério da cidade, a poucas centenas de metros da entrada principal de Dura. Enquanto despejavam pedras nos romanos por meio de catapultas, construíam uma rampa de assalto e escavavam túneis sob a muralha, na tentativa de fazer ruir as defesas. A guarnição romana contra-atacou e também abriu outros túneis.
De acordo com James, enquanto uma feroz disputa se travava na superfície, um grupo de 19 soldados romanos conseguiu penetrar em um dos túneis persas. Quase de imediato foram sufocados por uma nuvem de gás venenoso, bombeado na câmara subterrânea. Os restos mortais deles são os indícios arqueológicos mais antigos do emprego de armas químicas em batalhas.
Embora não tenham conseguido provocar o colapso da divisória de Dura, os persas acabaram tomando a cidade, que mais tarde seria abandonada e soterrada pelo deserto. Os últimos defensores ou foram trucidados ou escravizados. Depois, as tropas persas avançaram contra as províncias romanas orientais, saquearam dezenas de cidades, derrotaram dois imperadores e capturaram um terceiro, o desafortunado Valeriano, em 260. Conta-se que o rei persa Shapur o usou como apoio aos pés, antes de mandar que fosse esfolado, e sua pele, pendurada em uma parede.
Essa crise assinalou um ponto de inflexão. Quando Dura caiu nas mãos dos persas, desarticulava- se o delicado equilíbrio de agressão, defesa e intimidação ao longo das fronteiras romanas.
Por quase 150 anos, essa divisa havia ajudado Roma a ignorar uma realidade preocupante: o resto do mundo estava cada vez mais ameaçador, em parte devido aos próprios romanos. Bárbaros que haviam servido nas legiões retornavam às regiões natais levando conhecimento, armas e estratégias militares romanas, comenta o arqueólogo Michael Meyer, da Universidade Livre de Berlim.
Enquanto Roma preocupava-se com outros problemas, os povos bárbaros foram se tornando mais fortes, agressivos e coordenados. O legado de Adriano estava condenado. “O mais trágico na estratégia romana é a concentração das forças militares nas fronteiras”, diz Meyer.
“Quando as tribos germânicas romperam essas defesas, o avanço pelo império estava desimpedido.” É como se fosse uma célula atacada por vírus: uma vez penetrada a fina membrana externa, os invasores estavam livres para saquear o interior.
Em um altar, de 1,5 metro de altura, achado em Augsburg por operários alemães em 1992, há uma inscrição que poderia servir de epitáfio para a majestosa concepção de Adriano. Diz ela que, nos dias 24 e 25 de abril de 260 d.C., soldados enfrentaram bárbaros germânicos do outro lado da fronteira. A vitória aconteceu por um fio.
O comandante romano mandou erguer esse altar para comemorar a vitória. Todavia, estudos revelam que, nos meses anteriores, os bárbaros vinham realizando longas incursões, retornado para casa com milhares de cativos romanos. “O que mostra que a fronteira já estava ruindo”, diz Hüssen, do Instituto Arqueológico Alemão.
Roma jamais voltaria a conhecer a tranquilidade dentro de suas divisas. Por todo o império, as cidades passaram a erguer as próprias muralhas, e os governantes agora tinham de se empenhar para repelir os invasores. O custo disso e o caos resultante eram cada vez mais incapacitantes. Dali a dois séculos, o Império Romano, que, em seu auge, tinha uma extensão maior que a atual União Europeia, chegou ao fim.

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