A posse de veículos está associada à inatividade física durante deslocamentos diários de moradores de região de baixo nível socioeconômico da capital paulista.
Bruna Romão
Bruna Romão
Redução do IPI para a indústria automobilística incentiva compra de veículos
O critério utilizado foi rigoroso: “Para ser não ativa no transporte, a pessoa não poderia ter caminhado ou pedalado por mais do que dez minutos na semana”, explica Sá. O trabalho também aponta para uma relação linear entre o número de veículos no domicílio e a inatividade física, com o chamado efeito “dose resposta”. “Parece que quanto mais veículos a pessoa tem em casa, maior é a chance de ela ser inativa no transporte”, diz.
Segundo o educador físico, uma recente revisão sistemática da literatura científica apresentou a evidência de que de fato existiria uma associação entre presença de veículo no domicílio e menor atividade física no transporte. “Outros estudos em diferentes países encontraram essa relação. E, curiosamente, ela é mais forte onde os sistemas públicos de transporte são piores”, comenta.
É neste contexto que, segundo Sá, surge a hipótese de que a presença de mais de um automóvel por domicílio estaria ligada ao rodízio de veículos em São Paulo. Residentes em uma região afastada da centralidade da capital, onde concentram-se empregos e serviços, e com um sistema de transporte público ineficiente, algumas famílias seriam levadas a comprar um segundo carro para os dias de restrição.
Impacto de políticas públicasOutro questionamento levantado pelos pesquisadores diz respeito ao impacto de qualquer política pública sobre a saúde. “A saúde precisa ser levada em conta em todas as políticas. Não apenas na política de transportes, mas na de habitação, segurança, economia”, opina Sá. O estudo faz, inclusive, uma crítica à política econômica do governo federal de redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a indústria automobilística, como incentivo à compra de veículos. “Nossa crítica é que não foi feita a devida avaliação do impacto dessa política econômica sobre a saúde da população. E se nada for feito para reverter esse impacto, a saúde da população pode sofrer grandes danos nos próximos anos, seja com relação à questão da poluição, ou à diminuição da prática de atividade física nos deslocamentos”.

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