terça-feira, 15 de outubro de 2013

Mulheres sofrem ataques machistas na Assembleia Nacional Francesa

Era uma sessão noturna na Assembleia nacional, como tantas outras. Na noite de terça-feira (8), durante o debate, bastante austero, sobre a reforma da aposentadoria, Véronique Massonneau, deputada do partido verde pelo departamento de Vienne, defendia uma emenda, em um parlamento um tanto esvaziado.

Guy Dutheil
Vista geral da Assembleia Nacional em Paris, na França
Vista geral da Assembleia Nacional em Paris, na França
Foi então que se ouviu um "Có-có-có-coricó" partido de Philippe Le Ray,deputado da UMP, ex-fazendeiro. Estupefata, Massonneau interrompeu seu discurso: "Pare! Já chega! Então eu devo ser considerada como uma galinha?" Os "cacarejos" provocaram risos em outros deputados da UMP, até que Claude Bartolone, o presidente da Assembleia Nacional, suspendeu a sessão.
Os deslizes machistas dentro da representação nacional infelizmente não são novidade. Em um livro chamado "Nomes de pássaros: o insulto na política da Restauração até nossos dias" (Ed. Stock, 2010), Thomas Bouchet lembra que "as mulheres deputadas na Assembleia na segunda metade do século 20 e hoje – Roselyne Bachelot, Michèle Barzach, Elisabeth Guigou, Catherine Trautmann etc. – muitas vezes foram alvo de ataques sexistas ao longo de sua carreira parlamentar, inclusive dentro de sua própria ala."
Em 1998, durante o debate sobre o Pacto Civil de Solidariedade (casamento civil), Christine Boutin sacou uma Bíblia para fazer sua argumentação de protesto e sofreu inúmeras troças, sendo ridicularizada por seus colegas. Mais recentemente, no dia 17 de julho de 2012, quando Cécile Duflot, a ministra da Habitação, usou na sessão de questionamento ao governo um vestido de flores azul-marinho – depois de chamarem sua atenção por chegar de jeans em seu primeiro conselho ministerial - , ela foi recebida por assobios e sorrisos zombeteiros da direita.
Os "cacarejos" de Le Ray – que lhe valeram, após a votação unânime da conferência de presidentes, uma "advertência" que o privará durante um mês de um quarto de sua remuneração parlamentar – seriam somente ridículos e pueris se não fossem indignos. Em um momento em que a classe política, tanto à esquerda quanto à direita, é alvo de um crescente descrédito entre a opinião pública, com a ascensão da extrema direita e dos populismos, tal comportamento, que, como ressaltou Bartolone, pertenceria a um "pátio de colégio", passa uma imagem desastrosa dos parlamentares.
Esse incidente, que causou furor na internet, levando a ex-presidente do Medef [patronato francês], Laurence Parisot, a escrever que "a misoginia é um racismo", não tem nada de insignificante. Ele mostra uma degradação preocupante do nível do debate público. Sobre inúmeros assuntos, e a reforma das aposentadorias é só um exemplo, a direita e a esquerda, ambas em péssimo estado, muitas vezes trocam mais injúrias do que ideias. A UMP, arrastada para dentro de uma guerra mortífera de líderes, faz um show com suas rixas. E o Partido Socialista, fazendo o papel de pau-mandado do governo, é incapaz  de esboçar a visão da sociedade que ele quer construir.
No entanto, é urgente recuperar a imagem do discurso político em um país social e moralmente fraturado pela crise, em busca de referências. Os infantis e irresponsáveis "cacarejos" de Le Roy deveriam ter provocado mais do que uma simples "advertência". Eles deveriam ajudar os políticos a entenderem que, quando o debate público se perde em galinhagem, é simplesmente a democracia que está sendo insultada.
Tradutor: UOL

Nenhum comentário:

Postar um comentário