terça-feira, 10 de setembro de 2013

Quase um quarto das línguas faladas na Índia está ameaçado de extinção


Meninas muçulmanas recitam o Alcorão em sala de aula de uma escola religiosa em Hyderabad (Índia) O lugar não foi escolhido por acaso. Foi no Memorial Gandhi, em Nova Déli, que os resultados do primeiro recenseamento linguístico realizado na Índia em quase um século foram revelados, na quinta-feira (5): das 850 línguas identificadas no país – 300 nunca haviam sido documentadas -, quase 200 estão ameaçadas de extinção pois são usadas por menos de 10 mil falantes.

Julien Bouissou
Meninas muçulmanas recitam o Alcorão em sala de aula de uma escola religiosa em Hyderabad (Índia)
A iniciativa de Ganesh Devy, autor desse projeto colossal – quatro anos de trabalho – de certa forma lembra a de Mahatma Gandhi. Esse ex-professor de literatura inglesa reuniu 3.000 voluntários à sua causa para registrar as línguas de todo o país, desde as montanhas da Caxemira até o arquipélago de Andaman.
Esse levantamento não foi conduzido por linguistas, mas sim pelo "povo". Os voluntários do Estudo Linguístico do Povo Indiano (PSLI ou People's Linguistic Survey of India) fizeram a seguinte pergunta a seus interlocutores: "Você acredita que fala uma língua diferente? Se sim, ajude-nos a retranscrevê-la."
As línguas consideradas deveriam ter uma gramática e um vocabulário únicos. Assim, professores, camponeses, acadêmicos retranscreveram milhares de lendas, canções, sem esquecer as palavras empregadas para designar as cores. "Essas palavras geralmente são as últimas a sumir quando uma língua está perto da extinção", justifica Ganesh Devy.
"A Índia está em seus vilarejos", costumava dizer Gandhi. Ela também está em suas centenas de dialetos por muito tempo ignorados, muitas vezes desprezados. As línguas carregam consigo concepções de mundo singulares. Mundos onde centenas de palavras podem designar o mar, como por exemplo nas comunidades de pescadores de Kerala.
O que nos ensina a evolução da linguagem sobre as transformações da sociedade indiana? "O empobrecimento do vocabulário empregado para descrever a vegetação, ou ainda a fauna, traduz a ruptura dos laços ecológicos entre os habitantes e seu meio ambiente", acredita Ganesh Devy.
Um conhecimento aprofundado das línguas também permite que se compreendam melhor os conflitos que atravessam a Índia. Como, por exemplo, o que ocorre entre as indústrias mineradoras e as populações tribais do leste do país, onde duas concepções de mundo colidem: uma onde a terra pertence ao homem, e a outra onde os homens pertencem à terra. Aqueles que a cobiçam contra aqueles que a veneram.
"Sem precedentes"
A colonização europeia, assim como as invasões dos mogóis, por exemplo, não pode ser apontada como única responsável pelo recuo da diversidade linguística. As línguas se sobrepunham então sem desaparecer. O multilinguismo agora faz parte da identidade de cada indiano, o que explicaria ainda, segundo alguns, a facilidade desconcertante com a qual os engenheiros do país dominam a linguagem informática.
Em Nova Déli, estudantes pobres têm aulas embaixo de ponte ferroviária. A escola informal criada por Rajesh Kumar atende diariamente mais de 50 crianças. Cerca de 3 milhões de crianças estão fora da escola na Índia, segundo o governo indiano. Instituições privadas dão conta de 8 milhões de jovens entre 6 e 14 anos fora da sala de aula
Os dialetos estão morrendo mais em razão da urbanização, das migrações, às vezes forçadas, e da globalização, que levou à imposição de um novo vocabulário. "É quando um povo precisa de uma outra língua para sobreviver, encontrar um trabalho ou aprender, que sua língua desaparece", explica o linguista indiano D.P. Pattanayak.
A apatia do Estado indiano não ajudou na preservação da diversidade linguística. Desde o fim dos anos 1970, as línguas faladas por menos de 10 mil falantes eram ignoradas a cada recenseamento da população. Nova Déli temia despertar reivindicações separatistas que fossem prejudicar a unidade do país.
"Não é necessariamente o inglês ou o hindi que estão suplantando os dialetos, mas as 22 línguas regionais faladas nos diferentes Estados", analisa Joseph Koyipally, professor de literatura que conduziu o recenseamento no Estado de Kerala. A supremacia dessas línguas priva milhares de crianças de uma educação.
"Somos mais de 150 mil a usar o rajbanshi como língua materna. Mas muitos de nossos filhos deixam a escola no fim do primário, pois não dominam a língua que é ensinada no colégio", explica D.K. Roy, voluntário no PSLI.
A ministra indiana da Cultura, Chandresh Kumari Katoch, presente na cerimônia do dia 5 de setembro, celebrou a diversidade linguística da Índia e louvou esse recenseamento, "um acontecimento sem precedentes desde a independência". Será que os trabalhos conduzidos por Ganesh Devy marcarão o início de uma reconciliação da Índia com sua diversidade linguística?
Tradutor: UOL

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