quarta-feira, 18 de junho de 2014

Viver para Refletir

A Lição da Rua, A Lição de Paraty (10)
* Francisco Alberto Sales
Viver para Refletir

    “Só quero viver enquanto puder me indignar.” A frase de Darcy Ribeiro
me ilumina vida a fora, pois viver sob o signo da indiferença, ou da
descrença, está muito próximo do não viver. E mesmo diante da
maturidade vejo aguçado em mim o sentimento da resistência.
Aprendemos com os jovens, neste tempo de agora, que a imobilidade é
sinônima de conformidade, cumplicidade. E tudo que não queremos, nós,
os que ainda guardam em si o direito à indignação, é nos acomodarmos
no lastro da passividade. Por isso tanta gente foi às ruas, por isso
continuo usando este espaço para despertar reações, por isso palmilhei
em reflexão pelas ruas de Paraty.
A verdade é que a vida e os homens desnobrecidos estão permanentemente
atiçando nosso senso de revolta. Há poucos dias fui caminhar pela
feira do Penedo e vi de perto a degradação da infância. Meninos que
deveriam estar nas escolas e nas áreas de lazer carregavam as compras
de gordas matronas e de austeros cavalheiros. Todos ali pareciam não
ter um pingo que fosse de remorso. Conscientemente matavam a infância
penedense oferecendo-lhe uma ocupação miserável, quase escrava.
Uma dessas crianças me informou que, trabalhando todo um dia sob o sol
escaldante e cruel, carregando um peso quase sempre além de suas
forças, ganhava cinco reais. E tal miudeza era indispensável para o
sustento de sua casa. Em sua inocência esses meninos talvez não saibam
que são apenas um elo neste cruel jogo de perpetuação da miséria.
Assusta-me mais ainda o fato de, além da infância, esta indignidade
está ceifando uma parcela preponderante da inteligência alagoana.
Estes meninos, estimulados por um direcionamento educacional sério e
consequente, como um dia fez Graciliano Ramos, teriam um futuro digno
e poderiam de fato ajudar aos seus pais.
Com engenho e arte, para superar a carga, o peso imenso que carregam
todos os sábados, eles improvisam carros de mão catando no lixo
banheiras descartadas. Com madeira e ciência, constroem uma estrutura
rústica, mas eficiente, e conseguem, enfim, vencer a dureza de seu
labor precoce.
Dessem a eles os instrumentos libertadores da educação e logo estariam
contribuindo para a real grandeza das Alagoas, as Alagoas que
sonhamos. Mas aí, sabem bem os donos do poder, eles logo estariam
também nas ruas a cobrar a justiça que diuturnamente lhe é roubada,
pois quem tem conhecimento não se submete às imposições vis da
exploração.
Estamos ainda em meio às comemorações do discurso histórico de Martin
Luther King. Em agosto de 1963, na escadaria do Memorial Lincoln, em
Washington, o pastor disse sonhar com um país mais igualitário. Os
Estados Unidos ainda devem à humanidade a plenitude deste sonho.
Naquele discurso Luther King afirmou ainda que o preocupava mais o
silêncio dos bons que a corrupção.
Nas ruas do Brasil a boa juventude quebrou o silêncio e se fez ouvir.
Isso já nos alenta, posto que parte um considerável pedaço da
descrença que somos obrigados a conduzir. Agora resta gritar nossas
reflexões e lutar para que o grito macule os ouvidos surdos da elite
que insiste em fazer da infância alagoana um espelho da escravidão.
Temos esperança e por isso não nos calamos.
*É médico e Diretor da Fundação Casa do Penedo

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