sábado, 12 de outubro de 2013

Uma nova Carta, para um novo ciclo

Uma nova Carta, para um novo ciclo
por: Joaquim Palhares


Carta Maior nasceu há 13 anos e inicia uma nova etapa de sua trajetória editorial. 
O percurso não é obra do voluntarismo, mas fruto de um compromisso renovado com a agenda política do nosso tempo. 
Carta Maior tem lado, e nele caminha. 
Mas, sobretudo, tem consciência da especificidade de sua contribuição: ser uma caixa de ressonância da crítica e do adensamento da agenda progressista brasileira. 
Foi essa prontidão histórica que a levou a contribuir e projetar o espírito dos Fóruns Sociais Mundiais, a contrapelo da supremacia neoliberal, que resiste entrincheirada na mídia conservadora.
 O mesmo engajamento aglutinador orientou-a na luta pela eleição do Presidente Lula em 2002; no esforço de reaproximação da esquerda brasileira na decisiva batalha do segundo turno de 2006; e no enfrentamento da encarniçada primeira versão do 'todos contra Dilma', em 2010. 
O país vive agora uma transição de ciclo de desenvolvimento. 
A sociedade que emergiu das conquistas acumuladas a partir de 2002, não cabe mais nos limites do atual sistema político. 
A democracia precisa se ampliar para que a riqueza convergir. E a economia voltar a crescer.
As costuras não suportam novos remendos .
Uma  logística secularmente  planejada  para servir a 30% da população mostra a incompatibilidade do projeto elitista com o anseio de cidadania plena, despertado em milhões de brasileiros resgatados da fome e da miséria na última década.
Nossos  ‘estrangeiros’ não podem ser barrados  no porto  ou repatriados à terra de origem. 
Eles formam a vasta maioria da sociedade.
Supor que  uma novo equilíbrio poderá ser  estabelecido com o retorno a políticas nefastas dos anos 90, quando o país, seu patrimônio e sua gente foram reduzidos a um anexo dos mercados desregulados, é confundir o que anda para frente com o cortejo empenhado em ir par atrás.
A responsabilidade de interferir nessa disputa requer certas estacas balizadoras que impeçam o retrocesso e assegurem o rumo progressista às mudanças.
O Brasil tem razões para não regredir.
A desigualdade entre nós ainda grita alto em qualquer competição mundial. 
Mas entre 2003 e 2011, o crescimento da renda dos 20% mais pobres superou o dos BRICs, exceto China, informa o Ipea.
Indicadores de 150 países comparados pela  Boston Consulting Group mostram que o Brasil foi o que melhor utilizou o crescimento dos últimos cinco anos para elevar o padrão de vida da população.   
A narrativa conservadora sempre desdenhou  da dinâmica vigorosa embutida nesse degelo social. 
Reconhecer os novos aceleradores sociais do desenvolvimento não implica negar os gargalos prevalecentes no metabolismo brasileiro.
 Ambos são reais. 
A coexistência de um Brasil urgente, vital e encorajador, com uma estrutura  de comunicação anacrônica e monopolista  distorce, asfixia e constrange  as vozes que precisam ser ouvidas nesse Rubicão da nossa história.
A travessia  não se completará  de forma emancipadora se a mídia persistir como um poder ubíquo, dotado de meios e recursos leoninos para exacerbar o conflito,  desqualificar projetos e fraudar opiniões que não comungam do seu ideário de nação e de mundo.
Legendas e bandeiras que não enfrentam essa decisiva batalha apenas edulcoram a persistência da velha lógica tingindo-a de cores mais agradáveis.
O verde é o novo nome da terceira via.
 O colapso climático  fartamente documentado pela ciência é real. 
Mas antes de rebaixar,  ele potencializa  os conflitos de interesses históricos inscritos nas  urgências  da agenda brasileira. 
 Aqui e em todo o planeta é preciso  impedir que os meios de destruição acionados pela supremacia irracional dos mercados promovam a própria extinção do futuro. 
E com ele, da pertinência da luta progressista para uma sociedade mais justa.
A recíproca, todavia, é visceralmente verdadeira.
Acomodar a bandeira do ‘desenvolvimento sustentável’ nos marcos da irracionalidade  mercadista é apenas distrair a sociedade para não enxergar a extensão da crise que  argui os seus fundamentos.
A lógica que exaure as  bases da vida na terra precisa ser afrontada e revertida.
Mas isso não ocorrerá se os anseios da maioria de acesso à riqueza e à qualidade de vida forem interditados em nome de uma ardilosa moratória do crescimento.
Em nome de um simulacro de equilíbrio, ela congela o privilégio descabido das elites,  cristaliza a desigualdade entre as nações e omite a drenagem pantagruélica de fundos públicos ao rentismo.
A  esse debate Carta Maior  dedicará a energia revigorada nesta nova etapa de sua história.
Não apenas por conta dos novos recursos técnicos que adiciona à sua página. 
Mas, sobretudo, pela incorporação a nossa equipe da reflexão e da credibilidade de vozes consagradas no debate democrático brasileiro.
Entre elas, a do professor Wanderley Guilherme dos Santos, a da arquiteta Raquel Rolnik, ademais da volta de Maria Inês Nassif , da estréia de Fabiano Santos, entre outros.
Mudamos não para reforçar  uma casamata de certezas graníticas. 
Mas para ampliar a janela aberta ao ar fresco do desassombro, que inclui a crítica e a  autocrítica das escolhas e experiências do próprio campo progressista.
Temos a convicção de que  somente assim será possível enxergar melhor o caminho  no longo amanhecer da sociedade de homens e mulheres livres, que tenham  o  comando do seu próprio destino. 
Joaquim Palhares
Diretor Presidente 

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