Após décadas de submissão países periféricos se aproveitam da conjuntura marcada pela crise das políticas neoliberais e intensificam suas relações diplomáticas, comerciais e políticas. Qual o significado disto? Quanto tempo vai durar?
Ricardo Alvarez
Ricardo Alvarez
Ao longo do século XX a mão pesada do poder político dos países centrais se fez sentir sobre a faixa de nações mais pobres do planeta: Américas, África e Ásia. Embora numericamente significativas e detentoras de uma massa de gente que beirava os 50% do total do planeta, este grupo de países manteve uma postura de obediência deliberada, salvo honrosas exceções, denominada por muitos de neocolonialismo.
Na primeira metade do século XX a combinação do fordismo (produção em série e barateamento dos produtos) e do Estado do Bem-Estar Social (consolidação de direitos trabalhistas e investimentos públicos) deu a tônica da organização social e econômica nos países centrais. A articulação entre produção e consumo, como resultado desta combinação, gerou grande crescimento econômico após a Segunda Guerra Mundial.
Países desenvolvidos: produção e consumo de energia derivada de combustíveis fósseis
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Nos países pobres, porém, a realidade era bem diferente. A exploração do trabalho moldava a sociedade, gerando fortes disparidades sociais agudizadas pela quase inexistência de políticas públicas de cunho social. Além disso, o papel que cabia a este grupo de países na divisão internacional do trabalho, se limitava à exportação de bens primários, matérias primas e energia e, ao mesmo tempo, de comprador de bens manufaturados dos países centrais.
PIB
Taxa de crescimento anual (1960-76) |
PNB*
Por habitante |
Parte do grupo de países no mundo** (1976)
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população
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Produto bruto
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Exportação de bens e serviços
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Países exportadores de petróleo
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9,5
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6.691
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0,3
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1,1
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5,7
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Outros países do Terceiro Mundo
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5,7
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538
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52,2
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15,3
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22,6
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Países capitalistas desenvolvidos
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4,3
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6.414
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6.414
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64,6
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63,9
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*Em dólares. **Em percentagem. Fonte: História do Capitalismo, Beaud, Michel. Ed.Brasiliense.
Ao término da segunda Guerra Mundial emerge a “Guerra Fria” e a pugna entre os blocos de poder: EUA x URSS. O mundo pobre foi palco de violentas disputas que mais atendiam aos anseios dos países ricos do que necessariamente as necessidades do mundo pobre. Ou se estava de um lado ou de outro, numa submissão cega aos centros hegemônicos de poder, que teve a guerra do Vietnã como ápice.
Com a derrocada do bloco do socialismo real ganha força uma nova forma de imposição: a do capital financeiro. Sutil, mas não menos agressiva. Com as desregulamentações na economia que se faziam sentir com as políticas neoliberais, em especial a partir dos anos 80, o capital especulativo fluía com velocidade cada vez maior, gerando lucros exorbitantes em curto prazo.
Direitos trabalhistas eram retirados, o mercado de trabalho flexibilizado e demissões em massa rebaixavam os níveis salariais dos que estavam empregados. O comércio mundial e a circulação do capital especulativo foram se ampliando facilitados pelas reduções de taxas e regulações, tornando o fluxo de capital cada vez mais denso e veloz.
O resultado direto desta política de estado mínimo foi o crescimento da pobreza, da instabilidade econômica e das crises, cada vez mais frequentes e profundas. A última, que explodiu em 2008 no mercado imobiliário norte-americano, travou as engrenagens do sistema e criou um ambiente recessivo.
A crise teve seu epicentro nos países ricos. Os EUA padecem com alto desemprego, forte endividamento e perda de competitividade de sua indústria no cenário mundial. A União Europeia enfrenta grave crise econômica e a sociedade se mobiliza (greves, passeatas, protestos) contra os ajustes que jogam sobre suas costas o ônus da recessão.
Como resposta a esta difícil conjuntura, observa-se uma maior aproximação dos BRIC´s, que hoje representam um dos pilares do crescimento econômico mundial e aponta para uma vinculação de maior intensidade entre os países do sul.
Alguns outros exemplos neste sentido: a intensificação das relações no Mercosul e o abafamento da ALCA (que interessa aos EUA), a criação do G22 na Organização Mundial de Comércio por um grupo de países que reclamam da imposição de normas de comércio que os prejudicam e a aproximação política de nações na América Latina.
Configura-se um novo eixo de poder no mundo? É difícil afirmar com certeza ígnea, mas são visíveis iniciativas que sugerem este quadro: certo descolamento do bloco dos países do norte como decorrência da aproximação intra-sul.
Quanto tempo vai durar? Este alinhamento se consolida? O tempo vai dizer, mas já era momento de praticar um pouquinho de soberania nacional e buscar a solidariedade internacional entre os pares.
Olho:
“Os países mais pobres buscam, hoje, novos interlocutores políticos e parceiros comerciais mais próximos de sua realidade. A América Latina tem sido pioneira neste sentido.”
Box:
“As instituições financeiras nos EUA fizeram empréstimos em grande escala nos EUA para compra de imóveis e muitos mutuários não conseguiram pagar as parcelas, provocando uma quebradeira geral no sistema.”
Para saber mais:
Documentário “Inside Job”, vencedor do Oscar de melhor documentário da edição de 2011.

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