Transcorria o ano da graça (e da desgraça) de 1973. Portanto, o que vou narrar tem 40 anos. Se você tem essa idade, devo lhe dizer que, em 1973, corria solta a guerrilha do Araguaia, Salvador Allende foi derrubado, terminava a guerra do Vietnã, fizeram a primeira ligação pelo celular, inventaram a ethernet e ergueu-se o fatídico World Trade Center.
AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA
AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA
Aqui havia o governo Médici. E havia a censura. E havia a tortura. E havia a poesia.
Os exilados só iriam começar a retornar em 1979/1980. A coisa aqui era braba! O poeta Moacyr Felix chegou a publicar o poema: "O Exílio É Aqui".
A poesia é outro exílio. Então, nesse duplo exílio, eu, que na adolescência havia publicado "O Desemprego do Poeta"(1962), encarei, de novo, esse desencontro.
Acontece que eu era diretor do departamento de letras e arte da PUC-RJ. Acontece que havíamos criado ali uma pós-graduação que estava mexendo com o estatuto da teoria literária e, por isto, trouxe ao Brasil Michel Foucault. Acontece que, desafiando a repressão, propus aos alunos um curso muito doido, um curso sem bibliografia, um curso que não sabia como ia se desenrolar ou terminar.
E o imprevisível ocorreu. Quando pelos jornais os poetas do país souberam dessa "abertura poética" que antecedeu em cerca de dez anos a "abertura política", começaram a mandar seus poemas. E eu estimulava: já basta a censura dizendo o que se pode e não se pode fazer.
O projeto acabou se chamando Expoesia. Vários significados: exposição do que é, do que não é (ex) e do pretende ser poesia.
Naquele tempo a poesia brasileira era um estranho entredevorar-se de grupos que se hostilizavam: Geração de 45, concretismo, neoconcretismo, Práxis etc. Botar esse pessoal junto era uma temeridade. Cada grupo era dono da verdade e da poesia.
Havia um AI-5 não só na política mas na poesia. Cada movimento poético tinha (militarmente) suas "palavras de ordem".
Talvez cansados disso, os poetas atenderam milagrosamente ao chamado, exceto os concretistas paulistas. Esse movimento foi representado por uma bela exposição de poesia concreta alemã.
Durante uns dez dias, em outubro de 1973, para espanto dos padres e dos poetas, a universidade abriu-se ao inesperado. Faculdades e escolas programaram visitas de alunos.
E foi histórico o debate entre João Cabral de Melo Neto, Chico Buarque, Gilberto Gil, Ronaldo Bastos e Jards Macalé: um diálogo entre música popular e poesia erudita no auditório apinhado de jovens.

Affonso Romano de Sant'Anna(de cavanhaque), Gilberto Gil (ao microfone), João Cabral de Melo Neto (de terno) e Chico Buarque, durante o Expoesia
A ideia proliferou: Curitiba realizou a Expoesia 2, Friburgo, a Expoesia 3, e havia pedidos para que se fizessem outras expoesias em Brasília, Belo Horizonte, Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul.
O SNI (Serviço Nacional de Informações) considerou a Expoesia o movimento mais subversivo daquele ano.
AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA, 76, é poeta e escritor, autor de "Sísifo Desce a Montanha" (Rocco).
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