segunda-feira, 7 de outubro de 2013

De olho na sucessão de Cabral, PT e PMDB se movimentam no RJ


De olho na sucessão de Cabral, PT e PMDB se movimentam no RJ

O pretexto para o fim da aliança – o lançamento de uma candidatura própria do PT à sucessão de Cabral – permanece inabalado, e a entrega dos cargos petistas no governo estadual deverá acontecer, no que depender do desejo da direção estadual do partido, até o fim de novembro, se não for antecipada por conta da polêmica gerada em torno do Plano de Cargos e Salários dos professores da rede municipal. Por Maurício Thuswohl.

Rio de Janeiro – Até ser novamente atiçada pela radicalização da greve dos profissionais da educação, que já dura dois meses e nos últimos dias vem sendo fortemente reprimida nas ruas pelo governo estadual e no plano político pela indisposição ao diálogo por parte da Prefeitura, a crise na aliança entre o PT e o PMDB no Rio de Janeiro vivia um momento de trégua após os petistas quase terem rompido oficialmente com o governador Sérgio Cabral no início de agosto. Naquela ocasião, ainda sob o impacto das manifestações de rua que sacudiram o país e, em particular, o Rio, os reiterados apelos da direção nacional do PT e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva convenceram os petistas fluminenses a adiar o desembarque em momento tão delicado.

No entanto, o pretexto para o fim da aliança – o lançamento de uma candidatura própria do PT à sucessão de Cabral – permanece inabalado, e a entrega dos cargos petistas no governo estadual deverá acontecer, no que depender do desejo da direção estadual do partido, até o fim de novembro, se não for antecipada por conta da polêmica gerada em torno do Plano de Cargos e Salários dos professores da rede municipal. Ainda que o tom de beligerância e de acusações mútuas que prevaleceu no primeiro semestre tenha desaparecido, como tanto pediram Lula e também a presidenta Dilma Rousseff, petista, e o vice-presidente Michel Temer, peemedebista, a guerra surda entre o sucessor escolhido por Cabral (o vice-governador Luiz Fernando Pezão) e o pré-candidato do PT (o senador Lindbergh Farias) segue firme nos bastidores.

De um lado, Cabral se prepara para deixar o governo e fazer de Pezão governador durante todo o ano de 2014, tática considerada perfeita para alavancar a candidatura peemedebista, ainda estacionada, segundo a mais recente pesquisa de opinião, em 11,5% das intenções de voto. De outro lado, Lindbergh costura apoios entre partidos da base aliada como PCdoB e PRB e percorre dezenas de municípios fluminenses em sua versão estadual das “Caravanas da Cidadania” de Lula. Enquanto isso, com seu candidato aparecendo em primeiro lugar nas pesquisas com 18% das intenções de voto, o PT também já se articula para, em caso de Pezão não decolar, convencer o PMDB a apoiar Lindbergh desde o primeiro momento.

Esse eventual cenário ainda é encarado como piada de mau gosto pela direção do PMDB no Rio, sobretudo por seu presidente, Jorge Picciani, o mais ferrenho crítico do senador petista. No entanto, segundo interlocutores, a possibilidade teria sido “gentilmente colocada” por Lula no encontro que este realizou com Cabral e com o prefeito do Rio, Eduardo Paes, também do PMDB, na última quinta-feira (3). O plano passaria pela permanência de Cabral no governo até o fim de seu mandato e pela provável nomeação de Pezão para um ministério no governo Dilma. A presidente tem ótima relação com o vice-governador do Rio, a quem não se cansa de elogiar publicamente.

Enquanto o quadro sucessório estadual não se define, o PMDB segue discutindo seu “plano A”, que é a saída de Cabral do Palácio Guanabara em dezembro deste ano ou janeiro do ano que vem para que Pezão assuma o governo. A ideia é que o atual secretariado coloque seus cargos à disposição assim que o governador anunciar sua desincompatibilização, de forma a permitir que Pezão imprima de imediato um perfil próprio a seu governo, que durará oito meses até as eleições e apenas cinco até o início oficial da campanha eleitoral de 2014.

No PMDB, já é dada como certa a substituição dos secretários que compõem o grupo mais próximo a Cabral, como Régis Fichtner (Casa Civil), Sérgio Côrtes (Saúde) e Wilson Carvalho (Governo). Outra ideia de Pezão é, independentemente da decisão do PT, substituir também os dois secretários petistas - Carlos Minc (Meio Ambiente) e Zaqueu Teixeira (Assistência Social) - assim que assumir o governo.

Calendário
A meta do Diretório Estadual do PT é que o lançamento oficial da candidatura de Lindbergh e a entrega dos cargos no governo Cabral aconteça até o fim de novembro, mas ainda existe na direção nacional do partido a expectativa de que essa decisão possa ser retardada até, pelo menos, janeiro do ano que vem. O objetivo é evitar ao máximo transformar a ruptura eleitoral com Cabral no Rio em uma quebra de aliança com o PMDB que possa ter eventuais efeitos mais graves em nível nacional.

Essa preocupação será tema da conversa que o presidente nacional do PT, Rui Falcão, terá com dirigentes do partido no Rio esta semana, em data e local ainda a serem confirmados: “É preciso deixar claro que não se trata de uma ruptura. Nós vamos sair do governo de Sérgio Cabral por um motivo bem claro, porque nós temos candidato próprio ao governo do Estado do Rio de Janeiro. O candidato do PT é o Lindbergh Farias. Por isso, é lógico que nós temos que sair do governo estadual e entregar os cargos para que o candidato do governador componha seu governo e estruture sua própria candidatura. Nós não vamos apoiar o Pezão, estamos saindo por esse motivo. Não é uma ruptura”, diz o presidente municipal do PT no Rio, Alberes Lima.

Fator Beltrame
Embora segure seu ímpeto competitivo em obediência a Lula e a direção nacional do PT, Lindbergh não deixa de fazer algumas bem calculadas provocações políticas a Cabral, a Pezão e ao PMDB. A última delas foi ter afirmado que, se eleito governador, pedirá que o atual secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, permaneça no cargo. Responsável pela mais bem avaliada política pública desenvolvida nos quase sete anos de governo Cabral – as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) -, Beltrame, que goza de grande popularidade entre os fluminenses e vem sendo cortejado por diversos partidos políticos, foi obrigado a convocar a imprensa para desfazer aquilo que o PMDB qualificou como um mal-entendido provocado pelo PT: “Eu agradeço o reconhecimento da oposição, mas eu pertenço a esse governo. Se o Pezão se eleger, eu fico”, disse o secretário.

A declaração de Beltrame foi comemorada pelos peemedebistas. Alguns dias antes, no entanto, o secretario havia jogado um balde de água fria na própria direção estadual do PMDB ao, pela enésima vez, afirmar que não cogita concorrer como candidato a vice-governador na chapa de Pezão. Algumas cabeças coroadas do partido ainda tentaram convencer Beltrame – que é gaúcho de Santa Maria - a transferir seu domicílio eleitoral para o Rio até a data limite de 5 de outubro, mas o próprio governador dava o tom do desânimo frente a essa possibilidade: “Ele nunca se dispôs a disputar eleições. Quer continuar sendo um profissional da área de Segurança Pública”, disse Cabral.

Nenhum comentário:

Postar um comentário