Entre 2009 e 2010, enquanto aluna
do curso de Ciências dos Alimentos da Escola Superior de Agricultura “Luiz de
Queiroz” (USP/ESALQ), Aline Marques
Bortoletto foi bolsista do programa CAPES/BRAFAGRI e cursou disciplinas no Institut
National Supérieur des Sciences Agronomiques, de l'Alimentation et de
l'Environnement - AgroSup Dijon (França). Durante a permanência na
Europa, fez estágio e o trabalho de conclusão de curso no Institut
Universitaire de la Vigne et du Vin - IUVV, Jules Guyot - Université de
Bourgogne(França), quando estudou a interação madeira/compostos de aroma
e impacto sobre a percepção sensorial do vinho.
Hoje, como mestranda do programa
de Pós-graduação em Ciências dos Alimentos da ESALQ, tem adaptado os estudos
realizados na França para o comportamento da bebida mais popular no Brasil, a
cachaça. No Laboratório de Tecnologia em Qualidade Química de Bebidas,
orientada pelo professor André Alcarde, do Departamento de Agroindústria,
Alimentos e Nutrição (LAN), observa a composição química de cachaça
envelhecida por interação com madeira de carvalho proveniente de diferentes
florestas francesas. “A cachaça é a bebida destilada típica do Brasil e seu
envelhecimento em barris de madeira proporciona maior qualidade. A composição
química da madeira de carvalho, a espécie botânica, a proveniência
geográfica, a idade da madeira e o modo como conduzir a floresta são
parâmetros relevantes na escolha do produtor, pois interagem sobre a
qualidade da madeira e, consequentemente no perfil sensorial da bebida”,
comenta Aline.
De acordo com a pesquisadora, a
madeira de carvalho é a principal madeira utilizada no envelhecimento de
bebidas alcoólicas, adquirindo supremacia mundial, pois participa ativamente
do “flavor” da bebida de qualidade graças à extração de moléculas aromáticas,
porém demanda alto custo inicial e longo prazo. O experimento conduzido por
Aline vem sendo realizado primeiro em escala laboratorial, mediante uso de
fragmentos destas madeiras, para posteriormente ser aplicado em sistema
convencional (tonéis). O projeto tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (Fapesp) e avalia os compostos químicos aromáticos
oriundos da degradação térmica da madeira, mediante a interação da cachaça
com fragmentos de carvalho de diferentes florestas francesas Allier,
Vosges and Nièvre tostadas nas intensidades fraca, média e alta,
padronizadas pela tonelariaem cachaça (40%v/v ethanol). Os compostos
químicos analisados por cromoatografia líquida de alta eficiência (CLAE) são
vanilina, siringaldeído, ácido vanílico, sinapaldeído ácido siríngico,
coniferaldeído, ácido elágico, 5-hidroximetilfurfural e ácido gálico,
relacionados aos aromas de baunilha, especiarias, caramelo, amêndoas e
outros.
“O nível de degradação térmica da
madeira aumenta a complexidade aromática a partir dadegradação de
polímeros, como polissacarídeos e polifenóis, permitindo o surgimento de
novas substâncias aromáticas, e influencia as características físicas,
químicas e organolépticas da bebida. Porém, o emprego desta técnica deve ser
estudado em cada tipo de bebida”, salienta a autora do trabalho. Além disso,
um aspecto importante a se levar em conta no envelhecimento de bebidas é a
operação da queima ou tosta aplicada às aduelas dos barris. “Esse tratamento
é necessário para dar forma aos tonéis, bem como para modificar as estruturas
moleculares da madeira, possibilitando a melhor qualidade das bebidas durante
seu envelhecimento mediante aumento da complexidade e intensidade dos
compostos denominados congêneres de envelhecimento”, explica Aline.
Até o momento, o perfil aromático
das amostras relata forte influência da intensidade de tosta da madeira nas
três florestas, sendo que a tosta alta apresenta maiores quantidades de todos
os compostos aromáticos analisados. A cachaça maturada com madeira carvalho
Vosges alta obteve maiores valores quando comparado as demais madeiras.
Observou-se ainda que o perfil aromático das madeiras Vosges e Allier possuem
maiores teores de sinapaldeído, siringaldeído e vanilina. Testes sensoriais
serão estudados futuramente para complementação do estudo, mas enquanto a
pesquisa segue na definição de parâmetros, a pesquisadora apresentará parte
dos resultados, em julho, em Laval, na França, durante oFood Factory – 6th
international conference on the food factory for the future.
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segunda-feira, 16 de julho de 2012
Pesquisa observa influência da tosta em barris de carvalho na qualidade da cachaça
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