segunda-feira, 23 de abril de 2012

PASSADO E PRESENTE


Quantas madrugadas atravessei na companhia das músicas de Geraldo Vandré? Não sei. Tempos ásperos carregados de esperança e angústia. O ritual sagrado de colocar quatro discos, com doze músicas cada um, na velha vitrola e deixar o tempo correr foi repetido muitas vezes. Trágicas décadas de 60 e70.
Época negra de nossa História. Tempo que experimentamos situações especiais de solidariedade, mas também uma época de um contínuo isolamento das pessoas. Situação certamente vivida por muitos iguais.
Ao som de Para não dizer que não falei de flores, estávamos mergulhados na longa noite do regime militar e dos seus fiéis parceiros da sociedade civil. Uma composição contra a Segurança Nacional, eram os inimigos subversivos e os perigosos comunistas.
Vou como quem vai chegar, dizia outra canção, funcionando como um fino e tênue alento para os sonhos da época. Esperança com angústia. Certeza de que todo ignorante é sempre mais feliz. Falava ainda para levarmos a vida cantando a esperança que um dia viria, uma certeza de que o nosso canto não seria em vão. Tudo viria ter um fim um dia...
Tempos de angústia que uma geração viveu e amargou, que vez por outra era sublimada por atos de coragem de muitos. Hoje vemos como ato de bravura dos que ficaram pela estrada.
Noites duras. Dias pesados para serem levados adiante. Tempos de manipulação de toda Nação, enganada pelo milagre brasileiro, aquele que primeiro iria fazer o bolo, para depois reparti-lo. Hoje a população espera o convite para participar da festa. Mas a festa já aconteceu com poucos convidados.
Todos embrutecemos e esquecemos a alegria. Um banho de melancolia na utopia sadia de pequenos grupos.  O tempo correu e com ele muitas dores nas noites escuras da ausência da liberdade e do reinado do arbítrio. Os anos fluíram e hoje, 1966, Geraldo Vandré voltou de forma moderna, em CD. Voltamos a ouvi-lo com a esperança de sempre. A angústia foi substituída pelo desafio de um novo tempo que temos pela frente.
Agora o horizonte é visível. Um convite ao trabalho para reconstruir a Nação que teve e ainda tem o seu povo avacalhado.
O tema atual é esperança como desafio, para o qual todos estão convidados a participar. Valeu a pena o tempo passado, mesmo tendo de andar escondido dentro de nós mesmos e de ter visto muitos sofrerem na pele e no corpo a mão pesada do dominador implacável...  A omissão não vale mais, sob hipótese alguma.
Aos que passaram pelo túnel negro do tempo, em frente.
Aos que foram apiados na rota da vida, nossa homenagem.
Aos que a cada dia entram na linha da miséria e perambulam pelos campos e pelas ruas das cidades pequenas e grandes, muitos enlouquecidos pela fome, produto de anos e anos de abandono, lamentavelmente este filme prossegue... Cabe a cada um imaginar e colocar em prática um novo filme.
Volto ao embalo das canções de Vandré, numa situação diferente dos tempos ásperos... Hoje, os que têm pouco, são muito mais e com muito menos. A esperança continua. A angústia foi substituída pelo desafio de materializar o sonho e a utopia. Bem vindo Geraldo Vandré, continue a embalar nossos sonhos. 
Vila Velha, 13 de maio de 1996.

Nenhum comentário:

Postar um comentário